{"id":2892,"date":"2010-10-06T10:20:00","date_gmt":"2010-10-06T10:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2892"},"modified":"2010-10-06T10:20:00","modified_gmt":"2010-10-06T10:20:00","slug":"leitura-serena-e-sem-preconceitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/leitura-serena-e-sem-preconceitos\/","title":{"rendered":"Leitura serena e sem preconceitos"},"content":{"rendered":"<p>Bispos e I Rep\u00fablica &#8211; III <!--more--> Ouvimos agora falar muito dos \u201cvalores republicanos\u201d que, diz-se, \u00e9 preciso defender e promover. Falam disto os republicanos tradicionais e os mais modernos. Fala o que resta da gera\u00e7\u00e3o da velha carbon\u00e1ria. Fala a ma\u00e7onaria actual e as suas lojas. Falam ministros socialistas e laicos de todas as cores. Fala-se, tamb\u00e9m, no Parlamento, em discursos pol\u00edticos, em entrevistas e escritos diversos. A todos parece que a salva\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a solu\u00e7\u00e3o da crise est\u00e1 na implementa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida destes valores, mais do que na sua efectiva compreens\u00e3o. Diz-se serem eles o legado da Rep\u00fablica, via Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a b\u00edblia dos sistemas que enchem os seus c\u00f3digos com a doutrina de uma modernidade mal entendida e n\u00e3o travada a tempo nas limita\u00e7\u00f5es que provocam injusti\u00e7a e empobrecimento social.<\/p>\n<p>Liberdade, igualdade e fraternidade, a trilogia intoc\u00e1vel do regime republicano, n\u00e3o traduz sen\u00e3o conceitos evang\u00e9licos e atitudes de uma cultura crist\u00e3 milenar que ajudou a constru\u00e7\u00e3o da Europa. Assim o afirma e o afirmar\u00e1 a hist\u00f3ria, mesmo que dela se rasguem folhas inc\u00f3modas. <\/p>\n<p> A trilogia cont\u00e9m valores, conceitos e atitudes, por vezes nem sempre claros e aceites, ao tempo, por gente da Igreja, h\u00e1 que diz\u00ea-lo, sempre que havia ca\u00eddo na tenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de se inspirar e organizar segundo o poder civil de s\u00e9culos passados. Dentro e fora da Igreja, cortaram-se ra\u00edzes que a alimentam a sua vida. A for\u00e7a dos preconceitos que levaram, a p\u00f4r de parte a B\u00edblia, o esquecimento de parte importante da hist\u00f3ria, encurtaram o tempo, passando sobre a realidade cultural e hist\u00f3rica europeia uma esponja que pretendeu apagar s\u00e9culos de uma cultura anterior \u00e0 das Luzes, das quais tamb\u00e9m esta bebeu, mesmo quando a menosprezou e quis extinguir.<\/p>\n<p>Assim se foram levantando altares a novos \u00eddolos, colocados com festa e barulho no lugar de um Deus que se rejeitava, por desprezo ou por nunca se ter conhecido.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica n\u00e3o entrou em Portugal por um acaso hist\u00f3rico. Havia no pa\u00eds situa\u00e7\u00f5es de cansa\u00e7o, desvios empobrecedores, pol\u00edticas apodrecidas, apet\u00eancias vorazes. A pr\u00f3pria Igreja estava manietada, sob pretexto de apoio dado e de protec\u00e7\u00e3o recebida. Acontece sempre assim, quando o essencial se cala ante o ef\u00e9mero, e o poder se traduz por for\u00e7a e interesses, pessoais e de grupo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria regista na saga de 1910 a reac\u00e7\u00e3o do episcopado portugu\u00eas, atrav\u00e9s de atitudes claras e documentos l\u00facidos e corajosos, assinados por todos os bispos do continente, que, ao tempo, eram doze. Vale a pena, porque o tempo o aconselha, reflectir sobre o que ent\u00e3o foi express\u00e3o de lucidez, esperan\u00e7a e compromisso. \u00c9 de desejar que os mais respons\u00e1veis da hierarquia e do laicado n\u00e3o passem, seja porque raz\u00e3o seja, ao lado de um momento importante da hist\u00f3ria p\u00e1tria e da hist\u00f3ria da Igreja. <\/p>\n<p>A linguagem dos bispos, em alguns casos, hoje seria outra, o que n\u00e3o \u00e9 de estranhar, passados que s\u00e3o 100 anos. Ao longo destes, foi-se estruturando a Doutrina Social da Igreja, surgiu a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, promoveu-se o laicado, celebrou-se um concilio ecum\u00e9nico, multiplicaram-se os meios de comunica\u00e7\u00e3o, eclodiu a experi\u00eancia democr\u00e1tica, uma nova cultura de respeito se foi impondo, o di\u00e1logo abriu caminho e muitas orienta\u00e7\u00f5es foram dadas, exigidas pelas mudan\u00e7as sociais e culturais e pela realidade de uma sociedade, pol\u00edtica e religiosamente plural.<\/p>\n<p>Encontramos, nas interven\u00e7\u00f5es colectivas, um episcopado clarividente, actualizado, coeso e corajoso. As circunst\u00e2ncias n\u00e3o favoreciam o di\u00e1logo e o poder pol\u00edtico n\u00e3o o queria, nem o permitia. Tudo se orientava para calar os bispos e fazer perder \u00e0s comunidades crist\u00e3s a sua for\u00e7a e consist\u00eancia.<\/p>\n<p>Nada silenciou o episcopado, pesem embora as m\u00faltiplas dificuldades. Tudo levou a uma maior uni\u00e3o. Estavam em jogo coisas essenciais para as pessoas, a Igreja e sua miss\u00e3o, a verdade do Evangelho, o patrim\u00f3nio eclesial, cultural e hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Dois meses ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, dizem os bispos na Pastoral Colectiva: \u201cA Igreja reconhece a independ\u00eancia e soberania da sociedade civil; n\u00e3o \u00e9 adversa a nenhuma forma de governo desde que ela respeite a honestidade e a justi\u00e7a. Reconhece, portanto, como um dever de consci\u00eancia da parte dos cat\u00f3licos, a obedi\u00eancia aos poderes constitu\u00eddos, salvos os direitos preferentes de Deus, Legislador Supremo. Em harmonia com estes princ\u00edpios \u00e9 que os fieis t\u00eam de orientar a sua vida p\u00fablica\u201d. <\/p>\n<p>Mais tarde, em Maio de 1911, afirmam corajosamente: \u201cA Religi\u00e3o cat\u00f3lica deixou de ser a do Estado, n\u00e3o deixar\u00e1, por\u00e9m, de ser a do povo portugu\u00eas\u201d. Assim responderam \u00e0 profecia de Afonso Costa de que a Igreja se extinguiria em poucas gera\u00e7\u00f5es. O tempo revelou a lucidez e o conhecimento da realidade religiosa do povo portugu\u00eas.<\/p>\n<p> \u201cA viragem republicana abriu na distin\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado, um espa\u00e7o novo de liberdade para a Igreja\u201d. Assim disse Bento XVI. Foi o que aconteceu. O episcopado de 1910 assumiu-se como um corpo vivo. N\u00e3o o esperavam os novos poderes. O campo ficou aberto \u00e0 viv\u00eancia da liberdade, que se conquistaria a seu tempo. <\/p>\n<p>Tempos iguais, os de hoje, cuidados e vestidos com punhos de veludo. Uma cultura se destr\u00f3i, o povo interroga-se, as pessoas contam cada vez menos. N\u00e3o h\u00e1 atiradores que acertem no alvo.  <\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a hist\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mestra, nem sequer para a Igreja? <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bispos e I Rep\u00fablica &#8211; III<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-2892","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2892","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2892"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2892\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}