{"id":3334,"date":"2010-12-09T09:54:00","date_gmt":"2010-12-09T09:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3334"},"modified":"2010-12-09T09:54:00","modified_gmt":"2010-12-09T09:54:00","slug":"jesus-responde-as-perguntas-fundamentais-mas-nem-sempre-gostamos-das-respostas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/jesus-responde-as-perguntas-fundamentais-mas-nem-sempre-gostamos-das-respostas\/","title":{"rendered":"Jesus responde \u00e0s perguntas fundamentais, mas nem sempre gostamos das respostas"},"content":{"rendered":"<p>Padre da Sociedade Mission\u00e1ria da Boa-Nova e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, Anselmo Borges esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, na noite de 1 de Dezembro, a convite do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA), para falar da \u201cactualidade que tem hoje Jesus Cristo\u201d. Nesta p\u00e1gina resumem-se as principais ideias transmitidas pelo padre que tamb\u00e9m \u00e9 conhecido por n\u00e3o temer pol\u00e9micas quando se trata de exprimir o seu pensamento sobre a realidade da Igreja e da sociedade. Resumo de Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Jesus Cristo<\/p>\n<p>Sou incapaz de me conceber sem Jesus Cristo. Faz parte da minha identidade narrativa, da minha hist\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>Pessoa e direitos<\/p>\n<p>Enquanto na Antiguidade Grega a raz\u00e3o estava dentro do mundo, transcorria pelo mundo, para o cristianismo, a Raz\u00e3o, o Logos, encarnou. A Raz\u00e3o \u00e9 pessoa. Isto levou ao reconhecimento da dignidade da pessoa humana e de todas as pessoas. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os Direitos Humanos nascem no Ocidente.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es<\/p>\n<p>Jesus Cristo s\u00f3 pode ser actual se responder \u00e0s perguntas fundamentais: Eu sou quem? O qu\u00ea? Quem nos d\u00e1 a experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o, pois estamos cindidos? Sozinho, \u00e9 insuport\u00e1vel; com os outros, \u00e9 o que se sabe. Quem infunde esperan\u00e7a no futuro? Afinal, caminhamos para onde?<\/p>\n<p>\u201cDesangelho\u201d<\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente, fez-se do Evangelho um \u201cdesangelho\u201d, como Nietzsche dizia. O que foi feito da Boa Nova, que t\u00e3o pouca gente quer? A Boa Nova \u00e9 felicitante. Mas por vezes foi votada contra a vida.<\/p>\n<p>Crit\u00e9rio supremo<\/p>\n<p>Segundo o Evangelho, o ser humano deve ocupar o centro de toda a actividade humana, incluindo a pol\u00edtica e economia. \u201cN\u00e3o \u00e9 o homem para o s\u00e1bado, mas o s\u00e1bado para o homem\u201d, dizia Jesus. Este \u00e9 o crit\u00e9rio de todas as leis, humanas e divinas. Veja-se o cap\u00edtulo 25 de Mateus, em que o primeiro aspecto da avalia\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 \u201cdar de comer\u201d. Quando se trata de saber qual a verdade da hist\u00f3ria (o \u201cju\u00edzo final\u201d), as perguntas de Deus n\u00e3o s\u00e3o de ordem religiosa, mas sobre coisas do mundo. O crit\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a humanitariedade, que v\u00ea o ser humano para l\u00e1 da cor, classe, ra\u00e7a, sexo, culto\u2026<\/p>\n<p>Jesus e as finan\u00e7as<\/p>\n<p>O que diria hoje Jesus \u00e0 economia e finan\u00e7as? Exigiria uma nova ordem econ\u00f3mica e mundial com base na justi\u00e7a, contra o neoliberalismo que aumenta a desigualdade e a exclus\u00e3o. Jesus n\u00e3o \u00e9 contra o dinheiro e o capital, mas \u00e9 contra que se fa\u00e7a disso o absoluto de alguns contra o interesse geral das pessoas. N\u00e3o podemos aceitar as leis do mercado como uma nova Provid\u00eancia divina. Temos de congregar a liberdade e a justi\u00e7a. Falta encontrar um regime que o fa\u00e7a com acerto.<\/p>\n<p>\u2026e a pol\u00edtica<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, al\u00e9m de ter deixado o princ\u00edpio decisivo de dar a Deus o que \u00e9 de Deus e a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar, Jesus n\u00e3o excluiu os estrangeiros. Curou o servo do centuri\u00e3o romano e mulher siro-fen\u00edcia. Exortou a que o judeu fizesse uma segunda milha depois daquela que, por lei, era obrigado a fazer carregando os bens de um romano. Isto \u00e9 paradoxal. Talvez o romano viesse a conversar com o judeu. Talvez acabassem por beber os dois um copo desanuviante. A solu\u00e7\u00e3o dos conflitos \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2026e as mulheres<\/p>\n<p>Em todas as religi\u00f5es as mulheres s\u00e3o secundarizadas. Com Jesus foi diferente. Estavam mulheres na \u00daltima Ceia, mas habituaram-nos a pensar que n\u00e3o estavam. Jesus acabou com a quest\u00e3o da impureza ritual da mulher menstruada. Maria Madalena foi o \u201cap\u00f3stolo dos ap\u00f3stolos\u201d, na express\u00e3o de Santo Agostinho. Foi a primeira a saber da ressurrei\u00e7\u00e3o. No epis\u00f3dio de Marta e Maria, a mensagem \u00e9: \u201cMarta, tu tamb\u00e9m podes ser disc\u00edpulo\u201d. A mulher n\u00e3o \u00e9 para estar na cozinha. Qualquer discrimina\u00e7\u00e3o da mulher na sociedade e na Igreja est\u00e1 em desacordo com o evangelho.<\/p>\n<p>\u2026e a sexualidade<\/p>\n<p>O Evangelho ignora as quest\u00f5es da sexualidade e deixa as pessoas na sua liberdade. Jesus n\u00e3o esperaria tanto tempo para dizer que nas devidas circunst\u00e2ncias o preservativo n\u00e3o pode mas deve ser usado. Quem n\u00e3o \u00e9 fiel pode e deve ao menos preservar a vida. Porqu\u00ea tanta adversidade aos anticonceptivos ditos artificiais? Se fosse confrontado com estas quest\u00f5es, Jesus diria: \u201cV\u00f3s sois livres, respons\u00e1veis. Tomai conta da vossa vida. Procurai o entendimento m\u00fatuo atrav\u00e9s da express\u00e3o f\u00edsica do amor\u201d. Jesus de certeza que n\u00e3o negaria a comunh\u00e3o aos recasados. N\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel pedir que tenham toda a vida religiosa normal e negar-lhes a comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>O celibato e a n\u00e3o ordena\u00e7\u00e3o de mulheres n\u00e3o t\u00eam fundamento evang\u00e9lico. N\u00e3o se pode impor por lei aquilo que Jesus deixou \u00e0 liberdade. Outra coisa \u00e9 a entrega, dentro e fora da Igreja, a uma causa cultural, social, de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u00e0 m\u00fasica\u2026 Implica a liberdade. \u201cQuem tiver ouvidos, ou\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u2026e a natureza<\/p>\n<p>Jesus tinha uma boa rela\u00e7\u00e3o com a natureza, patente nas par\u00e1bolas e observa\u00e7\u00f5es (como a da beleza dos l\u00edrios do campo), onde podemos fundamentar um modo de estar mais ecol\u00f3gico. Temos de abandonar a febre do consumo, de esgotar tudo at\u00e9 ao limite.<\/p>\n<p>Morte anunciada<\/p>\n<p>N\u00e3o gostaram da nova imagem de ser humano preconizada por Jesus, porque p\u00f4s muitos interesses em quest\u00e3o, e isso gerou um conflito mortal. O Deus dos \u00faltimos entrou em conflito com o Deus do sistema do templo. A mensagem de Jesus abalou a raiz do sistema poderoso ao servi\u00e7o do templo e do imp\u00e9rio. A consequ\u00eancia foi a morte.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o da morte vic\u00e1ria de Jesus, segundo a qual Deus precisava da morte do Filho para que a sua ira fosse aplacada, \u00e9 b\u00e1rbara. Afirma\u00e7\u00f5es destas s\u00f3 fazem ateus. Deus \u00e9 amor. Deus n\u00e3o precisa de sacrif\u00edcios. O sacrif\u00edcio s\u00f3 faz sentido do ponto de vista humano: para aprofundar a vida, porque nada de grandioso e valioso se faz sem sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Mais profecia, menos culto<\/p>\n<p>Precisamos de uma Igreja mais perto de Deus e menos da institui\u00e7\u00e3o, com menos pompa e mais simplicidade e participa\u00e7\u00e3o, com mais profecia e menos culto. H\u00e1 dois problemas que a Igreja tem de resolver mais rapidamente do que \u201catrasadamente\u201d: a democracia no interior da Igreja e a quest\u00e3o das mulheres. <\/p>\n<p>No Vaticano, hoje, n\u00e3o deixariam Jesus entrar. Como foi poss\u00edvel que a mensagem de Jesus tivesse desembocado num Papa chefe de Estado? Numa c\u00faria imperial? Agora, j\u00e1 que existe, que isso seja aproveitado para o bem da humanidade, nomeadamente atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o do Vaticano em inst\u00e2ncias internacionais.<\/p>\n<p>A miseric\u00f3rdia vale mais <\/p>\n<p>do que o sacrif\u00edcio<\/p>\n<p>Pela B\u00edblia perpassam duas linhas, uma sacerdotal, ligada ao desenvolvimento do culto e aos sacrif\u00edcios, que \u00e9 a religi\u00e3o que condena Jesus \u00e0 morte, e outra prof\u00e9tica. Jesus aparece na linha prof\u00e9tica, dizendo: \u201cIde e aprendei: \u00abEu n\u00e3o quero sacrif\u00edcios, mas miseric\u00f3rdia\u00bb\u201d. A segunda frase \u00e9 posta como afirma\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>Liberdade na institui\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Fa\u00e7o parte da institui\u00e7\u00e3o. Mas a \u00fanica maneira de se estar em qualquer institui\u00e7\u00e3o \u00e9 de forma livre, cr\u00edtica, respons\u00e1vel e leal. Onde est\u00e1 o esp\u00edrito de Cristo est\u00e1 o esp\u00edrito de liberdade. Dissentir? Sim, mas com considera\u00e7\u00e3o e respeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre da Sociedade Mission\u00e1ria da Boa-Nova e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, Anselmo Borges esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, na noite de 1 de Dezembro, a convite do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro (ISCRA), para falar da \u201cactualidade que tem hoje Jesus Cristo\u201d. Nesta p\u00e1gina resumem-se as principais ideias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3334","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3334","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3334"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3334\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}