{"id":311,"date":"2010-01-13T11:36:00","date_gmt":"2010-01-13T11:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=311"},"modified":"2010-01-13T11:36:00","modified_gmt":"2010-01-13T11:36:00","slug":"aveiro-no-culto-a-sao-goncalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/aveiro-no-culto-a-sao-goncalo\/","title":{"rendered":"Aveiro no culto a S\u00e3o Gon\u00e7alo"},"content":{"rendered":"<p>1. A figura e a hist\u00f3ria<\/p>\n<p>S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante pertence \u00e0 nobre fam\u00edlia dos Pereiras e nasceu (1200?) em Arriconha, freguesia de Tagilde, perto de Guimar\u00e3es. Faleceu em Amarante, a 10 de Janeiro de 1262. O seu culto foi permitido pelo Papa J\u00falio III, em 1551, confirmado pela beatifica\u00e7\u00e3o de Pio IV, em 16 de Setembro de 1561. Em 1671, o papa Clemente X estendeu o of\u00edcio e a missa do beato Gon\u00e7alo de Amarante a toda a Ordem dos Pregadores. <\/p>\n<p>Temos portanto o local do seu nascimento e da sua morte e a respectiva data. Mas do seu nascimento pouco se sabe. De concreto temos o documento mais antigo que existe sobre S\u00e3o Gon\u00e7alo: um testamento de 18 de Maio de 1279, em que uma mulher testa a favor da Igreja de S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante. O que n\u00e3o deixa de ser muito interessante, pois dezassete anos ap\u00f3s a sua morte, j\u00e1 existe um templo dedicado ao seu culto, quase trezentos anos antes da sua aprova\u00e7\u00e3o pela Igreja. <\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es certas sobre a sua vida s\u00e3o inversamente proporcionais ao culto e aos milagres que se lhe atribuem. \u00c9 no ano de 1513, num livro dedicado \u00e0s biografias dos Santos, um \u201cFlos Sanctorum\u201d, que se relatam alguns factos da vida de S\u00e3o Gon\u00e7alo. A existirem outros livros anteriores a este, n\u00e3o se encontraram at\u00e9 hoje, e \u00e9 nesta edi\u00e7\u00e3o de 1513 que bebem os sucessivos trabalhos da hagiografia de S\u00e3o Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>Onde vai ent\u00e3o este documento buscar a informa\u00e7\u00e3o de que S\u00e3o Gon\u00e7alo era dominicano? Muito provavelmente \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o oral que, em casos como este de falta de informa\u00e7\u00e3o escrita, se torna bastante importante e de considerar. De facto, a maior parte das biografias de S\u00e3o Gon\u00e7alo \u00e9 de frades dominicanos, por via de uma orienta\u00e7\u00e3o do Cap\u00edtulo Geral da Ordem de 1532, no qual se ordena a recolha dos nomes das suas pessoas ilustres. <\/p>\n<p>Foi, no entanto, o famoso Frei Lu\u00eds de Sousa quem de forma mais completa e detalhada nos narrou a vida de S\u00e3o Gon\u00e7alo, na \u201cHist\u00f3ria de S\u00e3o Domingos\u201d que ele continuou e concluiu. At\u00e9 ent\u00e3o, S\u00e3o Gon\u00e7alo \u00e9 visto e estudado como personagem medieval, muito na sua dimens\u00e3o milagreira. Doravante, Lu\u00eds de Sousa conceber\u00e1, com respeito pelas informa\u00e7\u00f5es do passado, uma figura actualizada e de acordo com a vis\u00e3o do Conc\u00edlio de Trento (1545\/63). S\u00e3o Gon\u00e7alo \u00e9 beatificado exactamente durante este Conc\u00edlio, em 1561. Se Frei Lu\u00eds de Sousa deu consist\u00eancia a esta biografia, uma obra de Manuel Pereira, de 1672, muito pr\u00f3ximo da c\u00fapula dos Dominicanos, iria universalizar e dar cunho definitivo ao seu culto, isto um ano depois de Pio IV o ter autorizado. Aqui est\u00e3o portanto, as principais fontes sobre S\u00e3o Gon\u00e7alo. O exemplo de vida pessoal e pastoral que emana do santo de Amarante \u00e9 pois muito importante durante o s\u00e9c. XVII, o que talvez explique o famoso P.e Ant\u00f3nio Vieira ter escrito o Serm\u00e3o de S\u00e3o Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>Relativamente \u00e0 sua vida, ser\u00e1 un\u00e2nime dizer que recebeu os rudimentos de instru\u00e7\u00e3o com um tio sacerdote, embora haja quem afiance tratar-se de um bispo, ou ent\u00e3o, n\u00e3o de uma s\u00f3 pessoa, mas de um convento beneditino que existiu em Tagilde. Frequentou depois a escola episcopal de Braga, foi ordenado presb\u00edtero e nomeado p\u00e1roco de S\u00e3o Paio de Vizela, bem pr\u00f3ximo de Tagilde, onde nascera. Ter\u00e1 ido em devota peregrina\u00e7\u00e3o a Roma e aos Lugares Santos de Jerusal\u00e9m. Muito enraizado na sua lenda \u00e9 o facto de, na altura da sua viagem, ter confiado a par\u00f3quia a um sobrinho seu sacerdote. Este expulsou-o da par\u00f3quia quando o tio regressou, de tal modo era apegado \u00e0s coisas do mundo, e de tal forma o seu tio vinha desfigurado. Sem a sua par\u00f3quia, ter\u00e1 seguido uma vida de entrega espiritual intensa e uma prega\u00e7\u00e3o incessante, vestindo o h\u00e1bito dominicano, era ent\u00e3o prior da comunidade S\u00e3o Pedro Gon\u00e7alves Telmo. Este santo teve uma imagem na demolida Capela de S\u00e3o Jo\u00e3o do Rossio.<\/p>\n<p>A reforma lit\u00fargica da Igreja Cat\u00f3lica prop\u00f5e para S\u00e3o Gon\u00e7alo as ora\u00e7\u00f5es da Missa do comum dos Pastores da Igreja ou dos Santos Religiosos.  <\/p>\n<p>2. O Culto em Aveiro<\/p>\n<p>Talvez a hip\u00f3tese mais cred\u00edvel para a introdu\u00e7\u00e3o do culto a S\u00e3o Gon\u00e7alo em Aveiro seja por interven\u00e7\u00e3o dos religiosos da Ordem dos Pregadores de S\u00e3o Domingos, que se instalaram no Convento de Nossa Senhora da Miseric\u00f3rdia em 1423, do qual resta o que \u00e9 hoje a S\u00e9 de Aveiro. Pelo menos h\u00e1 448 anos a figura do religioso \u00e9 falada e conhecida em Aveiro.<\/p>\n<p>No referente ao culto a S\u00e3o Gon\u00e7alo entre n\u00f3s, talvez tenhamos de o dividir por quatro espa\u00e7os f\u00edsicos. Primeiro o Convento dos Dominicanos, depois a primitiva Capela de S\u00e3o Gon\u00e7alo, em terceiro lugar a actual Igreja de Nossa Senhora da Apresenta\u00e7\u00e3o, paroquial da Vera-Cruz, e em quarto a Capela de S\u00e3o Gon\u00e7alinho.<\/p>\n<p>Se hoje entrarmos na S\u00e9, recolhemos desde logo dois vest\u00edgios sobre S\u00e3o Gon\u00e7alo. Um pano e uma tela num cadeiral, No que diz respeito \u00e0 hist\u00f3ria, h\u00e1 uma provis\u00e3o para pedir esmola entre os fi\u00e9is \u00e0s Confrarias de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio e de S\u00e3o Gon\u00e7alo, de 1812. Depois, a actual Capela do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus era dedicada, no tempo dos frades, a S\u00e3o Gon\u00e7alo. Aqui estava, at\u00e9 1976, a mesa do altar da Igreja da Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que uns versos da tradi\u00e7\u00e3o popular nos confirmam a exist\u00eancia do culto gon\u00e7alino nas freguesias da Gl\u00f3ria e da Vera-Cruz. E que s\u00e3o estes:<\/p>\n<p>S. Gon\u00e7alo l\u00e1 de cima <\/p>\n<p>\u00e9 das velhas curraleiras <\/p>\n<p>S. Gon\u00e7alo c\u00e1 de baixo <\/p>\n<p>\u00e9 das novas pescadeiras.<\/p>\n<p>Saindo da S\u00e9, atentemos numa data: 1572. Nesta data constituem-se tr\u00eas novas freguesias, entre elas Nossa Senhora das Candeias, mais tarde Apresenta\u00e7\u00e3o, a qual ficou instalada provisoriamente na Capela de S\u00e3o Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>Relativamente ao culto a S\u00e3o Gon\u00e7alo em Aveiro, conforme diz o dr. Jos\u00e9 Pereira Tavares no artigo dedicado \u00e0 Festa de S\u00e3o Gon\u00e7alinho, \u201cvem de longe esse culto (&#8230;), mas n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil determinar com precis\u00e3o quando principiou\u201d. Embora uma imagem da sacristia da Igreja Paroquial da Vera-Cruz, datada do s\u00e9c. XV, nos mostre a antiguidade do culto.<\/p>\n<p>Podemos no entanto apontar que a partir de dada altura da nossa hist\u00f3ria colectiva, j\u00e1 existia uma ermida a este santo, e Aveiro conheceu dois templos dedicados a S\u00e3o Gon\u00e7alo. Marques Gomes, nas \u201cMem\u00f3rias de Aveiro\u201d, sobre a primitiva capela, diz: \u201c\u00c9 de bastante antiguidade, e foi reformada em 1714\u201d.<\/p>\n<p>Ora, sabe-se que a primitiva Capela de S\u00e3o Gon\u00e7alo se situava junto das Salinas do Rossio, sensivelmente no mesmo lugar da actual. E Marques Gomes diz que os carmelitas descal\u00e7os aqui estabeleceram, em 1613, o seu convento. Sabemos tamb\u00e9m que o povo a construiu no s\u00e9c. XVI, uma vez que numa informa\u00e7\u00e3o paroquial dada pelo prior da freguesia de Nossa Senhora da Apresenta\u00e7\u00e3o ao provisor do bispado de Coimbra, se refere a esta constru\u00e7\u00e3o como tendo cerca de duzentos anos. Portanto, logo ap\u00f3s a beatifica\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Gon\u00e7alo, Aveiro tratou de lhe erguer um templo. <\/p>\n<p>Toda a din\u00e2mica do culto em torno de S\u00e3o Gon\u00e7alo e \u00e0 religiosidade popular est\u00e1 bem presente nas v\u00e1rias redondilhas e melodias que o povo lhe dedicou e que mais modernamente o poeta Amadeu de Sousa escreveu. Mas tamb\u00e9m outras associa\u00e7\u00f5es, como a Confraria de S\u00e3o Gon\u00e7alo, e a Tuna que o tem como patrono, revelam bem a presen\u00e7a da sua figura fora dos limites do bairro da Beira-Mar. As sucessivas mordomias da Festa de S\u00e3o Gon\u00e7alinho t\u00eam-se esfor\u00e7ado por actualizar o seu culto, atrav\u00e9s de litografias de reconhecidos artistas, pe\u00e7as de elevado valor e de s\u00e9rie limitada, e o sucessivo engrandecimento da festa com publicita\u00e7\u00e3o na comunica\u00e7\u00e3o social a n\u00edvel nacional. Essas mordomias agregam desde h\u00e1 anos, n\u00e3o s\u00f3 homens da Beira-mar mas tamb\u00e9m pessoas oriundas de outras terras que se sentem ligadas a S\u00e3o Gon\u00e7alo. Naturalmente a uniformiza\u00e7\u00e3o dos costumes esbate as particularidades dos povos, mas o que \u00e9 essencial em S\u00e3o Gon\u00e7alinho de Aveiro tem-se mantido com factor de unidade e ponto de orgulho de quem organiza a sua festa. <\/p>\n<p>O culto a S\u00e3o Gon\u00e7alinho, por se realizar nesta terra h\u00e1, pelo menos, quase 500 anos, deve responsabilizar todos os aveirenses na liga\u00e7\u00e3o das nossas tradi\u00e7\u00f5es aos vindouros, conforme nos foram transmitidas pelos nossos antepassados, com o mesmo amor e dedica\u00e7\u00e3o a Aveiro.<\/p>\n<p>Obras consultadas: Arquivo da Par\u00f3quia da Vera-Cruz, Arquivo do distrito de Aveiro, Aveiro \u2013 Apontamentos hist\u00f3ricos, Calend\u00e1rio Hist\u00f3rico de Aveiro, Catedral de Aveiro \u2013 hist\u00f3ria e arte, S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante e S\u00e3o Gon\u00e7alo \u2013 hist\u00f3ria ou lenda? (obras de v\u00e1rios autores)<\/p>\n<p>Excertos do texto apresentado a 14 de Novembro de 2009 nos IV Encontros de S\u00e3o Gon\u00e7alinho<\/p>\n<p>Nuno Gon\u00e7alo da Paula<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. A figura e a hist\u00f3ria S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante pertence \u00e0 nobre fam\u00edlia dos Pereiras e nasceu (1200?) em Arriconha, freguesia de Tagilde, perto de Guimar\u00e3es. Faleceu em Amarante, a 10 de Janeiro de 1262. 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