{"id":2780,"date":"2010-10-20T10:24:00","date_gmt":"2010-10-20T10:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2780"},"modified":"2010-10-20T10:24:00","modified_gmt":"2010-10-20T10:24:00","slug":"um-clamor-ja-escutado-e-outros-que-esperam-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-clamor-ja-escutado-e-outros-que-esperam-vez\/","title":{"rendered":"Um clamor j\u00e1 escutado e outros que esperam vez"},"content":{"rendered":"<p>Todos vibramos, com alegria e emo\u00e7\u00e3o, pelo \u00eaxito dos muitos esfor\u00e7os que se conjugaram na ac\u00e7\u00e3o de salvamento dos mineiros chilenos. Um \u00eaxito que foi al\u00e9m das expectativas de muitos que, directamente, se envolveram na opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faltou quem duvidasse, quem dissesse que era causa perdida, quem falasse de esperan\u00e7a, mais para consolar as fam\u00edlias, que pela certeza de que o desejo se poderia transformar em realidade. Os apoios de todo o lado multiplicaram-se, os esfor\u00e7os foram tendo resultados positivos, a tenaz paci\u00eancia comandou o processo, as etapas previstas empurraram-se umas \u00e0s outras. Parece que o mundo parou. Os homens foram saindo e o chefe quis ser o \u00faltimo, como era seu dever.<\/p>\n<p>O clamor de trinta e tr\u00eas homens resistentes, gritando sempre pela vida, quando envolvidos pela terr\u00edvel perspectiva de um maior poder da morte; a decis\u00e3o comum de n\u00e3o desistir, dentro e fora da mina; a conjuga\u00e7\u00e3o maravilhosa da capacidade humana, das possibilidades t\u00e9cnicas e do saber cient\u00edfico adquirido; a disponibilidade de quem podia ao servi\u00e7o de quem mais precisava; o gesto de solidariedade que abanou a sociedade das v\u00e1rias l\u00ednguas e cores e a todos fez bem, tudo isto mostrou que h\u00e1 clamores que quando escutados deixam o mundo mais humano, e mais confiante nas suas capacidades de sempre \u201cfazer o bem sem olhar a quem\u201d. <\/p>\n<p>Logo pela manh\u00e3, ao ouvir a not\u00edcia de que o primeiro mineiro j\u00e1 estava salvo, e que logo outros iam chegando por igual caminho, na esperan\u00e7a de que em 48 horas estariam todos fora da mina, dei por mim a dar gra\u00e7as a Deus por ter dado ao homem tanta for\u00e7a de esperan\u00e7a, tanta capacidade de bem e tanta possibilidade de o fazer, sempre que o \u201coutro\u201d que \u00e9, tamb\u00e9m, um irm\u00e3o, clama sem cessar e, impotente, estende a sua m\u00e3o, \u00e0 procura de outra m\u00e3o amiga que o possa salvar.<\/p>\n<p>Tudo isto constitui um sinal que \u00e9 preciso interpretar. H\u00e1 muitos clamores de vida, ainda sem resposta, mal escutados ou sacudidos pelo inc\u00f3modo que geram. O Mil\u00e9nio em que vivemos e h\u00e1 pouco iniciado, por decis\u00e3o de inst\u00e2ncias internacionais, leva consigo o compromisso de se empenhar de modo efectivo, em oito objectivos de resposta adequada a problemas humanos graves. Logo \u00e0 cabe\u00e7a vem \u201cerradicar a pobreza extrema e a fome\u201d. \u00c9 esta, por certo, a situa\u00e7\u00e3o mais escandalosa, a que mais envergonha a humanidade, a que p\u00f5e mais a descoberto a invers\u00e3o de valores, e mostra que, mesmo ap\u00f3s a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, ainda h\u00e1 pessoas pouco valem e, em muitos casos, n\u00e3o valem nada.<\/p>\n<p>Os jornais enchem-se de not\u00edcias e de artigos, fazem-se congressos com oradores ilustres e de fama, tomam-se iniciativas que n\u00e3o passam de uma gota de \u00e1gua. Antes morria de fome uma crian\u00e7a de seis em seis minutos, agora de sete em sete. Neste nosso planeta s\u00e3o 925 milh\u00f5es as pessoas que passam fome. Com 1% do que se recolhe para salvar o sistema financeiro podia erradicar-se a fome no mundo. Os pa\u00edses ricos fazem declara\u00e7\u00f5es maravilhosas, mas n\u00e3o entregam dinheiro. Os regimes pol\u00edticos gabam-se de acabar com as barracas de mis\u00e9ria, mas apenas as retiram do olhar de quem passa e as afastam para zonas sem passagem. Mas mis\u00e9ria, que \u00e9 pobreza humana e social agravada, n\u00e3o precisa s\u00f3 de p\u00e3o, mas tamb\u00e9m de solu\u00e7\u00f5es que garantam o p\u00e3o de cada dia e, para todos, uma vida digna de pessoas. Vimos assistindo em diversos pa\u00edses da Europa, e tamb\u00e9m em Portugal, a corrup\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias. Os governos esfor\u00e7am-se por encontrar dinheiro que as possa sanar. Quem dera que se visse igual afinco para resolver os problemas dos pobres.<\/p>\n<p>H\u00e1 clamores n\u00e3o escutados. Quando todos quisermos e formos estimulados por quem queira de verdade e pode tomar decis\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 problemas sem solu\u00e7\u00e3o. A pobreza, que redunda, inexoravelmente, em mis\u00e9ria, \u00e9 hoje o maior dos problemas sociais que  cada dia se agrava. Ela tem rosto e tem hist\u00f3ria. Constitui a vergonha de todos n\u00f3s que nos vamos deixando afogar pelo consumismo e nos perdemos em ret\u00f3ricas est\u00e9reis. At\u00e9 quando? Ser\u00e1 que esperamos que nos bata \u00e0 nossa porta e nos abocanhe? J\u00e1 faltou mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos vibramos, com alegria e emo\u00e7\u00e3o, pelo \u00eaxito dos muitos esfor\u00e7os que se conjugaram na ac\u00e7\u00e3o de salvamento dos mineiros chilenos. 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