{"id":27827,"date":"2018-05-10T08:52:55","date_gmt":"2018-05-10T08:52:55","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/?p=27827"},"modified":"2018-05-10T08:52:55","modified_gmt":"2018-05-10T08:52:55","slug":"a-estrategia-da-desconstrucao-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-estrategia-da-desconstrucao-geral\/","title":{"rendered":"A estrat\u00e9gia da desconstru\u00e7\u00e3o geral"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25043\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"183\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg 400w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg 245w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA Professor. Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura<\/figcaption><\/figure>\n<p>Construir \u00e9 sempre uma tarefa lenta, morosa, paciente. Contrasta com a facilidade com que se pode destruir. \u00c9, ali\u00e1s, para alguns, este um dos grandes argumentos de que o mundo tem de supor a exist\u00eancia de Deus, pois s\u00f3 uma vontade f\u00e9rrea, capaz de conferir dinamismo de autossupera\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o, \u00e9 que poderia garantir o sucesso da vida diante da viol\u00eancia da morte e do inesperado da destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas regressemos ao ponto de partida.<br \/>\nSabemos qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 construir os liames com que se une uma sociedade. E sabemos, tamb\u00e9m, como t\u00e3o facilmente \u00e9 poss\u00edvel gerar ondas de destrui\u00e7\u00e3o que degradam o \u2018cimento\u2019 que gerava a for\u00e7a que unia.<br \/>\nAssiste-se a um poderoso movimento de desconstru\u00e7\u00e3o intencional dos liames que cimentam os la\u00e7os que nos ligam, enquanto seres sociais.<br \/>\nN\u00e3o se pense que este processo \u00e9 ing\u00e9nuo, gratuito e sem inten\u00e7\u00e3o. Ele corresponde a um desiderato bem definido. Basta que se leiam com aten\u00e7\u00e3o livros como \u00abO livro negro da Revolu\u00e7\u00e3o francesa\u00bb ou \u00abdez livros que estragaram o mundo e mais cinco que tamb\u00e9m n\u00e3o ajudaram nada\u00bb ou, mais recentemente, \u00abcontributos para hist\u00f3ria do feminismo\u00bb, todos editados pela Al\u00eatheia, uma editora que vai arriscando trazer \u00e0 m\u00e3o dos leitores preciosidades que fazem repensar o modo como se vai fazendo a pol\u00edtica, no ocidente.<br \/>\nUne todos estes livros o reconhecimento de que se est\u00e1 a assistir, de h\u00e1 dois s\u00e9culos e meio para c\u00e1, a um processo de desconstru\u00e7\u00e3o intencional.<br \/>\nComo j\u00e1 descrev\u00edamos, em artigo anterior, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 deixar o indiv\u00edduo sozinho perante o Estado. Isso mesmo sustentava Robespierre, um dos arautos da revolu\u00e7\u00e3o francesa, que acabou v\u00edtima da vertigem homicida que ele pr\u00f3prio protagonizou. Na sua perspetiva &#8211; defendida por muitos, hoje, com outras justifica\u00e7\u00f5es -, \u00aba p\u00e1tria tem o direito de educar os seus filhos; ela n\u00e3o pode confiar este dep\u00f3sito ao orgulho das fam\u00edlias, nem aos preconceitos dos particulares, alimentos permanentes da aristocracia e de um federalismo dom\u00e9stico que retrai as almas ao isol\u00e1-las.\u00bb (Escande, O livro negro da revolu\u00e7\u00e3o francesa, p.724). Este \u00e9 horizonte que legitima que tudo se fa\u00e7a para relativizar o papel da fam\u00edlia, dos la\u00e7os familiares e que se organize a \u2018sociedade\u2019 como mera soma de indiv\u00edduos ou, como diz, acertadamente, Braga da Cruz, reduzir a sociedade a \u00abuma popula\u00e7\u00e3o sobre um territ\u00f3rio\u00bb. Repare-se como \u00e9 f\u00e1cil desconstruir e gerar a d\u00favida que origina o caos. Imagine-se que o c\u00f3digo da estrada, temporariamente, invertia o significado dos sinais. Aplique-se, por exemplo, \u00e0 cor dos sem\u00e1foros. Imagine que o verde passava a significar que se tinha de parar e que o vermelho era para avan\u00e7ar.<br \/>\nQuando algu\u00e9m tentasse repor a verdade, a confus\u00e3o j\u00e1 estava gerada, de modo que s\u00f3 ap\u00f3s muito caos e destrui\u00e7\u00e3o e, eventualmente, ap\u00f3s decis\u00e3o autorit\u00e1ria \u00e9 que se conseguiria repor os \u00edndices de confian\u00e7a na sinal\u00e9tica que existia, antes deste processo de desconstru\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAlgo semelhante parece pretender-se para a sociedade: desconstruir para que mais facilmente se assegure lugar para os que pretendem o poder.<br \/>\nAli\u00e1s, h\u00e1 algo de preocupante no modo como se legisla, de h\u00e1 algumas d\u00e9cadas para c\u00e1. N\u00e3o se legisla com a preocupa\u00e7\u00e3o de subordinar a lei a valores comuns, marca do \u2018cimento\u2019 de que acima fal\u00e1vamos, mas legisla-se porque se tem poder. Pode configurar-se tal como uma nova ditadura, j\u00e1 n\u00e3o de um s\u00f3 titular, mas de um Parlamento que se sente sempre legitimado para decidir, desde que corresponda \u00e0 sua ideologia.<br \/>\nQuem legitimou, por exemplo, este parlamento para discutir e, eventualmente, aprovar legisla\u00e7\u00e3o sobre a eutan\u00e1sia? Ou teremos de concluir que o Parlamento, porque pode, est\u00e1 legitimado para legislar. Pode, de facto, tem poder, mas est\u00e1 legitimado?<br \/>\nGustavo Zagrebeslky, que foi presidente do Tribunal Constitucional de It\u00e1lia, alerta para os perigos das democracias que se consideram legitimadas para legislar sobre tudo, at\u00e9 sobre os valores que estruturam a sociedade que deviam servir. Chama a estas \u2018democracias c\u00e9ticas\u2019, para quem o que interessa \u00e9 conservar o poder, bastando-se com os indicadores das sondagens, ou \u2018democracias dogm\u00e1ticas\u2019, possuidoras da verdade absoluta, sentindo-se, por isso, autorizadas a mandar na pr\u00f3pria vida e morte dos cidad\u00e3os. Por oposi\u00e7\u00e3o a estes dois modelos de democracia, Zagrebelsky prop\u00f5e o que chama \u00abdemocracias cr\u00edticas\u00bb, que poder\u00edamos designar como \u2018autocr\u00edticas\u2019 que se sabem fr\u00e1geis e suscet\u00edveis de manipula\u00e7\u00e3o, pelo que n\u00e3o legislam de modo a p\u00f4r em causa o que une os cidad\u00e3os. N\u00e3o legislam sobre a vida e a morte, mas acolhem os limites pr\u00f3prios decorrentes da natureza humana.<br \/>\nE este \u00e9 o problema de uma certa vis\u00e3o da pol\u00edtica e da democracia: aquela que entende que tudo \u00e9 cultural, \u00e9 feito pela vontade humana, sem dever de respeitar algo que lhe seja anterior, a pr\u00f3pria natureza humana.<br \/>\nVeja-se como esta s\u00edntese nos ajuda a perceber qu\u00e3o pantanosas e desconstrucionistas (criamos o neologismo porque nos referimos a um processo de desconstru\u00e7\u00e3o programada\u2026) s\u00e3o as medidas que v\u00e3o sendo adotadas: aborto (e a legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia da m\u00e3e sobre o filho), barrigas de aluguer (e o afastamento entre a gera\u00e7\u00e3o e o afeto), mudan\u00e7a de sexo aos 16 anos (e a dissocia\u00e7\u00e3o entre a natureza e a identidade, com a implica\u00e7\u00e3o acrescida de dissociar o indiv\u00edduo dos seus la\u00e7os familiares, na medida em que se preconiza que os pais nada tenham a ver com esta decis\u00e3o), a eutan\u00e1sia (e a quebra da solidariedade na morte, que se reduz a uma mera experi\u00eancia solit\u00e1ria)\u2026<br \/>\nQuem pode, s\u00f3 porque pode, est\u00e1 legitimado para legislar? Assim o entenderam todos os ditadores, ao longo dos tempos! E sempre sob a capa de o fazerem em nome do povo e do poder que este lhes conferia.<br \/>\nSe \u2018poder\u2019 significar que \u00e9 \u2018l\u00edcito fazer\u2019, vale a pena perguntar se seria leg\u00edtimo a algu\u00e9m com o poder de ler o pensamento dos outros vir a faz\u00ea-lo. Invoco esta hip\u00f3tese que \u00e9 imagem de uma fronteira que ainda n\u00e3o foi poss\u00edvel transpor, mas que, seguramente, muitos gostariam de superar. Ora, imagine-se que algu\u00e9m, um dia, tivesse esse poder. Porque o \u2018pode\u2019 fazer, tem legitimidade para o fazer? Quais os limites que devemos aceitar impor-nos? Ou, em definitivo, o limite ser\u00e1 o do poder? S\u00f3 n\u00e3o devemos fazer o que n\u00e3o podemos fazer? Ou ainda h\u00e1 lugar para a \u00e9tica personalista e humanizadora?<br \/>\nN\u00e3o ser\u00e1 destes messianismos que falava o Presidente da Rep\u00fablica, no discurso do dia da liberdade? Que liberdade pretendemos? A de uma vontade arbitr\u00e1ria, discricion\u00e1ria, entendida como puro voluntarismo do indiv\u00edduo, ou a de uma vontade que segue a intelig\u00eancia e respeita a luz da verdade?<br \/>\n\u00c9 preciso olhar para diante para saber sobre que ch\u00e3o pousamos os p\u00e9s. Mas muitos deixaram de erguer o olhar t\u00e3o sumidos est\u00e3o na vertigem do presente.<br \/>\nSe queremos continuar a viver em sociedade, n\u00e3o podemos deixar que a desconstru\u00e7\u00e3o ven\u00e7a. Porque sairemos derrotados, como os filhos de todas as revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Construir \u00e9 sempre uma tarefa lenta, morosa, paciente. 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