{"id":3509,"date":"2009-09-02T10:23:00","date_gmt":"2009-09-02T10:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3509"},"modified":"2009-09-02T10:23:00","modified_gmt":"2009-09-02T10:23:00","slug":"sem-medo-de-contagio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/sem-medo-de-contagio\/","title":{"rendered":"Sem medo de cont\u00e1gio"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 Luz da Palavra <!--more--> XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM<\/p>\n<p>Leituras: Is 35, 4-7; Sl 145 (146), 7.8-9a.9bc-10; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37<\/p>\n<p>\u201cMeteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a l\u00edngua. Depois, erguendo os olhos ao C\u00e9u, suspirou e disse-lhe: \u00abEfat\u00e1\u00bb, que quer dizer \u00abAbre-te\u00bb\u201d (Mc 7, 33s).<\/p>\n<p>Se n\u00e3o soub\u00e9ssemos que os textos b\u00edblicos da liturgia h\u00e1 muito que foram seleccionados, decerto que pensar\u00edamos que o Evangelho de hoje, com Jesus a tocar na l\u00edngua do surdo, representa uma grande imprud\u00eancia ou uma provoca\u00e7\u00e3o, nestes tempos amea\u00e7ados pela Gripe A. No entanto, se o Evangelho estiver a ser teol\u00f3gica e sanitariamente incorrecto, n\u00e3o ser\u00e1 a primeira vez, porque, como \u00e9 sabido, a Boa Nova subverte conceitos comuns. \u201cOs \u00faltimos ser\u00e3o os primeiros\u201d, \u201cos poderosos ser\u00e3o rebaixados\u201d, os \u201cpac\u00edficos \u00e9 que conquistam o c\u00e9u\u201d, \u201cas pequenas moedas valem mais do que as maiores fortunas\u201d, \u201co que sai do cora\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 que o torna impuro e n\u00e3o aquilo que come\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Para a mentalidade higienista e securit\u00e1ria da nossa \u00e9poca (e ainda bem), diversos gestos de Jesus parecem ser de evitar. Comia sem lavar as m\u00e3os, tocava em doentes com lepra, usava a saliva para curar, por vezes acrescentava lama (Jo 9,11)\u2026 Tais procedimentos t\u00eam quase sempre uma dupla mensagem. Por um lado, contradizem rituais que punham as tradi\u00e7\u00f5es em primeiro lugar, geralmente desprezando o ser humano, t\u00edpicos de alguns grupos do tempo de Jesus; por outro, anunciam a salva\u00e7\u00e3o, que quase sempre come\u00e7a por ser f\u00edsica. Mostram, como nos lembra hoje Isa\u00edas, que \u201cse abrir\u00e3o os olhos dos cegos e se desimpedir\u00e3o os ouvidos dos surdos\u201d.<\/p>\n<p>Os Padres da Igreja (te\u00f3logos dos primeiros s\u00e9culos) viram nestes gestos a origem dos sacramentos. No caso que o Evangelho de hoje nos apresenta, na saliva podemos ver a \u00e1gua do baptismo, e no \u201cefat\u00e1\u201d, a palavra que acompanha o sacramento. Os sacramentos s\u00e3o sempre gesto mais palavra. E, de facto, o baptismo abre-nos a porta da Igreja e da filia\u00e7\u00e3o divina. O baptismo \u00e9 um \u201cefat\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Mas com esta interpreta\u00e7\u00e3o j\u00e1 estamos a espiritualizar o que na origem \u00e9 f\u00edsico e concreto. A B\u00edblia gosta de descrever sem abstrac\u00e7\u00f5es a maneira como sente a salva\u00e7\u00e3o, que passa sempre pela resolu\u00e7\u00e3o dos problemas que afligem no dia-a-dia. Nisso, Isa\u00edas \u00e9 insuper\u00e1vel. Antev\u00ea deste modo a vinda de Deus e da sua justi\u00e7a: \u201cO coxo saltar\u00e1 como um veado e a l\u00edngua do mudo cantar\u00e1 de alegria. As \u00e1guas brotar\u00e3o no deserto e as torrentes na aridez da plan\u00edcie; a terra seca transformar-se-\u00e1 em lago e a terra \u00e1rida em nascentes de \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>Jesus mostra que o tempo da salva\u00e7\u00e3o chegou. E para os crist\u00e3os sobrou esta magn\u00edfica miss\u00e3o: mostrar que esse tempo continua aqui e agora. Para isso \u00e9 preciso levar \u00e1gua \u00e0 aridez, sem medo do sol abrasador; dar voz aos mudos, sem medo de que o nosso sil\u00eancio se perturbe; abrir caminho aos coxos, sem medo que as nossas estradas fiquem congestionadas, enfim, estender as m\u00e3os a quem n\u00e3o tem que lhe d\u00ea um olhar sequer. Sem medo de cont\u00e1gios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 Luz da Palavra<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-3509","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3509","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3509"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3509\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}