{"id":3300,"date":"2010-12-15T09:45:00","date_gmt":"2010-12-15T09:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3300"},"modified":"2010-12-15T09:45:00","modified_gmt":"2010-12-15T09:45:00","slug":"abriram-se-novos-caminhos-para-o-catolicismo-no-arduo-periodo-da-i-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/abriram-se-novos-caminhos-para-o-catolicismo-no-arduo-periodo-da-i-republica\/","title":{"rendered":"Abriram-se novos caminhos para o catolicismo no \u00e1rduo per\u00edodo da I Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA revolu\u00e7\u00e3o de Outubro trouxe horas amargas e injustas, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos exacto que ela ficou a marcar um ponto de partida na liberta\u00e7\u00e3o de uma opress\u00e3o liberal e regalista\u201d, afirmou Mons. Jo\u00e3o Gaspar<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, que nasce geneticamente antimon\u00e1rquica e anticat\u00f3lica, devido \u00e0 associa\u00e7\u00e3o nem sempre t\u00e3o vantajosa como se diz entre catolicismo e monarquia, mas politicamente relevante, os bispos portugueses foram l\u00facidos e corajosos. \u201cNesta conting\u00eancia dura e dif\u00edcil, os bispos manifestaram com verdadeira e l\u00facida coragem, pessoal e colectivamente, publicando e fazendo circular documentos com orienta\u00e7\u00f5es concretas para o povo crist\u00e3o; efectivamente, mais uma vez eles continuaram uma tradi\u00e7\u00e3o resistente, capazes de enfrentar momentos dif\u00edceis e at\u00e9 persegui\u00e7\u00f5es, tendo a consci\u00eancia de que tinham e t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o moral de transmitir a mensagem religiosa e humanizadora de Jesus Cristo\u201d, afirmou Monsenhor Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar, na confer\u00eancia \u201cA I Rep\u00fablica e a Igreja Cat\u00f3lica\u201d, que abriu na sexta-feira passada, em Aveiro, um ciclo promovido pela Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura.<\/p>\n<p>Falando como historiador, membro da Academia Portuguesa de Hist\u00f3ria, Mons. Jo\u00e3o Gaspar fez uma prelec\u00e7\u00e3o sobre hist\u00f3ria, mas sem perder o horizonte pastoral. Por isso, come\u00e7ou por lembrar as palavras de Bento XVI em Portugal, de certo modo inesperadas, sobre os acontecimentos de h\u00e1 cem anos: \u201cA viragem republicana, operada h\u00e1 cem anos em Portugal, abriu, na distin\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado, um espa\u00e7o novo de liberdade para a Igreja (\u2026). Os sofrimentos causados pelas muta\u00e7\u00f5es foram enfrentados geralmente com coragem. Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros \u00e9ticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do Cristianismo para refor\u00e7ar a qualidade do testemunho at\u00e9 \u00e0 santidade, inventar caminhos de miss\u00e3o at\u00e9 \u00e0 radicalidade do mart\u00edrio\u201d.<\/p>\n<p>Na linha do pensamento papal, o vig\u00e1rio-geral da Diocese de Aveiro afirmou que nos primeiros tempos republicanos \u201csucederam-se conflitos profundos, per\u00edodos persecut\u00f3rios, desterros injustos, agress\u00f5es arbitr\u00e1rias e at\u00e9 assass\u00ednios criminosos de que os membros do clero foram v\u00edtimas\u201d, no entanto, n\u00e3o tal n\u00e3o foi um exclusivo do novo regime, ao contr\u00e1rio do que por vezes se pensa. \u201cA Rep\u00fablica n\u00e3o pode ser acusada de ter iniciado os ataques \u00e0 Igreja, porque tais conflitos j\u00e1 vinham sendo travados por diversos sectores nas \u00faltimas dezenas de anos da Monarquia Liberal; tinham acontecido expuls\u00f5es de religiosas mesmo benem\u00e9ritas, cenas de anticlericalismo feroz, ataques violentos, Governos e mesmo monarcas a retirarem \u00e0 Igreja a sua influ\u00eancia na sociedade civil, etc. N\u00e3o era f\u00e1cil a sobreviv\u00eancia da Igreja num sistema assumidamente regalista\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Contudo, a Rep\u00fablica nasceu visceralmente contra as institui\u00e7\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica porque estas \u201ceram acusadas de serem o sustent\u00e1culo do Regime e o maior entrave ao progresso e \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social do pa\u00eds. Fora escolhida propositadamente a Companhia de Jesus como um dos alvos preferidos; inventaram-se boatos terr\u00edveis e mentiras hediondas que inundaram cidades e aldeias\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Leis anticat\u00f3licas em catadupa<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o 5 de Outubro de 1910, \u201csucederam-se em catadupa os decretos e as leis\u201d anti-igreja cat\u00f3lica. Afirmou o historiador: \u201cEm 08 de Outubro, rep\u00f4s-se em vigor a lei pombalina de 1759, que deu por \u00abdesnaturalizados, proscritos e exterminados\u00bb os jesu\u00edtas, expulsando-os de Portugal e dos seus dom\u00ednios para neles n\u00e3o mais poderem entrar, e tamb\u00e9m reassumiu-se o diploma de Joaquim Ant\u00f3nio de Aguiar que extinguiu todos os mosteiros, conventos, col\u00e9gios, hosp\u00edcios e resid\u00eancias de todas as ordens e congrega\u00e7\u00f5es religiosas, integrando-se os seus bens no patrim\u00f3nio do Estado, dissolvendo as suas comunidades e obrigando os seus membros a viverem como seculares; a revista \u2018A Illustra\u00e7\u00e3o Portugueza\u2019 publicou uma reportagem fotogr\u00e1fica sobre a pris\u00e3o de jesu\u00edtas, onde se mostrou como estes eram tratados por criminosos com humilha\u00e7\u00e3o desumana, sendo-lhes mesmo medido o cr\u00e2nio para serem facilmente reconhecidos se, no futuro, tivessem a veleidade audaciosa de pretenderem regressar a Portugal. Em 18 de Outubro, aboliu-se o juramento com car\u00e1cter religioso. Em 22 de Outubro, suprimiu-se o ensino religioso tanto nas escolas normais prim\u00e1rias de forma\u00e7\u00e3o de professores, como nas outras escolas. Em 23 de Outubro, extinguiu-se a Faculdade de Teologia na Universidade de Coimbra. Em 26 de Outubro, mandou-se que todos os dias fossem de trabalho, mesmo os santificados pela Igreja, exceptuando os domingos para descanso e dois feriados religiosos \u2013 Natal e Ano Novo. Em 03 de Novembro, publicou-se a lei do div\u00f3rcio, atacando a fam\u00edlia nos seus fundamentos. Em 28 de Novembro, mandou-se que as for\u00e7as do Ex\u00e9rcito e da Armada n\u00e3o tivessem interven\u00e7\u00e3o directa ou indirecta nas solenidades religiosas. Em 25 de Dezembro, formularam-se as chamadas leis da fam\u00edlia, em que o matrim\u00f3nio passou a ser considerado como um contrato \u00abpuramente civil\u00bb. Em 31 de Dezembro, proibiu-se o ensino religioso em todas as escolas e o uso do h\u00e1bito ou veste talar em p\u00fablico, sob pena de pris\u00e3o \u00abpor toda a pessoa do povo\u00bb. (\u2026) E em 18 de Fevereiro de 1911, decretou-se o C\u00f3digo do Registo Civil, onde foi tornado obrigat\u00f3rio o registo civil dos nascimentos, casamentos e \u00f3bitos e onde tamb\u00e9m se puseram entraves \u00e0 ac\u00e7\u00e3o espiritual dos sacerdotes\u201d.<\/p>\n<p>A culminar estes excessos legislativos, surgiu em 20 de Abril de 1911 a \u201cLei de Separa\u00e7\u00e3o da Igreja do Estado\u201d, que, nas palavras de Mons. Jo\u00e3o Gaspar, foi a \u201cexpress\u00e3o m\u00e1xima dos ataques \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica e \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es, cujo conte\u00fado controverso excedeu em muito o que o seu nome indica\u201d. Esperava Afonso Costa, com estas leis, que as religi\u00f5es ficassem \u201ccondenadas ao desaparecimento\u201d e o catolicismo acabasse em \u201cduas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 resposta eclesial que se seguiu, e que renovou a igreja portuguesa, n\u00e3o foi alheio movimento de renova\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica que havia arrancado com o I Conc\u00edlio do Vaticano e com a enc\u00edclica social \u201cRerum Novarum\u201d, de Le\u00e3o XIII. Da\u00ed que Mons. Jo\u00e3o Gaspar afirmasse na confer\u00eancia cuja publica\u00e7\u00e3o agora \u00e9 esperada: \u201cA esta dist\u00e2ncia, j\u00e1 com certa perspectiva hist\u00f3rica, vemos que, nesse \u00e1rduo per\u00edodo de 1910-1920, se foram abrindo novos caminhos ao Catolicismo na nossa p\u00e1tria, preparando-se uma Igreja livre das prepot\u00eancias do Estado, em que o clero deixou de ser uma das categorias de funcion\u00e1rios p\u00fablicos \u00e0s ordens do Governo; se \u00e9 certo que a revolu\u00e7\u00e3o de Outubro trouxe horas amargas e injustas, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos exacto que ela ficou a marcar um ponto de partida na liberta\u00e7\u00e3o de uma opress\u00e3o liberal e regalista. Os meios \u00e9 que poderiam ter sido outros, numa linha de respeito e de di\u00e1logo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA revolu\u00e7\u00e3o de Outubro trouxe horas amargas e injustas, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos exacto que ela ficou a marcar um ponto de partida na liberta\u00e7\u00e3o de uma opress\u00e3o liberal e regalista\u201d, afirmou Mons. 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