{"id":3312,"date":"2010-12-15T10:10:00","date_gmt":"2010-12-15T10:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3312"},"modified":"2010-12-15T10:10:00","modified_gmt":"2010-12-15T10:10:00","slug":"corresponsaveis-na-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/corresponsaveis-na-esperanca\/","title":{"rendered":"Correspons\u00e1veis na Esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem dos Bispo de Portugal em tempo de Natal <!--more--> Ocorre este Natal em circunst\u00e2ncias dram\u00e1ticas para muitas pessoas e fam\u00edlias de Portugal, raz\u00e3o por que enviamos colectivamente esta mensagem natal\u00edcia aos crist\u00e3os e a todos os que se queiram deixar interpelar pela nossa voz. O Natal de Jesus Cristo, Deus feito homem, tem de celebrar-se em comunh\u00e3o, afectiva e efectiva, com a vida dos homens e mulheres do nosso tempo.<\/p>\n<p>A crise actual veio tornar ainda mais vis\u00edveis dramas sociais j\u00e1 antigos e provocar outros que pareciam de todo improv\u00e1veis. A crise n\u00e3o s\u00f3 tornou mais patentes as grandes car\u00eancias das pessoas e fam\u00edlias pobres e exclu\u00eddas, como aumentou, gravemente, o n\u00famero das que, por via do desemprego, perderam os seus n\u00edveis de rendimento e o seu estatuto social, caindo em situa\u00e7\u00f5es que, outrora, n\u00e3o se imaginavam poss\u00edveis. Por esse ou outros motivos, cresceu, a um n\u00edvel preocupante, o n\u00famero dos \u00abnovos pobres\u00bb for\u00e7ados \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o de assim se exporem, uma situa\u00e7\u00e3o que muitos t\u00eam dificuldade quase inultrapass\u00e1vel de superar.<\/p>\n<p>1. Problemas e causas<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendemos elencar aqui os diferentes problemas que afectam as popula\u00e7\u00f5es do nosso pa\u00eds. Mas n\u00e3o podemos dispensar-nos de reflectir sobre as suas causas, sem preju\u00edzo do atendimento di\u00e1rio de cada pessoa e fam\u00edlia em situa\u00e7\u00e3o de car\u00eancia, reconhecendo que, na base das causas financeiras e econ\u00f3micas da crise, figura o menosprezo de valores e de princ\u00edpios \u00e9ticos fundamentais (cf. Bento XVI, \u00abCaritas in Veritate\u00bb, nn. 21, 53, 45 e 65).<\/p>\n<p>Entre as causas mais vis\u00edveis, real\u00e7amos os poderosos interesses incontrol\u00e1veis, nacionais e transnacionais, a falta de coragem e verdade governativas, os exagerados interesses individuais, a desregula\u00e7\u00e3o dos mercados, a circula\u00e7\u00e3o descontrolada de capitais, a competitividade desumana e sem limites, a cultura e a pr\u00e1tica das desigualdades sociais, a insufici\u00eancia do di\u00e1logo e da concerta\u00e7\u00e3o, a promo\u00e7\u00e3o do consumismo, a rejei\u00e7\u00e3o da sobriedade e da poupan\u00e7a. Se, por um lado, parece at\u00e9 que se pretende superar a crise sem intervir nas suas causas, por outro, muitas for\u00e7as que pretendem essa interven\u00e7\u00e3o quase se limitam \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da ordem vigente, sem formularem propostas consistentes e sem experimentarem, no concreto, as suas op\u00e7\u00f5es, tornando a governa\u00e7\u00e3o do mundo e do pa\u00eds muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>2. Constru\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a<\/p>\n<p>No caminho inverso, o da constru\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a, n\u00e3o podemos ignorar alguns avan\u00e7os conseguidos ao longo dos s\u00e9culos e, especialmente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, destacamos, entre eles, a democracia, a generaliza\u00e7\u00e3o do acesso ao ensino, a legisla\u00e7\u00e3o acerca da escolha livre da fam\u00edlia no que toca \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a preocupa\u00e7\u00e3o pela seguran\u00e7a interna, a coopera\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da Uni\u00e3o Europeia e na esfera internacional.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente como v\u00e1rios sectores da sociedade t\u00eam contribu\u00eddo, em maior ou menor grau, para os avan\u00e7os conseguidos. Na perspectiva crist\u00e3, \u00e9 leg\u00edtimo afirmar que estamos diante de sinais da presen\u00e7a de Deus no mundo, com uma tr\u00edplice interpela\u00e7\u00e3o: o reconhecimento do bem que existe; o dizer n\u00e3o ao desperd\u00edcio de t\u00e3o valioso patrim\u00f3nio; e a supera\u00e7\u00e3o dos males que persistem. Apontamos alguns obst\u00e1culos \u00e0 esperan\u00e7a mais graves e vis\u00edveis: injusti\u00e7as e desigualdades gritantes, desemprego e frustra\u00e7\u00f5es pessoais e colectivas, pobreza e exclus\u00e3o social que \u00abbradam aos c\u00e9us\u00bb, manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia dom\u00e9stica e colectiva, propens\u00e3o difusa para o derrotismo, cultura do individualismo, falta de aplica\u00e7\u00e3o \u00e9tica no dom\u00ednio p\u00fablico.<\/p>\n<p>Todos nos rebelamos contra estas realidades e somos convidados a assumir a nossa corresponsabilidade na fam\u00edlia, no trabalho, na vida associativa, na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, na promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento, na valoriza\u00e7\u00e3o da escolaridade e da imprescind\u00edvel liberdade de ensino, no lan\u00e7amento de iniciativas econ\u00f3micas, ou outras, na cria\u00e7\u00e3o de emprego, na forma\u00e7\u00e3o humana e profissional, na ac\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria a favor das pessoas mais pobres e exclu\u00eddas.<\/p>\n<p>3. Corresponsabilidade universal<\/p>\n<p>Corresponsabilidade na esperan\u00e7a \u00e9 o desafio que nos interpela em cada dia. Sem deixar de apontar a singular responsabilidade dos governantes e dos que possuem cargos p\u00fablicos, todos somos correspons\u00e1veis, em maior ou menor grau, pelas causas da crise e pela sua supera\u00e7\u00e3o. Na corresponsabilidade assumida constr\u00f3i-se a esperan\u00e7a e abrem-se caminhos mais gratificantes \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras. Mesmo que, pela nossa situa\u00e7\u00e3o ou momento hist\u00f3rico em que vivemos n\u00e3o houvesse motivo para esperar, somos instantemente convidados \u00e0 esperan\u00e7a (cf. Bento XVI, \u00abSpe Salvi\u00bb, n. 35).<\/p>\n<p>Todos os cidad\u00e3os e suas institui\u00e7\u00f5es, empresas e outras organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o sujeitos activos e destinat\u00e1rios da corresponsabilidade; e esta configura-se mais justa se tiver a pessoa humana no centro das suas motiva\u00e7\u00f5es. Para que assim aconte\u00e7a efectivamente, deveria promover-se, a partir do n\u00edvel local: o conhecimento de todas as situa\u00e7\u00f5es de car\u00eancia, a procura das respectivas solu\u00e7\u00f5es, mesmo provis\u00f3rias enquanto n\u00e3o forem vi\u00e1veis as mais definitivas, e a integra\u00e7\u00e3o deste esfor\u00e7o numa estrat\u00e9gia nacional de desenvolvimento humano justo e solid\u00e1rio. Tal estrat\u00e9gia ser\u00e1 tanto mais s\u00f3lida quanto melhor conciliar a ac\u00e7\u00e3o que parte da base com a que parte da c\u00fapula.<\/p>\n<p>A gravidade extrema da crise actual e a nossa corresponsabilidade perante ela tornam imperioso o empenhamento s\u00e9rio de todos, nomeadamente pelo di\u00e1logo social, pela negocia\u00e7\u00e3o colectiva e pela concerta\u00e7\u00e3o. Estamos convictos de que ser\u00e1 atrav\u00e9s do di\u00e1logo, da negocia\u00e7\u00e3o e da concerta\u00e7\u00e3o que os diferentes interesses e pontos de vista proceder\u00e3o ao esclarecimento e \u00e0 procura de solu\u00e7\u00f5es comuns. Quanto mais se avan\u00e7ar nesta procura de entendimentos e se preservar o respeito rec\u00edproco, mais se viabilizam a supera\u00e7\u00e3o da crise e o desenvolvimento integral.<\/p>\n<p>4. Compromisso solid\u00e1rio da Igreja<\/p>\n<p>Convidamos os cat\u00f3licos e as comunidades eclesiais a um forte empenho nalgumas linhas de ac\u00e7\u00e3o: a cria\u00e7\u00e3o e o funcionamento dos grupos paroquiais de ac\u00e7\u00e3o social, em colabora\u00e7\u00e3o com a C\u00e1ritas, as Confer\u00eancias de S. Vicente de Paulo e outras institui\u00e7\u00f5es; o tratamento e difus\u00e3o de estat\u00edsticas como fonte de conhecimento, de consci\u00eancia social e de interven\u00e7\u00e3o junto de entidades p\u00fablicas e privadas; a promo\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo social entre trabalhadores e empres\u00e1rios, e entre diferentes quadrantes pol\u00edticos, procurando os consensos poss\u00edveis e testemunhando uma ac\u00e7\u00e3o comum indispens\u00e1vel na sociedade, na economia, na cultura e na pol\u00edtica; o aproveitamento do Fundo Social Solid\u00e1rio, de car\u00e1cter emergente, recentemente aprovado pela Confer\u00eancia Episcopal, que poder\u00e1 funcionar como p\u00f3lo dinamizador da ac\u00e7\u00e3o conjunta a desenvolver.<\/p>\n<p>A gravidade da situa\u00e7\u00e3o actual, em determinados casos, n\u00e3o permite adiamentos. Torna-se urgente redescobrir o verdadeiro e concreto significado da caridade crist\u00e3 numa variedade de propostas e interven\u00e7\u00f5es imediatas de proximidade. S\u00f3 suscitando e promovendo um novo \u00abestilo de vida\u00bb n\u00e3o dominado pela press\u00e3o consumista mas orientado pela sobriedade, ser\u00e1 poss\u00edvel partilhar, em termos institucionais e pessoais, respondendo a situa\u00e7\u00f5es grav\u00edssimas de pobreza envergonhada. Reconhecemos que, seguindo o estilo do Bom Samaritano, a caridade chega onde os mecanismos institucionais n\u00e3o penetram.<\/p>\n<p>Todas as crises s\u00e3o desafio a ultrapassar os nossos comodismos em favor dos mais carenciados. Nesse sentido, a celebra\u00e7\u00e3o do Ano Europeu do Voluntariado em 2011 \u00e9 uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para estreitar la\u00e7os com os mais necessitados, em gestos e atitudes de servi\u00e7o gratuito.<\/p>\n<p>5. Esperan\u00e7a na verdade<\/p>\n<p>Apesar de tudo, e por vezes contra tudo, a esperan\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel, desde que queiramos constru\u00ed-la seriamente, porque, tal como Bento XVI afirmou relativamente \u00e0 caridade, tamb\u00e9m a esperan\u00e7a s\u00f3 pode ser constru\u00edda na verdade: na aceita\u00e7\u00e3o das responsabilidades individuais e colectivas que est\u00e3o na origem da crise, na coer\u00eancia dos comportamentos pol\u00edticos, sociais e econ\u00f3micos indispens\u00e1veis \u00e0 sua supera\u00e7\u00e3o e na afirma\u00e7\u00e3o da solidariedade, cuja bandeira tantas vezes se desfralda em v\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a esperan\u00e7a, assim fundamentada, que \u00e9 preciso construir, manter e divulgar. O tempo de Natal convida a este an\u00fancio da corresponsabilidade de todos e cada um para uma nova consci\u00eancia do bem comum como for\u00e7a e coragem para a promo\u00e7\u00e3o da dignidade humana de todos os Portugueses. Que os pobres experimentem a ternura da Igreja em Portugal, atrav\u00e9s de gestos concretos de partilha e solidariedade. A aceita\u00e7\u00e3o positiva das priva\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental para ultrapassarmos a presente crise com esperan\u00e7a, contribuindo para o bem de toda a comunidade.<\/p>\n<p>Celebrar o Natal \u00e9 reviver a confian\u00e7a que Deus p\u00f5e na pessoa humana, em solidariedade total, sem fronteiras entre o c\u00e9u e a terra. \u00abCristo \u00e9 a nossa esperan\u00e7a\u00bb (1 Tm 1,1). Festejar o Natal de Cristo \u00e9 fortalecer e dar futuro \u00e0 esperan\u00e7a na sociedade, nas fam\u00edlias, nos locais de trabalho, no cora\u00e7\u00e3o de cada homem e mulher.<\/p>\n<p>Porto, 7 de Dezembro de 2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem dos Bispo de Portugal em tempo de Natal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3312","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3312"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3312\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}