{"id":3368,"date":"2010-12-09T10:08:00","date_gmt":"2010-12-09T10:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3368"},"modified":"2010-12-09T10:08:00","modified_gmt":"2010-12-09T10:08:00","slug":"um-safari-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-safari-no-deserto\/","title":{"rendered":"Um safari no deserto"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu <!--more--> \u00abTerras \u00e1ridas\u00bb, como diz Isa\u00edas, nada prop\u00edcias ao florescimento da vida. Contudo h\u00e1 quem nelas invista pelas riquezas do subsolo e at\u00e9 criando novos o\u00e1sis. A riqueza do deserto est\u00e1 escondida (tamb\u00e9m devido muito \u00e0 nossa ignor\u00e2ncia) mas tem sido de extrema import\u00e2ncia, sobretudo a sua riqueza a n\u00edvel espiritual.<\/p>\n<p>Nos textos do AT, o principal sentido \u00e9 o geogr\u00e1fico. Mas a sua import\u00e2ncia \u00e9 a de ser o lugar da divindade \u2013 quer do \u00abDeus \u00fanico\u00bb quer dos Dem\u00f3nios (o deserto de plan\u00edcie mon\u00f3tona com pedras agudas evoca os maus esp\u00edritos, como se fosse um lugar de castigo e denotador do seu g\u00e9nio de destrui\u00e7\u00e3o). Onde somos tentados a afastarmo-nos de Deus e onde tamb\u00e9m Deus se revela especialmente (Jesus teve \u00abas tenta\u00e7\u00f5es do deserto\u00bb).<\/p>\n<p>\u00abDeserto\u00bb, ali\u00e1s, etimologicamente, significa \u00abfora da s\u00e9rie\u00bb: prov\u00e9m do latim de (nega\u00e7\u00e3o) + sero (tecer, juntar\u2026 donde a palavra \u00abs\u00e9rie\u00bb). O \u00abdesertor\u00bb \u00e9 aquele que abandona o tecido social\u00bb a que pertencia. O que est\u00e1 em sintonia com o sentido de liberta\u00e7\u00e3o\u2026 e solid\u00e3o (ao contr\u00e1rio do que acontece com quem se sabe \u00abin-serir\u00bb). No deserto, ficamos abandonados. \u00c9 preciso coragem para a\u00ed exercitar a sua liberdade. <\/p>\n<p>(Note-se que os templos tanto servem para actos sociais de culto como para criar um ambiente positivo de \u00abdeserto\u00bb. Infelizmente, como os desertos famosos, cada vez mais s\u00e3o apenas atrac\u00e7\u00e3o para turistas ou, quando muito s\u00e3o ref\u00fagio de ocasi\u00e3o para quem precisa de se encontrar com Deus, longe do palco habitual da nossa vida).<\/p>\n<p>\u00c9 um lugar onde se est\u00e1 s\u00f3, totalmente aberto \u00e0s for\u00e7as espirituais: a qual delas iremos dar o nosso assentimento? \u00abQue vamos ver ao deserto?\u00bb <\/p>\n<p>Quando Jesus fez esta pergunta aos disc\u00edpulos de Jo\u00e3o Baptista, eles poderiam ter respondido: fomos ver as terras \u00e1ridas cobrirem-se de flores e exultarem com brados de alegria; fomos ver o descampado a cobrir-se de vida, onde os surdos entendem a voz do vento e os mudos  proclamam as novas maravilhas de que os cegos j\u00e1 podem ser testemunhas; fomos ver, ouvir e sentir um profeta extraordin\u00e1rio que dizia de si nada valer, porque apenas \u00e9 pregoeiro  da chegada eminente da Vida que vence a desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> S\u00f3 que Jo\u00e3o julgava que essa Vida apareceria como num trono glorioso de reis e como justiceira de toda a humanidade. \u00abSer\u00e1s mesmo tu, Aquele que h\u00e1-de vir?\u00bb<\/p>\n<p>Nem S. Jo\u00e3o Baptista, na intimidade com Deus no deserto, podia ver claramente a estranha novidade. T\u00e3o estranha, que o pr\u00f3prio Jesus, com as limita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da nossa esp\u00e9cie humana, s\u00f3 lentamente, ao longo da vida, foi interiorizando a sua miss\u00e3o divina, modificando o pr\u00f3prio discurso e maneira de agir (teve que \u00absair da s\u00e9rie\u00bb do seu ambiente religioso, em que Deus era visto mais como juiz severo do que companheiro das nossas aventuras e safaris\u2026).<\/p>\n<p> Talvez se explique deste modo a esquisita afirma\u00e7\u00e3o de que \u00abo menor no reino dos C\u00e9us \u00e9 maior do que Jo\u00e3o Baptista\u00bb: s\u00f3 depois de Jesus, \u00e9 que podemos compreender o novo estilo da rela\u00e7\u00e3o de Deus connosco, sem a impon\u00eancia algo aterradora das antigas manifesta\u00e7\u00f5es divinas \u2013 mas com muito mais responsabilidade pessoal. Jo\u00e3o foi o grande \u00abmensageiro que prepara o caminho\u00bb. <\/p>\n<p>Com a vinda de Jesus, descobriu-se o sentido profundo do maravilhoso poema de Isa\u00edas \u2013 o profeta que mais expressivamente apresenta a dor e a alegria, a luta e a paz da terra inteira. <\/p>\n<p>Jesus, por\u00e9m, advertiu: \u00abBem-aventurado aquele que n\u00e3o encontrar em mim motivo de esc\u00e2ndalo\u00bb. Jesus \u00e9 sinal de contradi\u00e7\u00e3o (Mateus 10, 34), porque nos provoca, exigindo uma escolha. N\u00e3o podemos chamar bem ao que \u00e9 mal, nem vice-versa. N\u00e3o podemos cruzar os bra\u00e7os quando a ajuda est\u00e1 ao nosso alcance. Mas como seres eminentemente sociais, \u00e9 nosso dever saber discutir os diversos pontos de vista e avaliar o fruto das \u00e1rvores. <\/p>\n<p>Mas precisamos de tanta \u00abpaci\u00eancia\u00bb! Que o diga S. Tiago! (2.\u00aa leitura). Paci\u00eancia que espera, perdoa, mas vai sempre corrigindo (e eventualmente punindo), mas interessada mais em alimentar a erva boa do que em destruir sem jeito  a erva m\u00e1. <\/p>\n<p>Afinal, o Evangelho at\u00e9 nos d\u00e1 um bom plano para um safari no deserto\u2026 <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-3368","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3368","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3368"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3368\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3368"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3368"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3368"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}