{"id":2836,"date":"2010-11-03T09:23:00","date_gmt":"2010-11-03T09:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2836"},"modified":"2010-11-03T09:23:00","modified_gmt":"2010-11-03T09:23:00","slug":"so-um-estado-civil-podera-salvar-os-cristaos-do-oriente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/so-um-estado-civil-podera-salvar-os-cristaos-do-oriente\/","title":{"rendered":"S\u00f3 um Estado civil poder\u00e1 salvar os crist\u00e3os do Oriente"},"content":{"rendered":"<p>O padre jesu\u00edta Samir Khalil, especialista em islamismo e hist\u00f3ria do M\u00e9dio Oriente, oferece um quadro hist\u00f3rico-religioso da situa\u00e7\u00e3o actual na regi\u00e3o, analisa os desafios mais urgentes e prop\u00f5e algumas poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es concretas. Entrevista conduzida por Robert Cheaib para a Ag\u00eancia Zenit.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os no M\u00e9dio Oriente n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas de uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, mas a sua vida e seus direitos sofrem uma discrimina\u00e7\u00e3o similar a uma lenta eutan\u00e1sia, que apaga pouco a pouco a sua presen\u00e7a milenar na regi\u00e3o. A assembleia especial do S\u00ednodo dos Bispos para o Oriente M\u00e9dio teve uma responsabilidade crucial ao propor um rem\u00e9dio para este fen\u00f3meno, que o arcebispo caldeu de Kirkuk, D. Louis Sako, define como \u201chemorragia dos crist\u00e3os do Oriente M\u00e9dio\u201d.<\/p>\n<p>O aspecto geopol\u00edtico da presen\u00e7a crist\u00e3 no Oriente M\u00e9dio \u00e9 decisivo para sua perman\u00eancia ali?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que sendo uma minoria que n\u00e3o supera 10% da popula\u00e7\u00e3o do M\u00e9dio Oriente, enquanto a grande maioria \u00e9 de religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, a nossa exist\u00eancia depende do consentimento desta maioria, sobretudo porque o Isl\u00e3o se concebe como Estado e religi\u00e3o. E dado que h\u00e1 mais de 30 anos a grande maioria dos Estados do M\u00e9dio Oriente adoptou um ponto de vista islamista na realidade estatal, onde a religi\u00e3o decide todos os detalhes da vida quotidiana, social e pol\u00edtica, est\u00e1 claro que nestas condi\u00e7\u00f5es a nossa situa\u00e7\u00e3o depende da boa vontade dos mu\u00e7ulmanos e do sistema isl\u00e2mico. N\u00e3o \u00e9 de surpreender, por isso, que a quest\u00e3o tenha ocupado uma grande relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O senhor \u00e9 de origem eg\u00edpcia, mas vive no L\u00edbano e \u00e9 especialista em islamismo. Como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com os mu\u00e7ulmanos?<\/p>\n<p>Fa\u00e7o uma distin\u00e7\u00e3o entre os mu\u00e7ulmanos tomados singularmente e os sistemas isl\u00e2micos, simplesmente porque com os mu\u00e7ulmanos tomados singularmente \u00e9 poss\u00edvel instaurar um bel\u00edssimo di\u00e1logo e um interc\u00e2mbio cultural e religioso.<\/p>\n<p>Permita-me que conte um epis\u00f3dio que confirma isso: h\u00e1 alguns dias contactou-se no Skype [telefone na Internet] um mu\u00e7ulmano sunita do norte do L\u00edbano, a quem encontrei casualmente num voo h\u00e1 um m\u00eas. O nosso di\u00e1logo concentrou-se na Trindade e na ora\u00e7\u00e3o. Durante a conversa, ele disse-me: \u201cDoutor, gostaria de lhe apresentar a minha esposa\u201d. No Oriente, este gesto quer dizer que voc\u00ea j\u00e1 faz parte da fam\u00edlia. Portanto, o mu\u00e7ulmano tomado singularmente \u2013 paradoxalmente \u2013 \u00e9 muito mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s, crist\u00e3os orientais, do que um cidad\u00e3o europeu. H\u00e1 um sentido religioso que nos torna parecidos e nos une.<\/p>\n<p>Mas se temos de falar do islamismo, o discurso muda radicalmente, porque se trata de um projecto pol\u00edtico de fundo religioso. Como crist\u00e3os orientais, gostar\u00edamos de ser tratados simplesmente como cidad\u00e3os com uma Constitui\u00e7\u00e3o que transcendesse todas as religi\u00f5es. Mas na maior parte dos casos, nos nossos pa\u00edses, a Constitui\u00e7\u00e3o baseia-se essencialmente \u2013 quando n\u00e3o totalmente \u2013 na lei isl\u00e2mica. Este \u00e9 o nosso problema. Exceptuando poucos casos como o do L\u00edbano, os Estados, inclusive constitucionalmente laicos, como seria o caso da Tun\u00edsia, da S\u00edria ou da Turquia, s\u00e3o culturalmente pa\u00edses isl\u00e2micos e privilegiam os cidad\u00e3os de religi\u00e3o mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o eixo principal do crescimento do islamismo pol\u00edtico e do fundamentalismo isl\u00e2mico?<\/p>\n<p>Por um lado h\u00e1 uma onda islamista que nasce no in\u00edcio dos anos 70. A partir de 1973, aconteceu um fen\u00f3meno econ\u00f3mico, ap\u00f3s a guerra entre Israel e os pa\u00edses \u00e1rabes, que fez o pre\u00e7o do petr\u00f3leo quadruplicar em poucos meses. Assim, os pa\u00edses petrol\u00edferos depararam com uma montanha de petrod\u00f3lares. A Ar\u00e1bia Saudita, n\u00e3o sabendo o que fazer com esta imensa fortuna, empregou uma grande parte na constru\u00e7\u00e3o de mesquitas e escolas isl\u00e2micas. A Ar\u00e1bia Saudita financiou os Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos no Egipto com um projecto claro: islamizar a sociedade eg\u00edpcia porque n\u00e3o era suficientemente mu\u00e7ulmana. Depois, fez a mesma opera\u00e7\u00e3o em todos os pa\u00edses do M\u00e9dio Oriente. Assim, no in\u00edcio dos anos 80, os Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos tornaram-se t\u00e3o numerosos que come\u00e7aram a ser considerados um perigo na S\u00edria. O presidente s\u00edrio Hafiz al-Asad subjugou-os com for\u00e7a.<\/p>\n<p>A Indon\u00e9sia, h\u00e1 um par de d\u00e9cadas, era considerada um para\u00edso da liberdade religiosa num pa\u00eds mu\u00e7ulmano. Muitos sacerdotes eram ex-convertidos do Isl\u00e3o. Agora este fen\u00f3meno \u00e9 imposs\u00edvel. O mesmo na Nig\u00e9ria: na \u00faltima d\u00e9cada, o n\u00famero de prov\u00edncias que aplicam a lei isl\u00e2mica aumentou de 4 para 12. A Europa, com quase 5% de mu\u00e7ulmanos, sente-se invadida e amea\u00e7ada.<\/p>\n<p>Assim, a chanceler alem\u00e3, Angela Merkel, lan\u00e7ou um alarme h\u00e1 poucos dias, anunciando o fracasso do modelo de integra\u00e7\u00e3o, porque s\u00e3o precisamente eles os que n\u00e3o se querem integrar. Por que n\u00e3o se integram? Porque t\u00eam um projecto religioso, enquanto os Estados nos quais vivem t\u00eam projectos nacionais n\u00e3o religiosos.<\/p>\n<p>Perante esta situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o complexa e cr\u00edtica,o que fez o S\u00ednodo dos Bispos e o que pretende fazer?<\/p>\n<p>N\u00f3s, crist\u00e3os do Oriente, vivemos no meio deste fen\u00f3meno em curso, onde o Isl\u00e3o ganha terreno dia ap\u00f3s dia, ao ponto de na Liga \u00c1rabe o primeiro tema ser sempre este: como enfrentar o islamismo. E o S\u00ednodo dedicou particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o Isl\u00e3o. As sess\u00f5es sinodais questionaram sobre por que raz\u00e3o as pessoas deixam sua pr\u00f3pria terra. No mundo \u00e1rabe, n\u00e3o h\u00e1 persegui\u00e7\u00e3o contra os crist\u00e3os, mas h\u00e1 discrimina\u00e7\u00e3o. Os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o tratados da mesma foram que os mu\u00e7ulmanos. Estes s\u00e3o cidad\u00e3os normais destinat\u00e1rios das leis. Os demais, constitucionalmente s\u00e3o cidad\u00e3os, mas concretamente as leis \u2013 j\u00e1 que est\u00e3o feitas a partir do sistema mu\u00e7ulmano \u2013 deixam aos crist\u00e3os uma condi\u00e7\u00e3o de desvantagem. Al\u00e9m disso, a liberdade de consci\u00eancia \u00e9 inexistente, existe s\u00f3 a toler\u00e2ncia, que consiste em suportar que o cristianismo permane\u00e7a na terra isl\u00e2mica, mas com muitas limita\u00e7\u00f5es. Por outro lado, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel abandonar o Isl\u00e3o para aderir a outra religi\u00e3o. Essas quest\u00f5es estiveram no centro da aten\u00e7\u00e3o dos padres sinodais.<\/p>\n<p>H\u00e1 um caminho de solu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1 um, apontar para certos conceitos compartilhados, como o de \u201ccidadania\u201d ou o de \u201cperten\u00e7a \u00e1rabe\u201d, ambos reconhecidos por grande parte dos mu\u00e7ulmanos. Os movimentos que promoveram estes valores no in\u00edcio do s\u00e9culo XX tiveram \u00eaxito porque levavam consigo um sopro de novidade que convidava a sair da vis\u00e3o tribal. Mas ultimamente esta vis\u00e3o tem sido entrincheirada e substitu\u00edda pelo conceito de Umma (a na\u00e7\u00e3o) isl\u00e2mica. Durante a presid\u00eancia de Nasser, no Egipto, at\u00e9 meados dos anos 70, o conceito era a Umma al-Arabiyya [a na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe], mas da segunda metade dos anos 70 em diante prevaleceu o conceito da Umma al-Islamiyya [a na\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica], que n\u00e3o deixa espa\u00e7o para os n\u00e3o mu\u00e7ulmanos. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 tentar propor, mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os, um conceito moderno de Estado, n\u00e3o s\u00f3 no \u00e2mbito pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m no cultural. <\/p>\n<p>Como fazer para concretizar essa proposta?<\/p>\n<p>Precisamente aqui entra a proposta do S\u00ednodo para o Oriente M\u00e9dio: n\u00e3o se trata de fazer um projecto crist\u00e3o, e muito menos um projecto dos crist\u00e3os ou para os crist\u00e3os, porque assim reflectir\u00edamos como se f\u00f4ssemos uma minoria que se tenta proteger. N\u00f3s n\u00e3o tentamos proteger-nos. O que dizemos reflecte tamb\u00e9m a palavra de muitos mu\u00e7ulmanos, que reconhecem como n\u00f3s que a na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe est\u00e1 mal porque sofre de uma fal\u00eancia no exerc\u00edcio da democracia, na distribui\u00e7\u00e3o das riquezas, no estabelecimento da justi\u00e7a social e de um Estado de direito, na reforma do sistema de sa\u00fade. <\/p>\n<p>O Isl\u00e3o \u00e9 muito sens\u00edvel a essas dimens\u00f5es. A liberdade de consci\u00eancia e de express\u00e3o \u00e9 desejada por muitos, n\u00e3o porque as pessoas se queiram afastar do Isl\u00e3o, mas porque querem viver o Isl\u00e3o de modo mais pessoal. No mundo isl\u00e2mico, h\u00e1 um sentido de modernidade e de liberdade que n\u00e3o se atreve a manifestar-se. Um crist\u00e3o pode escrever criticando seu patriarca ou bispo, enquanto \u00e9 dif\u00edcil que um mu\u00e7ulmano o fa\u00e7a. N\u00e3o porque algu\u00e9m em particular o pro\u00edba, mas porque a pr\u00f3pria cultura o impede. Os \u00edmanes s\u00e3o os ulem\u00e1s [os doutos] e o seu saber n\u00e3o se discute. Reafirmo que com essas propostas n\u00e3o se trata de fazer com que os mu\u00e7ulmanos sejam menos mu\u00e7ulmanos ou os crist\u00e3os menos crist\u00e3os, mas dizer que a f\u00e9 \u00e9 uma quest\u00e3o pessoal, ainda que tenha a sua dimens\u00e3o social, e que cada um deve viver a pr\u00f3pria f\u00e9 como Deus lhe inspira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O padre jesu\u00edta Samir Khalil, especialista em islamismo e hist\u00f3ria do M\u00e9dio Oriente, oferece um quadro hist\u00f3rico-religioso da situa\u00e7\u00e3o actual na regi\u00e3o, analisa os desafios mais urgentes e prop\u00f5e algumas poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es concretas. Entrevista conduzida por Robert Cheaib para a Ag\u00eancia Zenit. 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