{"id":3197,"date":"2010-12-09T09:58:00","date_gmt":"2010-12-09T09:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3197"},"modified":"2010-12-09T09:58:00","modified_gmt":"2010-12-09T09:58:00","slug":"sem-abrigo-um-drama-mas-com-solucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/sem-abrigo-um-drama-mas-com-solucao\/","title":{"rendered":"Sem-abrigo: um drama, mas com solu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Apresentaram-se preocupa\u00e7\u00f5es e boas pr\u00e1ticas com os sem-abrigo. Cair no \u00faltimo patamar da escala social pode deixar de ser fatalidade. <\/p>\n<p>\u201cSem abrigo: op\u00e7\u00e3o ou imposi\u00e7\u00e3o?\u201d A pergunta pairou sobre o encontro promovido pelas Florinhas do Vouga, com o apoio da Rede Social de Aveiro, no dia 25 de Novembro. Pela iniciativa que marcou tamb\u00e9m os 70 anos da institui\u00e7\u00e3o diocesana de \u201csuperior interesse social\u201d passaram alarmes de consci\u00eancia, preocupa\u00e7\u00f5es e boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Na sess\u00e3o de abertura, D. Ant\u00f3nio Francisco, Bispo de Aveiro, afirmou: \u201cEstamos aqui hoje para dizermos, n\u00f3s aveirenses e neles todos n\u00f3s os crist\u00e3os da Diocese, que o dever e o desejo de darmos abrigo aos sem-abrigo s\u00e3o uma miss\u00e3o de todos e de cada um de n\u00f3s\u201d. Helena Terra, directora distrital da Seguran\u00e7a Social, por seu turno, disse: \u201cSer sem-abrigo \u00e9 a op\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de poder optar. \u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o, como comunidade, impedir que continue a s\u00ea-lo\u201d. \u00c9lio Maia, presidente da C\u00e2mara Municipal de Aveiro, denunciou a tend\u00eancia comum de \u201catirar para cima de algu\u00e9m, o vizinho, o Estado\u2026 aquilo que \u00e9 responsabilidade de cada um\u201d e congratulou-se por uma institui\u00e7\u00e3o, as Florinhas, assumir a sua responsabilidade. Jos\u00e9 Mota, governador civil, declarou que nem todas as institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social s\u00e3o boas, pelo que n\u00e3o devem ser apoiadas, mas que \u201ch\u00e1 que apoiar quem mais faz\u201d, como \u00e9 o caso das Florinhas.<\/p>\n<p>Um das propostas inovadoras para lidar com a quest\u00e3o dos sem-abrigo, o Projecto Casa Primeiro (ver entrevista em baixo), foi apresentada por Jos\u00e9 Ornelas e sua equipa. Entre respons\u00e1veis de institui\u00e7\u00f5es locais o Projecto teve bom acolhimento, conforme ficou patente nas interpela\u00e7\u00f5es da audi\u00eancia.<\/p>\n<p>Em Aveiro, segundo um estudo da C\u00e2mara Municipal, apresentado por Cl\u00e1udia Familiar, haver\u00e1 \u201c60 pessoas sem-abrigo, maioritariamente com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos (33,3 por cento) do sexo masculino, portugueses (83,3 por cento) e naturais da regi\u00e3o do Baixo Vouga\u201d. O n\u00famero \u00e9 contestado por Jo\u00e3o Barbosa, presidente da Junta de Freguesia da Vera Cruz, que esteve no encontro, como sendo \u201cexcessivo\u201d. J\u00e1 as Florinhas do Vouga, que forneceram \u00e0 C\u00e2mara os principais dados do estudo, em 2009, e t\u00eam pr\u00e1tica no terreno, afirmam que o n\u00famero entretanto aumentou.<\/p>\n<p>O presidente da Junta da Vera Cruz, embora considerando que o n\u00famero \u201c\u00e9 muito flutuante\u201d, defende a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201ccasa de recursos imediatos\u201d na cidade, para estas pessoas, para al\u00e9m dos dois centros de acolhimento tempor\u00e1rio que j\u00e1 existem, um na C\u00e1ritas (para 12 pessoas) e outro na Funda\u00e7\u00e3o CESDA (para 14 pessoas). Quanto ao Projecto Casa Primeiro, considera-o \u201ct\u00e3o interessante\u201d que seria bom p\u00f4-lo em pr\u00e1tica em Aveiro. \u201cA primeira ideia que me ocorreu foi dizer ao Sr. P.e Jo\u00e3o Gon\u00e7alves que leve o projecto para a frente, j\u00e1 que as Florinhas do Vouga s\u00e3o a institui\u00e7\u00e3o que, na minha opini\u00e3o, melhor pode desenvolv\u00ea-lo\u201d. E acrescentou: \u201cNa minha freguesia h\u00e1 muitas habita\u00e7\u00f5es com as caracter\u00edsticas adequadas. A Junta da Vera Cruz dar\u00e1 todo o apoio\u201d.<\/p>\n<p>Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>Projecto inovador pode tirar os sem-abrigo das ruas de Aveiro no prazo de seis meses<\/p>\n<p>O Projecto Housing First, Casa Primeiro, surgiu em Nova Iorque no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, apoiando-se na convic\u00e7\u00e3o de que a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um direito humano que n\u00e3o pode ser negado nem deve estar dependente de exig\u00eancias aos sem-abrigo (deixar a droga ou o \u00e1lcool, por exemplo). Est\u00e1 a ser aplicado com sucesso em Lisboa pela Associa\u00e7\u00e3o para o Estudo e Integra\u00e7\u00e3o Psico-Social (AEIPS), sob coordena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e cient\u00edfica do professor Jos\u00e9 Ornelas, do Instituto de Psicologia Aplicada (ISPA).<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 Em breves palavras, em que consiste o Projecto Casa Primeiro? <\/p>\n<p>JOS\u00c9 ORNELAS \u2013 Primeira quest\u00e3o: primeiro, as casas. Depois, as interven\u00e7\u00f5es. Pode uma pessoa ter doen\u00e7a mental, ser toxicodependente ou alco\u00f3lica, mas primeiro recebe a casa, s\u00f3 depois, l\u00e1 na casa, \u00e9 que falamos de outras coisas. <\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o: tem de ser uma casa arrendada, individualizada, dispersa na cidade. N\u00e3o em bairros sociais. Sendo dispersa, ajuda \u00e0 integra\u00e7\u00e3o na comunidade pela cria\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a. A equipa do projecto faz seis visitas por m\u00eas, no m\u00ednimo. Estas casas s\u00e3o alugadas sem tempo determinado.<\/p>\n<p>Tem afirmado que este programa \u00e9 mais barato que outros, quando a estadia numa institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental, por exemplo, custa mais de cem euros por dia\u2026<\/p>\n<p>O custo deste programa \u00e9 muito mais barato do que os tradicionais. E trata-se de alugar uma casa. Por exemplo, alugar um quarto fica mais caro porque n\u00e3o tem casa de banho nem cozinha para fazer a comida. Este programa custa 17 euros por dia por pessoa. Paga a renda e a equipa t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Se \u00e9 um programa mais barato e eficaz, porque n\u00e3o \u00e9 mais posto em pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>Porque \u00e9 uma descoberta recente. Tem a ver com a liga\u00e7\u00e3o entre a academia e a interven\u00e7\u00e3o social. Est\u00e1 a ser aplicada nos Estados Unidos, no Canad\u00e1 e em alguns pa\u00edses europeus. Em Lisboa, est\u00e1 a ter resultados muito positivos. O programa \u00e9 para 65 pessoas. J\u00e1 transitaram para as casas 45.<\/p>\n<p>Pensam em estender o programa a outros locais?<\/p>\n<p>Depois de atingirmos a coloca\u00e7\u00e3o dos 65, vamos avaliar e demonstrar que funciona, para ser replicado e generalizado. Esperamos que outras organiza\u00e7\u00f5es adiram a este programa e o apliquem a outros sem-abrigo.<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel aplic\u00e1-lo em Aveiro?<\/p>\n<p>Aqui em Aveiro, com um n\u00famero t\u00e3o restrito de 50 a 60 sem-abrigo, poderiam resolver completamente esta situa\u00e7\u00e3o. Mesmo que algumas dessas pessoas tenham grande mobilidade, poderia haver duas ou tr\u00eas casas em que essas pessoas poderiam imediatamente entrar e sair.<\/p>\n<p>Se estivesse em Aveiro, quando tempo demoraria a resolver a situa\u00e7\u00e3o dos sem-abrigo?<\/p>\n<p>Seis meses. N\u00e3o conhe\u00e7o o mercado de arrendamento, mas deve haver 60 casas para alugar rapidamente. As casas n\u00e3o poderiam custar mais de 400 euros por m\u00eas para manter o custo\/benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Este programa \u00e9 um exemplo de liga\u00e7\u00e3o entre universidade e comunidade\u2026<\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Sou professor do ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada \u2013 Lisboa) e fa\u00e7o a consultoria do programa e acompanh\u00e1mo-lo com investiga\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 extraordin\u00e1ria e pode ser aplicada noutras \u00e1reas sociais. A academia tem de apoiar as \u00e1reas sociais, indo al\u00e9m dos diagn\u00f3sticos. J\u00e1 fizemos muitos diagn\u00f3sticos. Agora \u00e9 preciso fazer a mudan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresentaram-se preocupa\u00e7\u00f5es e boas pr\u00e1ticas com os sem-abrigo. Cair no \u00faltimo patamar da escala social pode deixar de ser fatalidade. \u201cSem abrigo: op\u00e7\u00e3o ou imposi\u00e7\u00e3o?\u201d A pergunta pairou sobre o encontro promovido pelas Florinhas do Vouga, com o apoio da Rede Social de Aveiro, no dia 25 de Novembro. 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