{"id":27361,"date":"2017-03-09T15:55:05","date_gmt":"2017-03-09T15:55:05","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/?p=27361"},"modified":"2017-03-09T15:55:05","modified_gmt":"2017-03-09T15:55:05","slug":"uma-mulher-coerente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-mulher-coerente\/","title":{"rendered":"Uma mulher coerente"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_24701\" aria-describedby=\"caption-attachment-24701\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jgaspar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-24701\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jgaspar.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"154\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24701\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar<br \/> Padre e historiador.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ocorre hoje, dia 08 de mar\u00e7o, o Dia Internacional da Mulher. Ao longo de v\u00e1rios anos, tenho-o comemorado com refer\u00eancias a mulheres de Aveiro ou de outras terras. \u00c9 o que novamente vou fazer.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 muito tempo, passei uns dias em \u00c9vora. Numa das tardes, fui at\u00e9 \u00e0 igreja do Carmo; admirei novamente a \u2018porta dos n\u00f3s\u2019, as propor\u00e7\u00f5es monumentais do templo, a altura da c\u00fapula e a arte dos ret\u00e1bulos. Depois disso, sentei-me diante do Sacr\u00e1rio e a\u00ed ocupei uns minutos no sossego da ora\u00e7\u00e3o. Quando me levantei, dirigiu-se-me uma senhora, dos seus trinta e cinco anos, que perguntou: &#8211; \u00abPorventura, o senhor \u00e9 sacerdote?\u00bb Perante a resposta afirmativa, confirmada pelo respetivo cart\u00e3o de sacerdote, ela pediu-me o favor de uns momentos, porque desejava \u2018reconciliar-se\u2019 pelo sacramento. De parte a parte, n\u00e3o houve interesse em saber os nossos nomes nem os das nossas terras de resid\u00eancia; isso tamb\u00e9m n\u00e3o importava. Sent\u00e1mo-nos num banco, ao fundo da igreja.<br \/>\nSa\u00edmos, ap\u00f3s a \u2018absolvi\u00e7\u00e3o\u2019 e uma curta prece de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as a Deus; todavia, ela deu-me a entender que desejava mais qualquer palavra de um sacerdote. C\u00e1 fora, no adro, fic\u00e1mos de p\u00e9 a conversar. Continu\u00e1mos mutuamente como dois desconhecidos; apenas me pareceu que ela, pela tonalidade da fala, n\u00e3o seria alentejana. Disse ent\u00e3o mais ou menos, recordando algo da sua vida:<br \/>\n&#8211; \u00abSou uma religiosa consagrada. Perten\u00e7o a uma fam\u00edlia crist\u00e3, cujos membros sempre se comprometeram com atividades eclesiais. A minha m\u00e3e \u00e9 catequista na par\u00f3quia, o meu pai \u00e9 \u2018juiz\u2019 da Irmandade do Sant\u00edssimo Sacramento e os meus dois irm\u00e3os e a minha irm\u00e3, todos casados e com filhos, s\u00e3o cat\u00f3licos praticantes e colaboradores nas suas comunidades. Eu, pessoalmente, sinto-me muito feliz. Fui aluna de um col\u00e9gio da Igreja e, na juventude, decidi-me resolutamente pela vida numa congrega\u00e7\u00e3o religiosa. Depois do postulantado e do noviciado, professei com os votos perp\u00e9tuos; contava vinte e dois anos de idade. Cristo manifestou-se-me como luz fulgurante, entrando pelas portas escancaradas da minha alma e dando-me coragem no meu caminhar de amor\u00bb.<br \/>\nNesta altura, interrompi o mon\u00f3logo de quem falava, dizendo: &#8211; \u00abEnquanto foi desenrolando a linda hist\u00f3ria dos seus anos, estive a pensar que em qualquer um de n\u00f3s resplandece a indefin\u00edvel luz de Deus. Tamb\u00e9m, no nosso pequeno espa\u00e7o \u00edntimo, se pode encontrar a morada esplendorosa de Deus.\u00bb<br \/>\nPor gra\u00e7a divina, a minha interfer\u00eancia casual transmitiu um certo conforto \u00e0 irm\u00e3 religiosa, que continuou: &#8211; \u00abPor\u00e9m, o que me entristece \u00e9 que, desde h\u00e1 alguns meses, querem-se infiltrar em mim uns t\u00e9nues negrumes de escurid\u00e3o, a pretenderem ofuscar o meu amor a Jesus Cristo; em consequ\u00eancia, distraio-me frequentemente na ora\u00e7\u00e3o particular e comunit\u00e1ria, n\u00e3o sou caritativa e servi\u00e7al como era, olho para as outras pessoas e n\u00e3o procuro descobrir nelas Aquele a quem eu somente quero amar. Tenho tanta pena disto, que me faz nervosa e sem paz na consci\u00eancia!\u00bb<br \/>\nRespondi-lhe, muito naturalmente: &#8211; \u00abN\u00f3s, os sacerdotes e os religiosos consagrados, somos felizes na medida em que continuamos a corresponder ao primeiro e \u00fanico Amor, que nos fascinou na idade jovem. Para que isto aconte\u00e7a, temos de nos fortalecer constantemente em momentos vividos com Deus, na fidelidade ao caminho, que \u00e9 Cristo, e na gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo.\u00bb A prop\u00f3sito, recordei-lhe as palavras de S. Jo\u00e3o Evangelista (I, 3, 23-24): &#8211; \u00ab\u00c9 este o mandamento de Deus: acreditar no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e amarmo-nos uns aos outros, como Ele nos mandou; quem observa os seus mandamentos, permanece em Deus e Deus nele.\u00bb<br \/>\nTerminando este breve di\u00e1logo, repeti \u00e0 irm\u00e3 religiosa algumas das \u00faltimas palavras de uma adolescente de Aveiro, Maria Jo\u00e3o Xarrama Bergano, que faleceu em janeiro de 1985: &#8211; \u00abDeus \u00e9 t\u00e3o grande que tapa o universo, mas t\u00e3o pequeno que cabe nos nossos cora\u00e7\u00f5es.\u00bb E conclu\u00ed, com um gesto de gratid\u00e3o: &#8211; \u00abLembro-lhe o conselho do nosso povo de outrora: &#8211; \u2018N\u00e3o d\u00eas o bra\u00e7o \u00e0 tristeza, \/ tristeza \u00e9 m\u00e1 companhia; \/ ama a Deus, trabalha e reza, \/ canta, sorri e confia\u2019. Contudo, mais do que este aforismo, dar-lhe-\u00e1 \u00e2nimo a afirma\u00e7\u00e3o de Jesus (Jo, 8, 12): &#8211; \u2018Eu sou a luz do mundo; quem Me segue n\u00e3o andar\u00e1 nas trevas, mas possuir\u00e1 a luz da vida\u2019. Tenha coragem; acredite que Deus est\u00e1 consigo, como sua \u00fanica for\u00e7a.\u00bb<br \/>\nEntr\u00e1mos novamente na igreja, para a despedida. Ent\u00e3o, num lampejo de mem\u00f3ria, iniciei o texto de uma poesia de Santa Teresa de Jesus, que ela acompanhou sem qualquer hesita\u00e7\u00e3o: &#8211; \u00abNada te perturbe, nada te espante; tudo passa, Deus n\u00e3o muda; a paci\u00eancia tudo alcan\u00e7a. Quem a Deus tem, nada lhe falta; s\u00f3 Deus basta!\u00bb<br \/>\nPor fim, cada qual seguiu o seu caminho, ficando-me a recorda\u00e7\u00e3o de uma mulher que desejava ser coerente consigo mesma e cada vez mais fiel ao seu trajeto de vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocorre hoje, dia 08 de mar\u00e7o, o Dia Internacional da Mulher. Ao longo de v\u00e1rios anos, tenho-o comemorado com refer\u00eancias a mulheres de Aveiro ou de outras terras. \u00c9 o que novamente vou fazer. N\u00e3o h\u00e1 muito tempo, passei uns dias em \u00c9vora. 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