{"id":3511,"date":"2009-09-02T11:33:00","date_gmt":"2009-09-02T11:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3511"},"modified":"2009-09-02T11:33:00","modified_gmt":"2009-09-02T11:33:00","slug":"caridade-na-verdade-o-antidoto-contra-o-veneno-que-corroi-o-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/caridade-na-verdade-o-antidoto-contra-o-veneno-que-corroi-o-homem\/","title":{"rendered":"&#8220;Caridade na verdade&#8221;:: o ant\u00eddoto contra o veneno que corr\u00f3i o homem"},"content":{"rendered":"<p>1. Caridade na verdade? &#8211; Quando, em 29 de Junho, foi anunciada ao mundo a terceira enc\u00edclica de Bento XVI, muitos foram os que tomaram como engano o t\u00edtulo anunciado, pois parecia que o Papa se distra\u00edra, citando mal Paulo, na sua carta aos Ef\u00e9sios, onde o Ap\u00f3stolo exorta a que proclamemos a verdade na caridade (Ef 4, 15). Por\u00e9m, este aparente engano n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o o \u00e9 como resulta de uma intencional provoca\u00e7\u00e3o, em tempos marcados pelo \u2018tudo vale\u2019 por \u2018nada valer\u2019, tempos de relativismo, de aus\u00eancia de busca da verdade. Com efeito, estes n\u00e3o s\u00e3o os tempos em que a lei, a intocabilidade da verdade eram as notas definidoras do agir social, colectivo e mesmo individual, onde se exigia o apelo a \u00e0 capacidade de exortar \u00e0 verdade com uma humana e crist\u00e3 capacidade de compreens\u00e3o. Os tempos s\u00e3o outros. A for\u00e7a e irredutibilidade da verdade deu lugar \u00e0 ditadura da opini\u00e3o, \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o da \u00e9tica e da moral, aqui e ali ponteada por ef\u00e9meros o\u00e1sis de apelo \u00e0 \u00e9tica na vida p\u00fablica, que logo caducam porque n\u00e3o correspondem a uma aut\u00eantica exig\u00eancia de respeito pela verdade do homem, da sua dignidade e da raz\u00e3o de ser da sua exist\u00eancia, neste mundo.<\/p>\n<p>Neste quadro, justifica-se que Bento XVI apele \u00e0 viv\u00eancia da caridade (o nome mais genu\u00edno para \u2018amor\u2019) na verdade, pois, \u2018sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo\u2019 (3). Esta afirma\u00e7\u00e3o densa de significado \u00e9 confirmada pelos processos em curso de redu\u00e7\u00e3o da dignidade humana \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u2018n\u00e3o mais do que animal\u2019, de que resulta a defesa de tudo o que atenta contra o respeito intoc\u00e1vel pela sacralidade da vida inocente. Veja-se, a t\u00edtulo de exemplo que \u00e9 em nome de um sentimentalismo (uma suposta compaix\u00e3o) que se avoluma a onda dos que dizem defender a eutan\u00e1sia, como se esta fosse leg\u00edtima e respeitadora do humano. \u00c9 por perda da consci\u00eancia da verdade do humano que tal defesa se considera sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>2. A verdade, em sociedade &#8211; O mesmo Bento XVI afirma, mais adiante, que \u2018sem verdade, sem confian\u00e7a e amor pelo que \u00e9 verdadeiro, n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia e responsabilidade social, e a actividade social acaba \u00e0 merc\u00ea de interesses privados e l\u00f3gicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo, numa sociedade em vias de globaliza\u00e7\u00e3o, que atravessa momentos dif\u00edceis como os actuais.\u2019 (5). A rudeza da crise actual, que n\u00e3o pode ser apenas atribu\u00edda a uma simples crise do mercado, mas a uma s\u00e9ria falta de verdade de que redundou uma crise de confian\u00e7a, \u00e9 confirma\u00e7\u00e3o quase cient\u00edfica desta afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>3. A raiz de todas as crises: A verdade de quem \u00e9 o homem \u2013 Os estudiosos da teologia de Ratzinger (agora Bento XVI) s\u00e3o quase un\u00e2nimes na considera\u00e7\u00e3o de que o combate contra o relativismo (a vis\u00e3o que tudo reduz \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de simples opini\u00f5es, sem qualquer possibilidade de certeza e firmeza) define todo o seu pensamento e agir. E assim \u00e9, com efeito. Bento XVI percebeu que o drama da humanidade, nos nossos tempos, resulta daquilo a que o grande Henri de Lubac chamava o \u2018drama do humanismo ateu\u2019: o homem pretende construir-se a si pr\u00f3prio sem respeitar a verdade de si mesmo. Isto est\u00e1, ali\u00e1s, nos opostos do que a pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o anuncia: antes de nasceres, \u2018Eu sou\u2019. Tal afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 reservada a Deus, pois s\u00f3 Ele \u00e9. O homem, pelo contr\u00e1rio, encontra a raz\u00e3o do seu ser, n\u00e3o em si mesmo, mas na verdade de Deus. Nesse sentido, pode entender-se o que Bento XVI afirma: \u2018Sem verdade, cai-se numa vis\u00e3o empirista e c\u00e9ptica da vida, incapaz de se elevar acima da ac\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o est\u00e1 interessada em identificar os valores \u2013 \u00e0s vezes nem sequer os significados \u2013 pelos quais julg\u00e1-la e orient\u00e1-la\u2019 (9).<\/p>\n<p>Com efeito, este \u00e9 um diagn\u00f3stico que, de t\u00e3o certeiro e profundo, chega a rejeitar-se por parecer \u00f3bvio. Contudo, a genialidade est\u00e1 mesmo a\u00ed: em desvendar aquilo que est\u00e1 \u00e0 vista de todos, mas ningu\u00e9m quer tomar em m\u00e3os. O relativismo, a ditadura da opini\u00e3o, a ditadura de \u2018tudo valer o mesmo\u2019 vem conduzindo, pouco a pouco, \u00e0 ditadura do nada valer. <\/p>\n<p>Em resposta a esta vis\u00e3o da exist\u00eancia humana, o Papa prop\u00f5e, n\u00e3o uma utopia que resultasse do esfor\u00e7o humano, mas a esperan\u00e7a que parte da confian\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o concedida, antecipadamente, em Jesus Cristo, mas da qual cada homem \u00e9 convidado a participar. S\u00f3 \u00e0 luz desta entrega que respeita cada homem e o homem todo, \u00e9 poss\u00edvel pensar-se um verdadeiro desenvolvimento humano, que n\u00e3o \u00e9 fragment\u00e1rio (s\u00f3 toma partes do homem, s\u00f3 o desenvolve em uma ou v\u00e1rias dimens\u00f5es: econ\u00f3micas ou culturais ou cient\u00edficas ou outras\u2026), mas integral. \u2018A verdade do desenvolvimento consiste na sua integralidade: se n\u00e3o \u00e9 desenvolvimento do ser humano todo e de toda a pessoa, n\u00e3o \u00e9 verdadeiro desenvolvimento\u2019 (18).<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma carta escrita a todos os homens que continuam a acreditar que a humanidade ainda \u00e9 poss\u00edvel e que n\u00e3o desistiram de procurar a verdade de quem \u00e9 o ser humano, contra todas as concep\u00e7\u00f5es que pretendem a redu\u00e7\u00e3o do humano ao ef\u00e9mero, \u00e0 caducidade do tempo. N\u00e3o \u00e9 uma carta contra ningu\u00e9m. \u00c9 a favor de algu\u00e9m \u2013 o humano -, mas em oposi\u00e7\u00e3o a vis\u00f5es redutoras da condi\u00e7\u00e3o humana. Uma ode \u00e0 esperan\u00e7a!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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