{"id":3528,"date":"2009-09-16T10:25:00","date_gmt":"2009-09-16T10:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3528"},"modified":"2009-09-16T10:25:00","modified_gmt":"2009-09-16T10:25:00","slug":"pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pessoa\/","title":{"rendered":"Pessoa"},"content":{"rendered":"<p>10 Palavras Fundamentais de Bio\u00e9tica <!--more--> Os conceitos de pessoa e indiv\u00edduo n\u00e3o s\u00e3o coincidentes, apesar de, no uso vulgar, tal coincid\u00eancia parecer ser presumida. Na verdade, podemos referir-nos a um animal como sendo um indiv\u00edduo sem que possamos, com propriedade, design\u00e1-lo como pessoa. Mas de um determinado indiv\u00edduo humano podemos dizer que \u00e9 pessoa. Uma tal impossibilidade faz, intuitivamente, presumir a n\u00e3o coincid\u00eancia dos conceitos. Contudo, a recep\u00e7\u00e3o do conceito de Pessoa, tal qual o formulou Severino Bo\u00e9cio (480-524), fil\u00f3sofo e pol\u00edtico do per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o entre a Patr\u00edstica e a Idade M\u00e9dia, conduziu a uma identifica\u00e7\u00e3o entre os dois termos, com custos, por exemplo, para a pr\u00f3pria teologia, terreno em que o conceito foi forjado e aprimorado. Na verdade, a defini\u00e7\u00e3o proposta por Bo\u00e9cio \u2013 pessoa \u00e9 \u2018subst\u00e2ncia individual de natureza racional\u2019 \u2013 pretendia assegurar, por um lado, a unicidade (individual) e, por outro, a irrepetibilidade (racional). Contudo, o car\u00e1cter de defini\u00e7\u00e3o e delimita\u00e7\u00e3o precisa que aqui se verificava comportou um custo n\u00e3o previs\u00edvel \u2013 a preocupa\u00e7\u00e3o com a precis\u00e3o do conceito redundou num conceito est\u00e1tico, pouco capaz de considerar a pessoa na sua dimens\u00e3o relacional e de abertura a outras categorias que n\u00e3o a simples delimita\u00e7\u00e3o substancial. Vale a pena recordar, neste contexto, que ser\u00e1 a necessidade de integra\u00e7\u00e3o destas dimens\u00f5es, na defini\u00e7\u00e3o de Pessoa, decorrente das discuss\u00f5es teol\u00f3gicas sobre o Mist\u00e9rio trinit\u00e1rio de Deus e a possibilidade da encarna\u00e7\u00e3o divina que conduzir\u00e1 a esta precis\u00e3o. Na verdade, uma defini\u00e7\u00e3o individualizante de pessoa, no contexto teol\u00f3gico, poderia redundar na configura\u00e7\u00e3o do Cristianismo como uma religi\u00e3o trite\u00edsta, se se admitisse que as tr\u00eas pessoas trinit\u00e1rias eram indiv\u00edduos isolados na sua unicidade incomunic\u00e1vel. Contudo, outro perigo espreitava se n\u00e3o se assegurasse a singularidade da condi\u00e7\u00e3o pessoal: a afirma\u00e7\u00e3o de que pessoa era apenas um outro nome para modo de ser, como se n\u00e3o houvesse identidade, o \u2018em si mesmo\u2019. Cair-se-ia numa esp\u00e9cie de pante\u00edsmo, incapaz de salvaguardar a identidade, a liberdade, a singularidade. <\/p>\n<p>\u00c0 luz destas delimita\u00e7\u00f5es com que se deparou a reflex\u00e3o teol\u00f3gica, importa, ent\u00e3o, considerar que, ao falar-se de pessoa, nos referimos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de irredutibilidade do ente, mas simultaneamente, afirmamos que a sua irredutibilidade s\u00f3 \u00e9 salvaguardada na medida em que se realiza na rela\u00e7\u00e3o com os demais. A condi\u00e7\u00e3o pessoal \u00e9 a de quem est\u00e1 em condi\u00e7\u00e3o de abertura. Abertura a todas as dimens\u00f5es que se lhe afiguram: abertura ao mundo, aos outros, ao tempo (ontem, hoje e amanh\u00e3). \u00c0 luz desta defini\u00e7\u00e3o, e aplicando-a \u00e0 natureza humana, compreendemos que definir o homem como pessoa \u00e9 consider\u00e1-lo sempre inacabado, em condi\u00e7\u00e3o de incompletude. Como referem o fil\u00f3sofo Joseph Gevaert, a pessoa \u00e9 futur\u00edvel, \u00e9 futuri\u00e7\u00e3o. Deste modo, em momento algum da condi\u00e7\u00e3o da pessoa se pode dizer \u2018eis a pessoa no seu estado definitivo\u2019. Para a bio\u00e9tica, a pessoa \u00e9 um fazer-se permanente. \u00c9, assim, a esta luz que, em muitas da correntes da bio\u00e9tica situadas no \u00e2mbito do personalismo, as tentativas de considerar que s\u00f3 h\u00e1 pessoa ou j\u00e1 n\u00e3o pessoa a partir de um momento discricionariamente definido s\u00e3o consideradas arbitr\u00e1rias e pouco consistentes. \u00c0 luz da defini\u00e7\u00e3o de pessoa que apont\u00e1mos, e que resulta da genu\u00edna hist\u00f3ria da reflex\u00e3o sobre este conceito, em nenhum momento da vida de um ser humano \u00e9 poss\u00edvel estabelecer que j\u00e1 temos ou j\u00e1 n\u00e3o temos pessoa. A condi\u00e7\u00e3o de abertura futur\u00edvel comporta esta impossibilidade. S\u00f3 a morte interrompe, de forma liminar e indubit\u00e1vel, esta constru\u00e7\u00e3o da pessoalidade, ainda que abrindo-a, numa perspectiva crente, para uma outra condi\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o. De outro modo, tudo n\u00e3o passa de construtos abstractos e arbitr\u00e1rios, que pretendem reduzir o conceito de pessoa ao de indiv\u00edduo, objectualizando e ins-trumentalizando a pessoa. Decorrendo destas reflex\u00f5es, depreende-se que a condi\u00e7\u00e3o de pessoa preserva, para a reflex\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o da bio\u00e9tica, a inviolabilidade de cada ser humano, insuscept\u00edvel de instrumentaliza\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o desumanizante. <\/p>\n<p>Dignidade | Pessoa | Aborto | Eugenismo | Clonagem | Eutan\u00e1sia | Bio\u00e9tica | Ecologia | Humanismo | Princ\u00edpios<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>10 Palavras Fundamentais de Bio\u00e9tica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-3528","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3528"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3528\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}