{"id":2998,"date":"2010-11-17T09:24:00","date_gmt":"2010-11-17T09:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2998"},"modified":"2010-11-17T09:24:00","modified_gmt":"2010-11-17T09:24:00","slug":"mesmo-na-guerra-so-o-amor-redime-e-salva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/mesmo-na-guerra-so-o-amor-redime-e-salva\/","title":{"rendered":"&#8220;Mesmo na guerra, s\u00f3 o amor redime e salva&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Armor Pires Mota lan\u00e7a no dia 19 de Novembro (sexta-feira), \u00e0s 21h, na Livraria Bertrand (F\u00f3rum Aveiro), o romance \u201cEstranha Noiva de Guerra\u201d. O autor combateu na Guin\u00e9-Bissau em 1963-65, tendo relatado as suas viv\u00eancias militares, \u201cao vivo\u201d, no \u201cJornal da Bairrada\u201d, no que ter\u00e1 sido caso pioneiro na imprensa portuguesa. Armor Pires Mota foi jornalista do \u201cSoberania do Povo\u201d e chefe de redac\u00e7\u00e3o do \u201cJornal da Bairrada\u201d de 1989 at\u00e9 2007, seman\u00e1rio com que ainda colabora. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Escreveu os livros \u201cTarrafo\u201d, \u201cGuin\u00e9, Sol e Sangue\u201d e \u201cA Cubana que dan\u00e7ava Flamenco\u201d, al\u00e9m do que agora vai lan\u00e7ar, com a guerra como tema de fundo. \u00c9 assunto recorrente na sua escrita?<\/p>\n<p>ARMOR PIRES MOTA &#8211; Uma das raz\u00f5es \u00e9 que, de um modo geral, o grande lastro da minha escrita, ligada \u00e0 fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 feito de viv\u00eancias pr\u00f3prias e muito mais das que vou conhecendo, todos os dias. E a guerra foi, sem d\u00favida, uma viv\u00eancia dolorosa, uma cicatriz que sempre sangra palavras. Embora sem raiva ou complexos. Depois, \u00e9 juntar-lhe um pouco de fic\u00e7\u00e3o e de enredo. Uma est\u00f3ria pode trazer dentro muitas outras est\u00f3rias. Este \u00e9 o que eu chamo \u201cciclo da guerra\u201d.<\/p>\n<p>Neste \u201cEstranha Noiva de Guerra\u201d, reporta-se ao tempo em que foi militar na Guin\u00e9, em 1963-65?<\/p>\n<p>Exactamente. Para escrev\u00ea-lo, reportei-me \u00e0s minhas viv\u00eancias e \u00e0s de muitos outros, ao sofrimento alheio, aos sacrif\u00edcios e sobressaltos de tantos, de milhares, tamb\u00e9m a certas perip\u00e9cias. Digamos que aqui est\u00e3o em resumo as salgadas l\u00e1grimas de uns, as feridas profundas ou mais ligeiras de outros e a morte de alguns, com quem sempre morremos um pouco e chor\u00e1mos a sua falta nas noites, dentro no sil\u00eancio intranquilo da caserna ou do mato medonho, nunca conquistado.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 a personagem maior do livro?<\/p>\n<p>\u00c9 Bravo Elias, que representa muitos dos que, um dia, tiveram de haver-se com o perigo, o inesperado. Por isso, todos os combatentes que lerem o livro, h\u00e3o-de reconhecer-se nesta ou naquela situa\u00e7\u00e3o, fr\u00e1geis, destemidos, temerosos, apaixonados. Seja qual for o lugar: a Guin\u00e9, onde se desenrola a ac\u00e7\u00e3o, mas pode alargar-se a outros campos de guerra. Para ser t\u00e3o verdadeiro como a \u201cEstranha Noiva de Guerra\u201d o \u00e9, direi que todo o livro \u00e9 uma larga met\u00e1fora ao fim do imp\u00e9rio portugu\u00eas. Toda a viagem com o Perdiz \u00e0s costas ou em padiola, depois que surgiu a Mariama, quer significar isso mesmo, o fim. Toda a paix\u00e3o que se desenrola, ao longo de muitas horas, entre os dois, um soldado portugu\u00eas e uma guerrilheira, \u00e9 um adeus \u00e0 \u00c1frica. Bravo Elias tem mesmo essa percep\u00e7\u00e3o de um adeus dif\u00edcil e doloroso, quase pat\u00e9tico.<\/p>\n<p>O sr. foi pioneiro, relatando quase em directo a guerra colonial no Jornal da Bairrada. Mas s\u00f3 agora, passados mais de 30 anos, surgem v\u00e1rios romances sobre a guerra nas ex-col\u00f3nias. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o doloroso recordar? <\/p>\n<p>Se o primeiro livro de cr\u00f3nicas, \u201cTarrafo\u201d, escritas sobre o sangue da hora e o medo de todos os caminhos armadilhados, \u00e9 o testemunho feito em directo, todos os outros n\u00e3o deixam de o ser tamb\u00e9m. S\u00f3 assim se far\u00e1 a hist\u00f3ria inteira de uma guerra que a minha gera\u00e7\u00e3o foi obrigada a travar, escrita por quem sofreu e amou aquelas terras. N\u00f3s n\u00e3o podemos deixar que sejam outros, que nunca combateram, a inventar guerras ou a escrever sozinhos a hist\u00f3ria. Sobretudo, n\u00e3o podemos deixar morrer mais uma vez os que carreg\u00e1mos \u00e0s costas, feridos ou  mortos, os que foram valentes e os que foram medrosos. Todos estar\u00e3o num abra\u00e7o de eterna camaradagem, um dos valores que nos sobrou e muito prezamos.<\/p>\n<p>O amor \u00e9 tra\u00e7o marcante deste livro? Romance de armas e de paix\u00f5es?<\/p>\n<p>Este mesmo tema (ou tese, j\u00e1 n\u00e3o sei) vem \u00e0 m\u00e3o do leitor no romance \u201cA Cubana que dan\u00e7ava Flamenco\u201d, que tem muitos pontos de contacto. Aqui o her\u00f3i, uma vez aprisionado pelo IN [inimigo], tenta fugir ao fragor das armas e da guerra pelos mesmos trilhos. S\u00f3 o amor redime e salva. At\u00e9 das guerras, quase sempre in\u00fateis.<\/p>\n<p>Quando fala de amor, o sentimento tem v\u00e1rios sentidos: amor por uma mulher, amor pela terra, \u00c1frica, amor at\u00e9 pelos inimigos, algo t\u00e3o cruel se de afirmar num contexto de guerra\u2026<\/p>\n<p>O amor n\u00e3o pode faltar. A \u00c1frica sempre apaixona, raramente se detesta. N\u00e3o, n\u00e3o podia faltar, n\u00e3o tanto o amor pelo amor, gratuito e fortuito, mas sobretudo, pelo que isso significa de perd\u00e3o crist\u00e3o e de via para resolver conflitos do g\u00e9nero. As armas nunca podem ter a for\u00e7a do amor, que \u00e9 a melhor via para um mundo mais perfeito, partilhado e fraterno.<\/p>\n<p>Restam-lhe traumas e \u00f3dios por causa da guerra?<\/p>\n<p>Apesar de tudo o que passei, vi e sofri com os outros e pelos outros, n\u00e3o me restaram traumas ou \u00f3dios. Nem ao IN. Ali\u00e1s, isso pressente-se em todos os livros que escrevi, fossem cr\u00f3nicas, contos ou fic\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, de certo jeito, fiquei a gostar daquela terra e daquela gente e s\u00f3 tenho pena \u00e9 que, alcan\u00e7ada a independ\u00eancia, n\u00e3o tenha evolu\u00eddo no melhor sentido: melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, algum desenvolvimento.<\/p>\n<p>Referiu o \u201cciclo de guerra\u201d. Que outro ciclo h\u00e1 na sua escrita?<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que o outro \u00e9 o ciclo da terra, que engloba a monografia, o levantamento cultural ou hist\u00f3rico de v\u00e1rias terras, e at\u00e9 o conto na medida em que tem dentro terra e gente pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que lhe d\u00e1 maior prazer escrever?<\/p>\n<p>Cada obra tem a sua medida, que nunca \u00e9 bem cheia como seria nosso desejo. Gosto do que fa\u00e7o e isso j\u00e1 \u00e9 uma boa paga, mas d\u00e1-me um gosto especial a descoberta de tanta coisa e a sua mostragem p\u00fablica. \u00c9 outro tipo de miss\u00e3o. Aqui fa\u00e7o sempre os trabalhos como um servi\u00e7o a prestar \u00e0 comunidade, seja ela qual for, numa tentativa do resgate da mem\u00f3ria colectiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armor Pires Mota lan\u00e7a no dia 19 de Novembro (sexta-feira), \u00e0s 21h, na Livraria Bertrand (F\u00f3rum Aveiro), o romance \u201cEstranha Noiva de Guerra\u201d. 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