{"id":2942,"date":"2010-11-03T09:51:00","date_gmt":"2010-11-03T09:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2942"},"modified":"2010-11-03T09:51:00","modified_gmt":"2010-11-03T09:51:00","slug":"diga-la-minha-menina-quantas-voltas-vamos-dar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/diga-la-minha-menina-quantas-voltas-vamos-dar\/","title":{"rendered":"\u00abDiga l\u00e1, minha menina, quantas voltas vamos dar\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Jesus Cristo tamb\u00e9m sabe ser uma pessoa \u201cesquisita\u201d: implicativa, a espica\u00e7ar sempre que vem ao jeito, por vezes com uma esp\u00e9cie de ironia, e quase que nos deixa a todos desnorteados. Mesmo que lhe demos o desconto do estilo sem\u00edtico, cheio de ant\u00edteses, paradoxos e exageros, o seu \u00abevangelho\u00bb d\u00e1 pano para in\u00fameras e estranh\u00edssimas mangas. E n\u00e3o poucas vezes, deixa-nos \u201ca aguar\u201d. Como gostar\u00edamos de o ouvir \u00abprovar\u00bb o sentido das Escrituras, como ter\u00e1 feito com os disc\u00edpulos de Ema\u00fas (S. Lucas 24,13-35)! Ou falar do porqu\u00ea do sofrimento, da morte e de como \u00e9 que isso tudo se transforma em vida eterna! Ele bem nos diz que a nossa vida deve dar uma volta e que Deus d\u00e1 uma volta \u00e0 nossa vida \u2013 a grande volta \u2013, mas deixa completamente para tr\u00e1s os \u201centrementes\u201d.   <\/p>\n<p>E no entanto, as leituras falam todas da luta perseverante para que esta vida nunca deixe de ser vida.<\/p>\n<p>A passagem dos Macabeus \u00e9 um impressionante relato do \u00abmart\u00edrio\u00bb duma fam\u00edlia inteira \u2013 n\u00e3o ter\u00e1 sido insensatez, s\u00f3 por n\u00e3o aceitarem \u00abcomer carne de porco\u00bb? \u00c9 verdade que a lei judaica o proibia. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 verdade que Jesus achou plenamente aceit\u00e1veis a \u00abilegalidade\u00bb do rei David e dos seus companheiros por comerem o p\u00e3o consagrado, bem como a \u00abilegalidade\u00bb de v\u00e1rios comportamentos seus e dos seus disc\u00edpulos? Lembrava aos dirigentes pol\u00edticos e religiosos do seu tempo que a lei foi feita para os seres humanos e n\u00e3o estes para a Lei (Mateus 12,1-14, por exemplo).<\/p>\n<p>O comportamento dos Macabeus ser\u00e1 facilmente considerado extremista e fan\u00e1tico. Mas para quem ler a hist\u00f3ria not\u00e1vel desta gera\u00e7\u00e3o, que tinha os olhos postos muito para al\u00e9m do horizonte dos pol\u00edticos ou dos fan\u00e1ticos do poder e da riqueza, valia sobretudo como exemplo de confian\u00e7a absoluta no projecto de Deus como projecto do maior bem para o ser humano (n\u00e3o deixando de ser exemplo de comprometido militantismo pela instaura\u00e7\u00e3o no mundo da ordem e justi\u00e7a, de acordo com o que o pr\u00f3prio Deus ia revelando aos profetas do \u00abpovo escolhido\u00bb). D\u00e3o-nos a corajosa afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se pode acreditar em Deus sem acreditar que para Ele somos eternamente vivos. Recuar perante o rei da S\u00edria seria lan\u00e7ar ao descr\u00e9dito o maior valor que a humanidade descobriu em si pr\u00f3pria. <\/p>\n<p>E podemos esquecer os Macabeus de todos os dias? Aqueles que recusam honrarias, subidas de posto, proventos de arregalar os olhos\u2026 porque n\u00e3o querem atrai\u00e7oar a sua experi\u00eancia \u00edntima e bem forte de que h\u00e1 outros valores a defender, de que o bem pr\u00f3prio tem que ser mesurado pelo bem comum? Mesmo que n\u00e3o alinhem com \u00abo Deus dos Macabeus\u00bb, alinham contra os que lan\u00e7am ao \u00abcaldeir\u00e3o\u00bb justamente aqueles que mais defendem a dignidade humana.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos um Deus que s\u00f3 se cruza connosco no sofrimento, ou para nos pedir coisas dif\u00edceis, ou para nos dar m\u00e1 consci\u00eancia durante os momentos de prazer. Isso seria um Deus anti-vida, pois a vida divina engloba e at\u00e9 aumenta a energia desta vida que chamamos \u00abterrena\u00bb. Deus n\u00e3o nos fez para deixarmos de existir (Sabedoria11,24). Ali\u00e1s, S. Lucas, logo a seguir ao texto do evangelho, mostra Jesus a \u201cimplicar\u201dcom os fariseus, a ver se os fazia cair na conta de que Deus \u00abn\u00e3o \u00e9 um Deus dos mortos mas dos vivos\u00bb, eternamente em liga\u00e7\u00e3o com cada pessoa chamada \u00e0 exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das ideias mostra como \u00e9 extremamente dif\u00edcil elaborar um conceito racional de \u00abressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb, por muito que nos debrucemos sobre o mist\u00e9rio da vida. Para o que acontece depois da morte, s\u00f3 temos a promessa de que a aventura com Deus nunca mais acaba de nos fazer felizes. <\/p>\n<p>Para o antigo pensamento judaico, era inconceb\u00edvel vida \u00absem este corpo\u00bb \u2013  da\u00ed a ideia de ressurrei\u00e7\u00e3o como recolagem dos antigos pedacinhos do corpo, coisa absurda, que os pr\u00f3prios saduceus ridicularizavam. J\u00e1 \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil explicar este corpo que a cada momento se vai mudando! Mas \u00e9 por ele que interagimos com o mundo. Na \u00abvida depois da vida\u00bb, a nossa maneira de interagir com os outros e com tudo o que exista tamb\u00e9m tem que ser por meio de \u00abum corpo depois do corpo\u00bb. Bem que pod\u00edamos dizer: \u00abvida nova, corpo novo\u00bb. <\/p>\n<p>Vem a jeito lembrar S. Mateus (5,30): n\u00e3o interessa saber com quantos bra\u00e7os entramos na grande volta da vida mas sim se utilizamos bem os nossos bra\u00e7os para dar as voltas e os abra\u00e7os que nesta vida se devem dar.  <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-2942","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2942"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2942\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}