{"id":27451,"date":"2017-04-13T14:25:13","date_gmt":"2017-04-13T14:25:13","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/?p=27451"},"modified":"2017-04-13T14:25:13","modified_gmt":"2017-04-13T14:25:13","slug":"a-maldicao-de-cassandra-vivemos-tempos-de-impossivel-amoralidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-maldicao-de-cassandra-vivemos-tempos-de-impossivel-amoralidade\/","title":{"rendered":"A maldi\u00e7\u00e3o de Cassandra. Vivemos tempos de imposs\u00edvel amoralidade"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25043\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"183\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg 400w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg 245w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA<br \/> Professor. Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura &#8211; Aveiro<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nenhum ato genuinamente humano est\u00e1 destitu\u00eddo de moralidade. Toda a a\u00e7\u00e3o de um ser humano consciente \u00e9 suscet\u00edvel de leitura moral. A leitura moral \u00e9 aquela que incide sobre a bondade e a maldade das a\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDesde sempre, por\u00e9m, como bem demonstra a narrativa b\u00edblica do para\u00edso, quisemos fazer de conta que n\u00e3o sab\u00edamos que os atos s\u00e3o sempre ou bons ou maus. Preferimos pens\u00e1-los como belos ou feios ou, ent\u00e3o, como l\u00edcitos ou il\u00edcitos, bastando-nos, para isso, mudar as leis. Mas, de facto, n\u00e3o \u00e9 assim. H\u00e1 atos que realizam a humanidade que h\u00e1 em n\u00f3s e h\u00e1 atos que a destroem ou n\u00e3o a respeitam. N\u00e3o basta, para isso, que os atos tenham sido legitimados pelo nosso desejo ou pela nossa autonomia. Bem certo que a autonomia \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que os atos bons ou maus nos sejam imputados e sejamos por eles responsabilizados. Mas a autonomia n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente para a sua moralidade. E este parece-me ser o drama do nosso tempo. Absolutiz\u00e1mos a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria que \u00e9 a autonomia, tornando-a uma condi\u00e7\u00e3o suficiente.<br \/>\nTorno mais claro o meu discurso.<br \/>\nN\u00e3o basta que tenhamos querido fazer algo ou que determinado comportamento tenha sido consentido ou at\u00e9 pretendido para que se torne um comportamento bom. A sua bondade \u00e9-lhe inerente e resulta do seu grau de respeito pela dignidade que \u00e9 anterior ao meu ou ao reconhecimento dos outros.<br \/>\nVem isto a prop\u00f3sito da vertigem libert\u00e1ria que vem tomando, como um tsunami, a legisla\u00e7\u00e3o portuguesa que legaliza tudo, desde que seja consentido ou pretendido. Assim aconteceu com o aborto e est\u00e1 prestes a acontecer com a prostitui\u00e7\u00e3o, com a eutan\u00e1sia, com as drogas e, se continuarmos esta vertigem, chegaremos ao que j\u00e1 se discute na Su\u00e9cia, entre as juventudes partid\u00e1rias, que pretendem legalizar o incesto, desde que realizado entre dois adultos. Na Alemanha, em 2001, ficou claro que um ato livre e aut\u00f3nomo s\u00f3 \u00e9 leg\u00edtimo se respeitar a dignidade da vida humana, quando os tribunais tiveram de decidir o que fazer com o canibal de Rotemburgo, num caso em que um adulto divulgou que pretendia ser morto e devorado por algu\u00e9m, e tal veio a ocorrer. O canibal de Rotemburgo, apesar de tudo ter sido feito com documentos assinados e concretizado entre adultos, foi mesmo condenado por homic\u00eddio e por profana\u00e7\u00e3o de cad\u00e1ver. Mas h\u00e1 muitos para quem tal seria leg\u00edtimo, pois foi realizado entre adultos. Como \u00e9 poss\u00edvel?<br \/>\nAssistimos, com efeito, a uma surdez e cegueira perante o que devia ser claro e evidente: o que atenta contra a dignidade da vida humana n\u00e3o pode ser aceite e tolerado e deve ser reconhecido como imoral. N\u00e3o h\u00e1 que ter medo de reconhecer a imoralidade. De outro modo, continuaremos a condenar Cassandra \u00e0 sua maldi\u00e7\u00e3o. E qual \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o de Cassandra?<br \/>\nA hist\u00f3ria de Cassandra ilustra a dificuldade em dar ouvidos ao discurso moral. Resistimos a ele. Queremos que ele n\u00e3o tenha raz\u00e3o. Preferimos pensar que as coisas s\u00e3o belas (da ordem do est\u00e9tico) ou l\u00edcitas (da ordem do jur\u00eddico). Dizer que s\u00e3o boas ou m\u00e1s incomoda-nos. Isso n\u00e3o \u00e9 de hoje. O mito de Cassandra, que tem mais de 2800 anos, ilustra-o, de forma cabal. Podemos encontr\u00e1-lo, quer na Il\u00edada, quer na Odisseia, epopeias de Homero.<br \/>\nE o que nos conta o mito de Cassandra?<br \/>\nSocorro-me da narrativa de Luc Ferry, no seu livro \u00abA sabedoria dos mitos\u00bb, da editora Temas e Debates (pp. 174-175): \u00ab[Cassandra] vive marcada por uma afli\u00e7\u00e3o nefasta que lhe vem de Apolo. O deus da M\u00fasica apaixonou-se por ela e, para ganhar os seus favores, confere-lhe um maravilhoso dom: prever o futuro. Cassandra aceita, mas, no \u00faltimo momento, recusa ceder aos avan\u00e7os do deus\u2026 que lho leva bastante a mal. Para se vingar, lan\u00e7a-lhe um terr\u00edvel encanto: ela poder\u00e1 sempre prever corretamente o futuro \u2013 o prometido \u00e9 devido \u2013 mas nunca ningu\u00e9m acreditar\u00e1 nela! \u00c9 assim que Cassandra roga ao pai que n\u00e3o deixe entrar o cavalo de Troia na cidade. Em v\u00e3o, pois ningu\u00e9m a escuta.\u00bb<br \/>\nComo sabemos, o cavalo de Troia, que os troianos tomaram como um trof\u00e9u pela sua vit\u00f3ria perante a retirada (simulada) dos gregos, afinal, escondia, no seu interior, o inimigo que veio a entrar, assim, no interior da cidade, acabando por venc\u00ea-la. Cassandra bem avisara, mas a sua voz n\u00e3o se ouviu.<br \/>\nContrariamente ao preconceito que se foi avolumando, em especial nestes \u00faltimos dois s\u00e9culos, a moral personalista, que reconhece a intoc\u00e1vel dignidade da vida humana, o seu car\u00e1ter sagrado e anterior a todo o reconhecimento, \u00e9 o que de mais vanguardista poderemos encontrar, no momento de decidir. Ela n\u00e3o \u00e9 a voz de um velho de Restelo, como, tantas vezes, afirmamos ou supomos. Ela \u00e9, como Cassandra, a voz antecipada do futuro que nos diz que, por este caminho, f\u00e1cil e evidente diante dos olhos, chegaremos a terreno de escolhos e perigos desnecess\u00e1rios. H\u00e1 que continuar, por isso, a refletir e a pensar para procurar um caminho melhor. Ela \u00e9 o desafio de utilizar a intelig\u00eancia em vez de ceder \u00e0 imediatez.<br \/>\nNa verdade, a moral personalista assegura, na linha do que Kant consagrou, na sua \u00abFundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos Costumes\u00bb, que as pessoas t\u00eam sempre de ser tratadas como fins e nunca como meios, pois, como afirmava \u201cno reino dos fins tudo tem ou um pre\u00e7o ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um pre\u00e7o, pode-se p\u00f4r em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa est\u00e1 acima de todo o pre\u00e7o, e portanto n\u00e3o permite equivalente, ent\u00e3o tem ela dignidade.\u201d (Fundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos costumes, edi\u00e7\u00f5es 70, p. 77)<br \/>\nE essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de cada ser humano. N\u00e3o tem um pre\u00e7o porque n\u00e3o pode ser reduzido a meio.<br \/>\nMas Cassandra continua a gritar sem que se lhe deem ouvidos.<br \/>\n\u2026e o cavalo de Troia vai atravessando as muralhas, a pretexto de ser um trof\u00e9u.<\/p>\n<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-25043\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"488\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg 400w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg 245w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA<br \/>Professor. Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura &#8211; Aveiro<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nenhum ato genuinamente humano est\u00e1 destitu\u00eddo de moralidade. Toda a a\u00e7\u00e3o de um ser humano consciente \u00e9 suscet\u00edvel de leitura moral. A leitura moral \u00e9 aquela que incide sobre a bondade e a maldade das a\u00e7\u00f5es. 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