{"id":27346,"date":"2017-03-02T12:07:44","date_gmt":"2017-03-02T12:07:44","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/?p=27346"},"modified":"2017-03-02T12:07:44","modified_gmt":"2017-03-02T12:07:44","slug":"a-palavra-e-um-dom-o-outro-e-um-dom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-palavra-e-um-dom-o-outro-e-um-dom\/","title":{"rendered":"&#8220;A Palavra \u00e9 um dom. O outro \u00e9 um dom&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s!<br \/>\nA Quaresma \u00e9 um novo come\u00e7o, uma estrada que leva a um destino seguro: a P\u00e1scoa de Ressurrei\u00e7\u00e3o, a vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte. E este tempo n\u00e3o cessa de nos dirigir um forte convite \u00e0 convers\u00e3o: o crist\u00e3o \u00e9 chamado a voltar para Deus \u00abde todo o cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Jl 2, 12), n\u00e3o se contentando com uma vida med\u00edocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus \u00e9 o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perd\u00e3o (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).<br \/>\nA Quaresma \u00e9 o momento favor\u00e1vel para intensificarmos a vida espiritual atrav\u00e9s dos meios santos que a Igreja nos prop\u00f5e: o jejum, a ora\u00e7\u00e3o e a esmola. Na base de tudo isto, por\u00e9m, est\u00e1 a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na par\u00e1bola do homem rico e do pobre L\u00e1zaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta p\u00e1gina t\u00e3o significativa, que nos d\u00e1 a chave para compreender como temos de agir para alcan\u00e7armos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera convers\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>1. O outro \u00e9 um dom<\/strong><br \/>\nA par\u00e1bola inicia com a apresenta\u00e7\u00e3o dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada \u00e9 o pobre: encontra-se numa condi\u00e7\u00e3o desesperada e sem for\u00e7as para se solevar, jaz \u00e0 porta do rico na esperan\u00e7a de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os c\u00e3es v\u00eam lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro \u00e9 sombrio, com o homem degradado e humilhado.<br \/>\nA cena revela-se ainda mais dram\u00e1tica, quando se considera que o pobre se chama L\u00e1zaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, \u00abDeus ajuda\u00bb. N\u00e3o se trata duma pessoa an\u00f3nima; antes, tem tra\u00e7os muito concretos e aparece como um indiv\u00edduo a quem podemos atribuir uma hist\u00f3ria pessoal. Enquanto L\u00e1zaro \u00e9 como que invis\u00edvel para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de fam\u00edlia, torna-se um rosto; e, como tal, \u00e9 um dom, uma riqueza inestim\u00e1vel, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condi\u00e7\u00e3o concreta ser a duma esc\u00f3ria humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).<br \/>\nL\u00e1zaro ensina-nos que o outro \u00e9 um dom. A justa rela\u00e7\u00e3o com as pessoas consiste em reconhecer, com gratid\u00e3o, o seu valor. O pr\u00f3prio pobre \u00e0 porta do rico n\u00e3o \u00e9 um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta par\u00e1bola \u00e9 o de abrir a porta do nosso cora\u00e7\u00e3o ao outro, porque cada pessoa \u00e9 um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma \u00e9 um tempo prop\u00edcio para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de n\u00f3s encontra-o no pr\u00f3prio caminho. Cada vida que se cruza connosco \u00e9 um dom e merece aceita\u00e7\u00e3o, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e am\u00e1-la, sobretudo quando \u00e9 fr\u00e1gil. Mas, para se poder fazer isto, \u00e9 necess\u00e1rio tomar a s\u00e9rio tamb\u00e9m aquilo que o Evangelho nos revela a prop\u00f3sito do homem rico.<\/p>\n<p><strong>2. O pecado cega-nos<\/strong><br \/>\nA par\u00e1bola p\u00f5e em evid\u00eancia, sem piedade, as contradi\u00e7\u00f5es em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contr\u00e1rio do pobre L\u00e1zaro, n\u00e3o tem um nome, \u00e9 qualificado apenas como \u00abrico\u00bb. A sua opul\u00eancia manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a p\u00farpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir \u00e0 posi\u00e7\u00e3o da pessoa um car\u00e1ter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem \u00e9 excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: \u00abFazia todos os dias espl\u00eandidos banquetes\u00bb (v. 19). Entrev\u00ea-se nele, dramaticamente, a corrup\u00e7\u00e3o do pecado, que se realiza em tr\u00eas momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).<br \/>\nO ap\u00f3stolo Paulo diz que \u00aba raiz de todos os males \u00e9 a gan\u00e2ncia do dinheiro\u00bb (1 Tm 6, 10). Esta \u00e9 o motivo principal da corrup\u00e7\u00e3o e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos at\u00e9 ao ponto de se tornar um \u00eddolo tir\u00e2nico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a n\u00f3s e ao mundo inteiro, numa l\u00f3gica ego\u00edsta que n\u00e3o deixa espa\u00e7o ao amor e dificulta a paz.<br \/>\nDepois, a par\u00e1bola mostra-nos que a gan\u00e2ncia do rico f\u00e1-lo vaidoso. A sua personalidade vive de apar\u00eancias, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a apar\u00eancia serve de m\u00e1scara para o seu vazio interior. A sua vida est\u00e1 prisioneira da exterioridade, da dimens\u00e3o mais superficial e ef\u00e9mera da exist\u00eancia (cf. ibid., 62).<br \/>\nO degrau mais baixo desta deteriora\u00e7\u00e3o moral \u00e9 a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posi\u00e7\u00e3o dum deus, esquecendo-se que \u00e9 um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe al\u00e9m do pr\u00f3prio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam n\u00e3o caiem sob a al\u00e7ada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro \u00e9 uma esp\u00e9cie de cegueira: o rico n\u00e3o v\u00ea o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilha\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOlhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho \u00e9 t\u00e3o claro ao condenar o amor ao dinheiro: \u00abNingu\u00e9m pode servir a dois senhores: ou n\u00e3o gostar\u00e1 de um deles e estimar\u00e1 o outro, ou se dedicar\u00e1 a um e desprezar\u00e1 o outro. N\u00e3o podeis servir a Deus e ao dinheiro\u00bb (Mt 6, 24).<\/p>\n<p><strong>3. A Palavra \u00e9 um dom<\/strong><br \/>\nO Evangelho do homem rico e do pobre L\u00e1zaro ajuda a prepararmo-nos bem para a P\u00e1scoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experi\u00eancia semelhante \u00e0 que faz de forma t\u00e3o dram\u00e1tica o rico. Quando imp\u00f5e as cinzas sobre a cabe\u00e7a, o sacerdote repete estas palavras: \u00abLembra-te, homem, que \u00e9s p\u00f3 da terra e \u00e0 terra h\u00e1s de voltar\u00bb. De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da par\u00e1bola desenrola-se no Al\u00e9m. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que n\u00f3s \u00abnada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele\u00bb (1 Tm 6, 7).<br \/>\nTamb\u00e9m o nosso olhar se abre para o Al\u00e9m, onde o rico tece um longo di\u00e1logo com Abra\u00e3o, a quem trata por \u00abpai\u00bb (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contradit\u00f3ria a sua vida, porque at\u00e9 agora nada se disse da sua rela\u00e7\u00e3o com Deus. Com efeito, na sua vida, n\u00e3o havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu \u00fanico deus.<br \/>\nS\u00f3 no meio dos tormentos do Al\u00e9m \u00e9 que o rico reconhece L\u00e1zaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de \u00e1gua. Os gestos solicitados a L\u00e1zaro s\u00e3o semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abra\u00e3o, por\u00e9m, explica-lhe: \u00abRecebeste os teus bens na vida, enquanto L\u00e1zaro recebeu somente males. Agora, ele \u00e9 consolado, enquanto tu \u00e9s atormentado\u00bb (v. 25). No Al\u00e9m, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida s\u00e3o contrabalan\u00e7ados pelo bem.<br \/>\nMas a par\u00e1bola continua, apresentando uma mensagem para todos os crist\u00e3os. De facto o rico, que ainda tem irm\u00e3os vivos, pede a Abra\u00e3o que mande L\u00e1zaro avis\u00e1-los; mas Abra\u00e3o respondeu: \u00abT\u00eam Mois\u00e9s e os Profetas; que os oi\u00e7am\u00bb (v. 29). E, \u00e0 sucessiva obje\u00e7\u00e3o do rico, acrescenta: \u00abSe n\u00e3o d\u00e3o ouvidos a Mois\u00e9s e aos Profetas, t\u00e3o-pouco se deixar\u00e3o convencer, se algu\u00e9m ressuscitar dentre os mortos\u00bb (v. 31).<br \/>\nDeste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males \u00e9 n\u00e3o dar ouvidos \u00e0 Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o pr\u00f3ximo. A Palavra de Deus \u00e9 uma for\u00e7a viva, capaz de suscitar a convers\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o cora\u00e7\u00e3o ao dom de Deus que fala, tem como consequ\u00eancia fechar o cora\u00e7\u00e3o ao dom do irm\u00e3o.<br \/>\nAmados irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Quaresma \u00e9 o tempo favor\u00e1vel para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no pr\u00f3ximo. O Senhor \u2013 que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador \u2013 indica-nos o caminho a seguir. Que o Esp\u00edrito Santo nos guie na realiza\u00e7\u00e3o dum verdadeiro caminho de convers\u00e3o, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irm\u00e3os necessitados. Encorajo todos os fi\u00e9is a expressar esta renova\u00e7\u00e3o espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em v\u00e1rias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na \u00fanica fam\u00edlia humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vit\u00f3ria de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao fr\u00e1gil e ao pobre. Ent\u00e3o poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da P\u00e1scoa.<br \/>\n<strong>Papa Francisco<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s! A Quaresma \u00e9 um novo come\u00e7o, uma estrada que leva a um destino seguro: a P\u00e1scoa de Ressurrei\u00e7\u00e3o, a vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte. E este tempo n\u00e3o cessa de nos dirigir um forte convite \u00e0 convers\u00e3o: o crist\u00e3o \u00e9 chamado a voltar para Deus \u00abde todo o cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Jl [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-27346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-igreja"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27346"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27347,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27346\/revisions\/27347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}