{"id":2833,"date":"2010-10-27T10:49:00","date_gmt":"2010-10-27T10:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2833"},"modified":"2010-10-27T10:49:00","modified_gmt":"2010-10-27T10:49:00","slug":"uma-trapalhada-que-nao-constituiu-uma-surpresa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-trapalhada-que-nao-constituiu-uma-surpresa\/","title":{"rendered":"Uma trapalhada que n\u00e3o constituiu uma surpresa"},"content":{"rendered":"<p>Chegamos onde h\u00e1 de muito se esperava. Dolorosamente. Sem horizontes de esperan\u00e7a e sem nesga de luz, com o povo dorido e dividido. Com nuvens negras que pressagiam fome, revolta, viol\u00eancia. A fome n\u00e3o \u00e9 boa conselheira. A viol\u00eancia j\u00e1 anda por a\u00ed \u00e0 solta. Culpa de poucos, o sofrimento de muitos. <\/p>\n<p>As premissas estavam postas. A conclus\u00e3o de h\u00e1 muito n\u00e3o oferecia d\u00favidas. O forte do povo portugu\u00eas est\u00e1 mais no cora\u00e7\u00e3o onde cabe a revolta pelas desilus\u00f5es, mas cabe tamb\u00e9m a perda f\u00e1cil da mem\u00f3ria, quando se ouvem de novo os discursos inflamados e fogosos dos trapaceiros de ontem. N\u00e3o falta quem fale de fatalismo. N\u00e3o vou por a\u00ed e n\u00e3o vou sozinho.<\/p>\n<p>Na selva da pol\u00edtica, quem fala a verdade n\u00e3o tem nem lugar, nem sucesso. Soltam-se logo os superficiais instalados, os interessados em perigo, os servidores oficiais do sistema. Conluiem-se todos, os de casa e os de fora, e logo se lhes abrem espa\u00e7os onde podem pontificar, sem que ningu\u00e9m lhes pe\u00e7a contas da manifesta inten\u00e7\u00e3o de denegrir e destruir, com mentiras e suspeitas. Um pa\u00eds doente que se diz democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Com or\u00e7amento ou sem or\u00e7amento, os passos dados ao longo de anos foram muitas vezes errados, para se salvarem ilus\u00f5es moment\u00e2neas, se conseguirem vit\u00f3rias imerecidas, se confirmarem ambi\u00e7\u00f5es megal\u00f3manas. Mas o problema grave \u00e9 que o povo foi enganado e esquecido. Agora, mais se queixa do que espera, mais critica do que arrega\u00e7a mangas. Como se poder\u00e1 ele levantar do marasmo de morte se os valores morais e \u00e9ticos foram desprezados, a fam\u00edlia destru\u00edda, as pessoas desrespeitadas, a economia estrangulada, o fosso entre ricos e pobres, aprofundado, a educa\u00e7\u00e3o desvirtuada e amorfa, a sa\u00fade cada dia mais dif\u00edcil, a justi\u00e7a desprestigiada, o dia-a-dia dos mais carenciados insuport\u00e1vel, a verdade esvaziada e sem lugar num dom\u00ednio onde reina o despudor e a mentira?<\/p>\n<p>O orgulho pol\u00edtico \u00e9 sempre mort\u00edfero. Endeusa os que o cultivam, n\u00e3o d\u00e1 lugar ao di\u00e1logo, responde com desprezo agressivo \u00e0s raz\u00f5es do outro, fecha os ouvidos aos gritos de ang\u00fastia, toma por tolos os avisos ponderados. O orgulho s\u00f3 \u00e9 capaz de gerar obras e decis\u00f5es fict\u00edcias, que o tempo n\u00e3o respeita, nem pode respeitar. Vimos vendo isto tudo.<\/p>\n<p>Quem vai agora julgar e ditar senten\u00e7a aos causadores deste caos moral, pol\u00edtico, social, econ\u00f3mico, relacional? A democracia teria sa\u00eddas se fosse democracia a s\u00e9rio. Mas a democracia, mesmo com as suas conhecidas fragilidades, n\u00e3o interessa a muitas pessoas de grupos, incapazes de jogarem com regras no campo em que todos s\u00e3o chamados a jogar com iguais direitos e deveres.<\/p>\n<p>Vamos entrar, ou melhor, j\u00e1 estamos dentro do tempo em que a esperan\u00e7a murcha a olhos vistos e dificilmente ganha ra\u00edzes e espevita. Apesar de tudo, \u00e9 preciso n\u00e3o a deixar morrer. O pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 um feudo de palha\u00e7os e malabaristas. H\u00e1 gente normal capaz de dar rumo ao barco, mesmo com o mar borrascoso, se sentir que, \u00e0 sua volta, renasce a verdade. A utopia n\u00e3o deixa morrer, porque s\u00f3 ela \u00e9 capaz de realismo sadio. Sem ela, j\u00e1 tudo \u00e9 morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegamos onde h\u00e1 de muito se esperava. Dolorosamente. Sem horizontes de esperan\u00e7a e sem nesga de luz, com o povo dorido e dividido. Com nuvens negras que pressagiam fome, revolta, viol\u00eancia. A fome n\u00e3o \u00e9 boa conselheira. A viol\u00eancia j\u00e1 anda por a\u00ed \u00e0 solta. Culpa de poucos, o sofrimento de muitos. 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