{"id":3055,"date":"2010-11-10T09:35:00","date_gmt":"2010-11-10T09:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3055"},"modified":"2010-11-10T09:35:00","modified_gmt":"2010-11-10T09:35:00","slug":"os-seminaristas-ja-nao-estao-dentro-de-uma-redoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-seminaristas-ja-nao-estao-dentro-de-uma-redoma\/","title":{"rendered":"Os seminaristas j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o dentro de uma redoma"},"content":{"rendered":"<p>P.e Jo\u00e3o Miguel Ara\u00fajo Alves, 31 anos, \u00e9 Reitor do Semin\u00e1rio de Aveiro desde Setembro de 2010. Padre h\u00e1 cinco anos, estudou Teologia Espiritual em Roma e especializou-se como formador de jovens para o sacerd\u00f3cio ministerial. Em plena Semana dos Semin\u00e1rios (7 a 14 de Novembro), fala-nos dos seminaristas de Aveiro, do papel do educador e do lan\u00e7amento das bolsas para a forma\u00e7\u00e3o dos futuros padres. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Como est\u00e1 o Semin\u00e1rio de Aveiro? Quantos s\u00e3o os seminaristas?<\/p>\n<p>P.E JO\u00c3O ALVES &#8211; O Semin\u00e1rio Diocesano de Aveiro engloba o Pr\u00e9-Semin\u00e1rio, o Semin\u00e1rio de Santa Joana (do 10.\u00ba ao 12.\u00ba ano), o tempo proped\u00eautico em Leiria, que dever\u00e1 terminar no final do ano, e o Semin\u00e1rio Maior, em Lisboa. Tudo isto \u00e9 o Semin\u00e1rio Diocesano de Aveiro. Neste momento temos uns trinta jovens no Pr\u00e9-Semin\u00e1rio, habitualmente at\u00e9 ao 12.\u00ba. Depois h\u00e1 um acompanhamento personalizado e a alguns \u00e9 feito o convite para viverem no Semin\u00e1rio. No Semin\u00e1rio de Santa Joana, h\u00e1 nove seminaristas: tr\u00eas no 10.\u00ba, um no 11.\u00ba e cinco no 12.\u00ba. Estudam todos na Escola Secund\u00e1ria Homem Cristo. H\u00e1 um seminarista em Leiria, o F\u00e1bio, que era finalista de t\u00e9cnico superior de Justi\u00e7a na Universidade de Aveiro. Em Lisboa, os seis seminaristas est\u00e3o todos no Semin\u00e1rio dos Olivais: o Gustavo, de Recard\u00e3es, no 2.\u00ba ano; o Pedro Barros, de Santa Joana, e o Jo\u00e3o Santos, de Santa Maria da Feira, no 3.\u00ba ano; o H\u00e9lder, de Oliveira do Bairro, o Leonel, de Aguada de Cima, e o V\u00edtor, da Gafanha do Carmo, est\u00e3o no 4.\u00ba ano. No futuro, os dois primeiros anos de Semin\u00e1rio Maior ser\u00e3o feitos no Semin\u00e1rio de S. Jos\u00e9 de Caparide (Cascais), tamb\u00e9m do Patriarcado de Lisboa.<\/p>\n<p>Como v\u00ea hoje a miss\u00e3o do educador no semin\u00e1rio, num contexto em que os padres est\u00e3o sob cr\u00edtica permanente? Pensemos, por exemplo, na quest\u00e3o da pedofilia. \u00c9 abordada no semin\u00e1rio ou passa ao lado?<\/p>\n<p>N\u00e3o passa ao lado. Estudando numa escola p\u00fablica \u2013 e mesmo que fosse privada \u2013 apontam o dedo aos seminaristas. Sentem-se incomodados. Qual a postura do educador? H\u00e1 tr\u00eas aspectos que qualquer educador deve assumir, at\u00e9 porque o educador crist\u00e3o \u00e9 sempre educador vocacional. Primeiro, tem de dar aten\u00e7\u00e3o pessoal. N\u00e3o posso achar que o que \u00e9 para um \u00e9 para todos. Preciso de descobrir as necessidades, as motiva\u00e7\u00f5es, os valores de que aquele jovem em concreto precisa e quais s\u00e3o as suas \u00e2nsias. Estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o pessoal. Depois, \u00e9 preciso ter alguma compet\u00eancia pedag\u00f3gica para o acompanhamento. Isto n\u00e3o quer dizer que seja necess\u00e1rio fazer cursos. Tive \u00f3ptimos formadores que n\u00e3o tinham cursos de pedagogia. Por vezes basta ter o sentido do senso comum e alguma intui\u00e7\u00e3o. Mas hoje a realidade \u00e9 t\u00e3o complicada\u2026 Os seminaristas s\u00e3o bombardeados por muitas propostas. Antigamente os semin\u00e1rios como que tinham uma redoma. Esse tempo acabou. Hoje \u00e9 preciso uma prepara\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica para ler bem a realidade e perceber qual a melhor forma de acompanhar. Por \u00faltimo, h\u00e1 um desafio pessoal a cada educador, que \u00e9 o testemunho. Se eu n\u00e3o mostro uma realiza\u00e7\u00e3o e uma alegria pela voca\u00e7\u00e3o assumida, ent\u00e3o n\u00e3o vale a pena. Um educador, mais do que possa dizer ou fazer, testemunha. Um testemunho verdadeiro \u00e9 um testemunho cred\u00edvel. E n\u00f3s sabemos bem que \u00e9 o factor mais importante para o discernimento vocacional. Um padre refere sempre este ou aquele padre que o influenciou positivamente para o sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<p>Por vezes, sentimos que certo tema paira no ar. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es com que os jovens s\u00e3o confrontados e que temos de as abordar \u2013 e ainda bem. Aqui conta o testemunho, a resposta, e, tamb\u00e9m, claro, o reconhecimento da debilidade da Igreja.<\/p>\n<p>Por outro lado, temos reflectido sobre at\u00e9 que ponto faz falta uma proposta educativa cat\u00f3lica na cidade. Tamb\u00e9m para podermos trabalhar na \u00e1rea acad\u00e9mica com os seminaristas.<\/p>\n<p>Faz falta uma escola cat\u00f3lica na zona de Aveiro? <\/p>\n<p>Sim. N\u00e3o h\u00e1 em Aveiro nenhuma proposta de ensino particular com os anos do secund\u00e1rio. Somente o Col\u00e9gio D. Jos\u00e9 I oferece cursos profissionais. Mas temos pais de Aveiro que v\u00e3o colocar os seus filhos a Calv\u00e3o, Anadia, Albergaria. N\u00e3o estando n\u00f3s descontentes com as propostas da Escola Homem Cristo, sentimos que faria sentido uma outra proposta. H\u00e1 aquele professor que n\u00e3o gosta dos padres ou da Igreja. H\u00e1 esta ou aquela dificuldade com as aulas de Educa\u00e7\u00e3o Moral Religiosa Cat\u00f3lica\u2026<\/p>\n<p>Temos vindo a reflectir at\u00e9 que ponto seria oportuno a Diocese ou alguma congrega\u00e7\u00e3o investir aqui \u2013 o que seria tamb\u00e9m uma resposta ao ensino dos seminaristas, n\u00e3o numa perspectiva de os isolar, segregar, mas de possibilitar iniciativas pastorais no ensino.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias, em F\u00e1tima, dizia-se no F\u00f3rum das Voca\u00e7\u00f5es que a pastoral vocacional \u00e9 um compromisso de toda a toda a Igreja e responsabilidade da comunidade crist\u00e3. Concorda?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Estamos a dar passos nessa mudan\u00e7a. C\u00e1 em Aveiro, era a equipa do Semin\u00e1rio que assumia a promo\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o sobre a voca\u00e7\u00e3o. Hoje a pastoral vocacional est\u00e1 integrada na pastoral juvenil. Quando falamos de voca\u00e7\u00e3o ainda nos vem \u00e0 ideia ser padre ou religiosa. Talvez ainda gastemos demasiados esfor\u00e7os na pastoral tradicional, quando devemos canalizar for\u00e7as para outras formas de acompanhamento mais personalizado, com mais tempo dedicado. Sobretudo nos \u00e2mbitos da pastoral universit\u00e1ria e juvenil e nos movimentos crist\u00e3os. Basta observar que alguns dos seminaristas maiores entraram para o semin\u00e1rio depois de terminarem os seus cursos superiores. Isto \u00e9 cada vez mais comum. O que antes se dizia que era uma voca\u00e7\u00e3o tardia \u00e9 hoje o tempo real em que a quest\u00e3o vocacional para o sacerd\u00f3cio se coloca.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em mudan\u00e7a o perfil do seminarista?<\/p>\n<p>Estamos a viver uma realidade, sem que o modelo antigo dos \u201cseminaristas de carreira\u201d esteja gasto, que exige que respondamos de modo diferente. A oportunidade da quest\u00e3o vocacional surge no mundo da universidade. Os jovens terminam o curso e perguntam: O que \u00e9 que vou fazer? \u00c9 neste contexto, a que n\u00e3o \u00e9 alheia a instabilidade profissional e familiar, que surge com mais maturidade a quest\u00e3o vocacional do sacerd\u00f3cio em jovens por vezes inseridos em movimentos crist\u00e3os ou acompanhados por congrega\u00e7\u00f5es. Por isso, temos de apostar na educa\u00e7\u00e3o da f\u00e9. S\u00f3 posso dar uma resposta \u00e0quilo que Deus quer de mim se me encontrar com Ele. S\u00f3 a vida e maturidade de f\u00e9 permite dar a resposta. H\u00e1, de facto, outros contextos para surgir as voca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;A forma\u00e7\u00e3o de um seminarista maior custa cerca de 4000 euros por ano&#8221;<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; A Semana dos Semin\u00e1rios \u00e9 sempre ocasi\u00e3o para rezar pelos semin\u00e1rios e para a ajuda material. Como vive o Semin\u00e1rio?<\/p>\n<p>P.E JO\u00c3O ALVES &#8211; O Semin\u00e1rio vive da oferta da Semana dos Semin\u00e1rios \u2013 que n\u00e3o sei quanto \u00e9 por ano \u2013, vive tamb\u00e9m da contribui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia dos seminaristas (175 euros mensais, em Aveiro \u2013 as fam\u00edlias d\u00e3o o que podem; em Lisboa, s\u00e3o 300 euros mais as propinas da Universidade Cat\u00f3lica, que custam cerca de 1000 euros por ano) e ainda de parte dos estip\u00eandios das missas. Em Aveiro, a despesa com um seminarista ficar\u00e1 pelos 2100 euros por ano. Em Lisboa, pelos 4000 euros. Todos os meses o Semin\u00e1rio pede ao fundo diocesano. Como gastos, al\u00e9m da estadia dos seminaristas e do trabalho dos funcion\u00e1rios, h\u00e1 despesas com o edif\u00edcio. Neste momento h\u00e1 obras no Claustro dos Ap\u00f3stolos, que est\u00e1 a ser impermeabilizado. Custar\u00e3o cerca de 40 mil euros. Recentemente foi pintada a parte onde vivem as irm\u00e3s. Depois da constru\u00e7\u00e3o da Casa Sacerdotal, ser\u00e1 renovada a zona do semin\u00e1rio do lado deste novo edif\u00edcio.<\/p>\n<p>Com a ida dos Seminaristas para Lisboa, aumentaram as despesas. Resolvemos, por isso, propor \u00e0 Diocese a cria\u00e7\u00e3o de bolsas de estudo destinadas exclusivamente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do seminarista maior ou menor. H\u00e1 uma conta banc\u00e1ria s\u00f3 para isso. A bolsa n\u00e3o \u00e9 nominal. N\u00e3o se destina a um seminarista em concreto. Uma pessoa, um conjunto de pessoas, um grupo de catequistas, uma par\u00f3quia podem contribuir com uma bolsa completa ou parte. A equipa do Semin\u00e1rio gere consoante as necessidades, canalizando mais para a forma\u00e7\u00e3o de um ou outro seminarista.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que as pessoas podem aderir \u00e0s bolsas?<\/p>\n<p>Podem ir ao encontro do seu p\u00e1roco ou entrar em contacto directo com o Semin\u00e1rio de Aveiro para darmos as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. Fizemos um prospecto para distribuir esta semana que explica o funcionamento das bolsas. Elas t\u00eam uma finalidade econ\u00f3mica e espiritual, porque sabemos por outras experi\u00eancias similares que a pessoa que contribui com dinheiro reza pelos semin\u00e1rios. Cria-se, assim, uma cadeia de ora\u00e7\u00e3o e afectiva para com os semin\u00e1rios. Atrav\u00e9s da bolsa de estudo, o semin\u00e1rio vai ao cora\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Pretendem, de certa forma, institucionalizar o carinho e a solidariedade pelo Semin\u00e1rio, mas j\u00e1 tem havido gestos espont\u00e2neos de generosidade&#8230;<\/p>\n<p>Sim. H\u00e1 ofertas pontuais. O Semin\u00e1rio j\u00e1 tem recebido heran\u00e7as, sobretudo de padres, mas tamb\u00e9m de leigos. Por outro lado, h\u00e1 grupos que ao usarem o Semin\u00e1rio deixam uma oferta generosa. Outro caso: um grupo de Santa Catarina (Vagos) que ao peregrinar a F\u00e1tima angariou uma quantia que ofereceu ao semin\u00e1rio. A generosidade existe. Ao propormos bolsas anuais de 2000 euros para um seminarista menor e 4000 euros para um seminarista maior, criamos apenas uma via de ajuda concreta, com destino preciso: forma\u00e7\u00e3o de um seminarista.<\/p>\n<p>Devo referir ainda que na Semana dos Semin\u00e1rios estamos a distribuir aos padres o Projecto Educativo do Semin\u00e1rio de Aveiro.<\/p>\n<p>Em que consiste, no essencial, o Projecto Educativo?<\/p>\n<p>O Semin\u00e1rio de Aveiro \u00e9 um tempo educativo. O Projecto explica aquilo a que se prop\u00f5e, as suas finalidades, o tipo de acompanhamento. Este Semin\u00e1rio n\u00e3o existe para formar padres. Existe para educar os jovens na f\u00e9 e ajud\u00e1-los a fazer um primeiro discernimento vocacional, para o minist\u00e9rio ordenado ou para outro estado. Distinguimos tr\u00eas \u00e2mbitos: educa\u00e7\u00e3o humana, educa\u00e7\u00e3o intelectual e educa\u00e7\u00e3o espiritual. \u00c9 um tempo educativo para ajudar um jovem a perceber melhor o seu caminho. A proposta que fazemos \u00e9 claramente ser padre. \u00c9 este o horizonte. Mas sentimo-nos t\u00e3o felizes se algu\u00e9m nos diz \u201cSim, em quero continuar\u201d, como sentimos que cumprimos a nossa miss\u00e3o quando algu\u00e9m no diz \u201cDescobri que a minha voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 por aqui\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P.e Jo\u00e3o Miguel Ara\u00fajo Alves, 31 anos, \u00e9 Reitor do Semin\u00e1rio de Aveiro desde Setembro de 2010. Padre h\u00e1 cinco anos, estudou Teologia Espiritual em Roma e especializou-se como formador de jovens para o sacerd\u00f3cio ministerial. 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