{"id":2972,"date":"2010-10-20T10:20:00","date_gmt":"2010-10-20T10:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2972"},"modified":"2010-10-20T10:20:00","modified_gmt":"2010-10-20T10:20:00","slug":"uma-pequena-diferenca-que-muda-o-sentido-da-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-pequena-diferenca-que-muda-o-sentido-da-crise\/","title":{"rendered":"Uma pequena diferen\u00e7a que muda o sentido da crise"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos tempos de uma crise que muitos reconhecem como sendo, primeiramente, \u00e9tica. Para mim, tamb\u00e9m teol\u00f3gica, pois quando o homem perde do horizonte o Absoluto, absolutiza-se a si mesmo! E o que ser\u00e1 esta crise sen\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o do absolutismo individualista?!<\/p>\n<p>Nesta crise ilustra-se, ali\u00e1s, de forma terrivelmente realista e actual, uma par\u00e1bola do C\u00e9u e do Inferno, contada por Leonardo Boff, no seu livro, sempre actual, \u00abVida para al\u00e9m da morte\u00bb.<\/p>\n<p>Conta o te\u00f3logo brasileiro que um certo disc\u00edpulo ter\u00e1 perguntado ao seu Mestre chin\u00eas qual era a diferen\u00e7a entre o c\u00e9u e o inferno e que este lhe ter\u00e1 dito que entre ambos a diferen\u00e7a era pequena, ainda que de grandes consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00abVi um grande monte de arroz. Cozido e preparado como alimento. Ao redor dele, muitos homens. Famintos, quase a morrer. N\u00e3o podiam aproximar-se do monte de arroz. Mas possu\u00edam longos palitos de 2-3 metros de comprimento \u2013 os chineses, naquele tempo, j\u00e1 comiam arroz com palitos -. Apanhavam, \u00e9 verdade, o arroz, mas n\u00e3o conseguiam lev\u00e1-lo \u00e0 pr\u00f3pria boca, porque os palitos, nas suas m\u00e3os, eram muito longos. E assim, famintos e moribundos, juntos mas solit\u00e1rios permaneciam, curtindo uma fome eterna, diante de uma fartura inesgot\u00e1vel. E isso era o inferno.<\/p>\n<p>Vi outro grande monte de arroz. Cozido e preparado como alimento. Ao redor dele, muitos homens. Famintos, mas cheios de vitalidade. N\u00e3o podiam aproximar-se do monte do arroz. Mas possu\u00edam longos palitos de 2-3 metros de comprimento. Apanhavam o arroz, mas n\u00e3o podiam lev\u00e1-lo \u00e0 pr\u00f3pria boca, porque os palitos, nas suas m\u00e3os, eram muito longos. Mas, com os seus longos palitos, em vez de lev\u00e1-los \u00e0 pr\u00f3pria boca, serviam uns aos outros o arroz. E, assim, matavam a sua fome insaci\u00e1vel, numa grande comunh\u00e3o fraterna. Juntos e solid\u00e1rios. Gozando a excel\u00eancia dos homens e das coisas. E isso era o c\u00e9u\u00bb.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre o c\u00e9u e o inferno n\u00e3o estava, portanto, nas circunst\u00e2ncias em que os homens se encontravam, mas no modo de estarem uns com os outros nas mesmas circunst\u00e2ncias, descentrados de si, abertos aos outros.<\/p>\n<p>A actualidade desta par\u00e1bola confirma a profundidade da sua leitura do que \u00e9 o homem e refor\u00e7a uma convic\u00e7\u00e3o que venho, de h\u00e1 muitos anos, a partilhar com alunos e companheiros desta viagem que \u00e9 a vida: a verdadeira liberdade n\u00e3o acaba onde come\u00e7a a liberdade dos outros\u2026 A verdadeira liberdade aumenta na medida em que fizer crescer a liberdade dos outros.<\/p>\n<p>Pode parecer um jogo de palavras, como a singela diferen\u00e7a entre solid\u00e1rio e solit\u00e1rio. Mas \u00e9 muito mais do que isso. A hist\u00f3ria comprova-a. <\/p>\n<p>Na verdade, quando terminou a II Grande Guerra, se os americanos, que n\u00e3o tiveram guerra no seu solo, tivessem entendido a liberdade \u00e0 maneira da primeira defini\u00e7\u00e3o, ter-se-iam aproveitado da destrui\u00e7\u00e3o da Europa para dela se apropriarem. A sua liberdade pareceria, ent\u00e3o, ter aumentado com a redu\u00e7\u00e3o da Europa a escombros. Mas n\u00e3o foi assim. Os americanos compreenderam que, mesmo em economia, a verdadeira liberdade \u00e9 aquela que faz aumentar a dos outros\u2026 E criaram o Plano Marshall, disponibilizando dinheiro para que a Europa ressurgisse das cinzas.<\/p>\n<p>\u00c9 desta vis\u00e3o que necessitamos, hoje, para renascer de uma crise infernal. S\u00f3 uma economia que a todos respeite, envolva e dignifique ser\u00e1 verdadeiramente capaz de superar as dificuldades que esta crise espelha. Uma l\u00f3gica individualista s\u00f3 agudizar\u00e1 o fosso entre os que deviam ser iguais e far\u00e1 germinar injusti\u00e7as que s\u00e3o o h\u00famus da viol\u00eancia. Numa pequena diferen\u00e7a reside, portanto, o segredo para voltar a p\u00e1gina: que cada um se pergunte, como pedia J. F. Kennedy ao povo americano, em Janeiro de 1961, n\u00e3o o que podem os outros fazer por si, mas sim o que pode cada um fazer pelos outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos tempos de uma crise que muitos reconhecem como sendo, primeiramente, \u00e9tica. Para mim, tamb\u00e9m teol\u00f3gica, pois quando o homem perde do horizonte o Absoluto, absolutiza-se a si mesmo! E o que ser\u00e1 esta crise sen\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o do absolutismo individualista?! 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