{"id":337,"date":"2010-01-13T10:59:00","date_gmt":"2010-01-13T10:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=337"},"modified":"2010-01-13T10:59:00","modified_gmt":"2010-01-13T10:59:00","slug":"que-e-que-esta-para-alem-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/que-e-que-esta-para-alem-da-morte\/","title":{"rendered":"&#8220;Que \u00e9 que est\u00e1 para al\u00e9m da morte?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O prof. doutor Ant\u00f3nio Caetano de Abreu Freire Egas Moniz nasceu na vila de Avanca, em 1874. Ao longo da vida, foi m\u00e9dico, cientista, escritor, orador, professor catedr\u00e1tico, pol\u00edtico e estadista de renome mundial. Faleceu em 1955, na cidade de Lisboa; os seus restos mortais foram trasladados para a terra natal. O facto de h\u00e1 dias ele ter sido recordado em Aveiro pelo prof. doutor Lobo Antunes leva-me a reviver aqui um encontro, na sua casa de Avanca, onde se refugiava de quando em vez. Era a\u00ed que generosamente recebia os amigos conterr\u00e2neos \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 &#8211; para gozarem uns momentos de s\u00e3 conviv\u00eancia e para captarem algo do muito que o mestre transmitia.<\/p>\n<p>Aconteceu no ver\u00e3o de 1954. Numa tarde quente de sol, o dr. David Cristo convidou-me para o acompanhar numa visita ao em\u00e9rito laureado. Comoveu-me o honroso convite, que tive oportunidade de aceitar. Pelo caminho, fal\u00e1mos sobre o ilustre avancanense. Logo na primeira impress\u00e3o, ao cumpriment\u00e1-lo, descobri algu\u00e9m dotado de singulares qualidades humanas, enriquecido de tenacidade para a vit\u00f3ria e dispon\u00edvel para fazer bem e perdoar.<\/p>\n<p>Durante a conversa, que decorreu no seu escrit\u00f3rio, o prof. doutor Egas Moniz deixou transparecer muito da sua experi\u00eancia e da sua vida, indo mesmo ao ponto de confidenciar alguns pormenores de consci\u00eancia, num misto de satisfa\u00e7\u00e3o e de inquieta\u00e7\u00e3o. Em certa altura, muito naturalmente desabafou: &#8211; \u00abEfectivamente, eu estudei, sei e descobri muita coisa sobre o c\u00e9rebro humano e a sua actividade; e tanto assim \u00e9 que reconheceram o meu valor com o Pr\u00e9mio Nobel. Por\u00e9m, h\u00e1 um enigma que eu n\u00e3o sou capaz de descortinar: &#8211; Que existe para al\u00e9m da morte? N\u00e3o me posso convencer de que a minha vida venha a findar no p\u00f3 da sepultura. Voc\u00eas, os crist\u00e3os, vivem tranquilos porque t\u00eam a resposta na f\u00e9. Fundamentam-se na palavra de Cristo e na sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Mas eu n\u00e3o sou crente\u2026 e tenho pena de n\u00e3o ter f\u00e9, porque viveria intimamente sossegado.\u00bb<\/p>\n<p>O dr. David Cristo, com um ar de recolhimento, atreveu-se a sugerir: &#8211; \u00abSr. professor, desculpe a minha modesta opini\u00e3o. Julgo que sentir-se pesaroso por n\u00e3o ter f\u00e9 j\u00e1 \u00e9 um princ\u00edpio de f\u00e9\u2026\u00bb O nosso interlocutor baixou os olhos sobre os pap\u00e9is na secret\u00e1ria e, concentrando-se, disse em surdina: &#8211; \u00abTalvez!&#8230; Talvez!&#8230;\u00bb E limpou as l\u00e1grimas que furtivamente lhe corriam pela face.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio, que nos venceu durante largos segundos, n\u00e3o se ouvindo qualquer palavra naquela sala, serviu para uma reflex\u00e3o continuada. Decerto que, na sua consci\u00eancia, o prof. doutor Egas Moniz continuaria a caminhar ou mesmo a olhar para Algu\u00e9m que o sossegasse\u2026 esse Algu\u00e9m cujo amor perenemente O leva a encontrar-se com o homem para lhe comunicar a sua vida. A f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 uma rendi\u00e7\u00e3o perante a evid\u00eancia, mas uma resposta livre a uma chamada, porque Deus jamais se imp\u00f5e, mas prop\u00f5e-se \u00e0 nossa liberdade.<\/p>\n<p>No regresso a Aveiro, o dr. David Cristo e eu apenas troc\u00e1mos algumas palavras, de minutos a minutos, a comentar o nosso feliz encontro com o prof. doutor Egas Moniz.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gaspar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O prof. doutor Ant\u00f3nio Caetano de Abreu Freire Egas Moniz nasceu na vila de Avanca, em 1874. Ao longo da vida, foi m\u00e9dico, cientista, escritor, orador, professor catedr\u00e1tico, pol\u00edtico e estadista de renome mundial. Faleceu em 1955, na cidade de Lisboa; os seus restos mortais foram trasladados para a terra natal. 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