{"id":3542,"date":"2009-09-16T10:53:00","date_gmt":"2009-09-16T10:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3542"},"modified":"2009-09-16T10:53:00","modified_gmt":"2009-09-16T10:53:00","slug":"felizes-de-nos-estarreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/felizes-de-nos-estarreja\/","title":{"rendered":"Felizes de n\u00f3s, Estarreja"},"content":{"rendered":"<p>Chegou h\u00e1 44 anos. Batina preta arrega\u00e7ada e atirada ao ombro esquerdo, motoreta usada, livros e pastas no bra\u00e7o direito, com a alegria luminosa duma manh\u00e3 de sol, olhar vivo e cativante em alerta permanente. Apanhava-nos no adro, na costeira, na curva de S. Tiago, no port\u00e3o da escola, na pra\u00e7a&#8230; e travava de repente. Depois, dizia quem era, sabia-nos o nome, a fam\u00edlia, o lugar, o que faz\u00edamos, os amigos em redor e, quando nos lan\u00e7ava o convite, j\u00e1 nos tinha medido por dentro e por fora e, entrando nos nossos dias, olhava-nos com o cora\u00e7\u00e3o. Em cada dia, em cada momento, aumentava o n\u00famero dos que aderiam.<\/p>\n<p>Grupo dos c\u00e2nticos: N\u00e3o era um grupo coral. Um de n\u00f3s em cada banco da igreja, do meio para baixo (do meio para cima encarregava-se ele), para que o povo, ouvindo algu\u00e9m cantar e responder com convic\u00e7\u00e3o, deixasse de \u201cassistir \u00e0 missa\u201d para participar na Eucaristia. Aprendi ent\u00e3o a gostar da celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio fundamental da vida da Igreja e a n\u00e3o poder passar sem Ela.  <\/p>\n<p>SMJ, Servi\u00e7o Mission\u00e1rio dos Jovens: Encontros, visitas, partilha com os pobres e sozinhos.<\/p>\n<p>Grupo da JOC, Jovens Oper\u00e1rios Cat\u00f3licos: Primeiro s\u00f3 rapazes, depois tamb\u00e9m raparigas. Ver, julgar e agir no meio de trabalho e a partir dele. As noites de reuni\u00e3o, a Doutrina Social da Igreja sa\u00edda da frescura inovadora do Vaticano II, o empenho  e sentido crist\u00e3o do trabalho, o valor dos jovens trabalhadores, na linha do Cardeal Cardjin, a Solidariedade, a Justi\u00e7a, a Paz&#8230; A descodifica\u00e7\u00e3o do jornal \u201cJuventude Oper\u00e1ria\u201d, quando as bolas pretas ou os tra\u00e7os negros substitu\u00edam os textos da mesma doutrina cortados pelos censores do regime. Da ora\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, o confronto com a Palavra e o entusiasmo da ac\u00e7\u00e3o programada eram rematados de viola na m\u00e3o, numa can\u00e7\u00e3o que sempre ensinava, como que tomando-nos de assalto ben\u00e9fico e impetuoso. A conquista era real, semana ap\u00f3s semana.  <\/p>\n<p>Agrupamento de Escuteiros n.\u00ba 233: Uma m\u00e3o cheia de adolescentes rapazes e dois chefes; primeiro em forma\u00e7\u00e3o insistente, pontual e sem faltas. Exig\u00eancia e compromisso semanais que o Padre Jo\u00e3o tomou em m\u00e3os e nunca descurou, traduzindo em saborosas, centenas e centenas de horas de forma\u00e7\u00e3o nos valores, nos Princ\u00edpios e na Lei. Sempre dando e pedindo contas em di\u00e1logo e incentivo. A tudo e a todos, uma aten\u00e7\u00e3o distra\u00edda, sempre em ac\u00e7\u00e3o. Ontem como hoje, um educador criativo, querido por grandes e pequenos.<\/p>\n<p>Acampamentos de felicidade<\/p>\n<p>Pod\u00edamos estar horas a fio ouvindo ralhetes ou a presenciar as suas desassombradas atiradelas da motoreta conta a parede por n\u00e3o termos cumprido o combinado, que ficar\u00edamos sempre e voltar\u00edamos no dia ou na semana seguinte com redobrada vontade e erro corrigido. Tenho hoje para mim que o \u00edman espiritual era t\u00e3o forte nele que transpirava para n\u00f3s a sedu\u00e7\u00e3o e o encantamento. Os acampamentos, as tendas, as viagens\u2026 Reconhe\u00e7o que ele os pagava praticamente inteiros do seu pr\u00f3prio bolso e, quando durante os mesmos n\u00e3o havia o que comer, ele pr\u00f3prio se encarregava de o buscar a outros de boa vontade, tantas vezes a come\u00e7ar pela sua m\u00e3e, a nossa Ti Beatriz. Momentos \u00fanicos de felicidade empenhada, onde a pobreza dos materiais e das tendas era sublimada pela alegria fraterna, pela correc\u00e7\u00e3o e respeito, pela verdade e pureza de atitudes que nos incutia e que connosco vivia.<\/p>\n<p>A vivacidade com que nos incentivava a estudar, a aprender, a descobrir, a servir no que preciso fosse \u00e0 comunidade implicava cultura, escola, ensino, aplica\u00e7\u00e3o a mais e melhor, nunca para pavonear qualidades, mas sempre e sempre com humildade e para o bem comum. Como padre, professor, ser humano, era assim que o v\u00edamos viver. Tal como na passagem evang\u00e9lica, junto dele, com ele, em numerosos momentos, pod\u00edamos exclamar: \u201cFa\u00e7amos aqui tr\u00eas tendas!\u201d<\/p>\n<p>A Diocese<\/p>\n<p>Fui entendendo porque \u00e9 que nessa altura o nosso her\u00f3i tanto for\u00e7ava a nossa sa\u00edda a encontros, retiros, acampamentos, movendo pais e m\u00e3es, julgo mesmo que at\u00e9 os convertendo. Era preciso sair do chapinhar. Escutar outros, aprender o novo, experienciar, saltando os muros altos que nos definhavam. Lembro a riqueza das Semanas de Pastoral na Casa de Mira, onde nunca pag\u00e1mos nada (quem pagaria?) e n\u00e3o havia autoriza\u00e7\u00e3o de falta: \u201cJ\u00e1 contei convosco\u201d.<\/p>\n<p>A descoberta do Conc\u00edlio e um novo tempo para a Diocese estavam no caminho. Como nos foram proveitosas em anos seguidos. Depois, o empurr\u00e3o que nos dava a pensarmos nos ser\u00f5es a partir dos temas dos conferencistas, acompanhando um grupo que normalmente integrava os padres Georgino, Urbino, Victor Z\u00e9, Sebasti\u00e3o, Carvalhais, Cartaxo e ele pr\u00f3prio, sempre em calorosos despiques e cristalinas tiradas, e dos quais sa\u00eda catequese encantadora. Recordo uma noite em que conseguiu fazer com que todos os participantes constru\u00edssem um barco moliceiro, navegando na sala ao som da can\u00e7\u00e3o encenada, e cuja proa eram os padres Creoulo e Alexandre (os maiores em estatura) e a r\u00e9, completamente extasiado, o Senhor D. Manuel! Ningu\u00e9m ficava de fora. Uma noite fant\u00e1stica. Um sonho que depois explicou. <\/p>\n<p>Nos meus 16\/17 anos, descobri a Diocese e passei a gostar de a integrar.<\/p>\n<p>Semin\u00e1rio, Col\u00e9gio, par\u00f3quias<\/p>\n<p>Os anos passaram. As meninas dos seus olhos estavam l\u00e1, agora. Mas continuava a abrir-nos as portas dos seus espa\u00e7os, fossem visitas rotineiras, fins-de-semana de revis\u00e3o e reflex\u00e3o, encontros. Mostrava-nos projectos com a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e trabalho de que \u00e9ramos testemunhas. Com que alegria deles dava conta e como os v\u00edamos concretizados de ano para ano, sempre que no \u00faltimo s\u00e1bado de Junho nos junt\u00e1vamos para o \u201cencontro dos amigos do P.e Jo\u00e3o\u201d. Continuava o conquistador de pessoas, o acolhedor natural e convicto, o sonhador que nunca parava de nos surpreender. T\u00ednhamos, vamos ter sempre, necessidade de estar com ele, pedir um conselho, desatar um n\u00f3, escutar as suas palavras compassadas e at\u00e9 os seus sil\u00eancios, ver os gestos t\u00e3o familiares das suas m\u00e3os, olhar para os seus olhos que nos adivinhavam. Aquela certeza confiante e segura de quem sabe em Quem colocou a sua F\u00e9 era real nele, e nem lutas ou frustra\u00e7\u00f5es o levavam a deixar de continuar \u00e0 aventura permanente. N\u00e3o raras vezes desconcertava o mais prevenido e confiava sempre. Exemplifico: como em anos e anos seguidos, encontr\u00e1vamo-nos no dia de abertura do Ano Pastoral, da Igreja Diocesana, de ordena\u00e7\u00f5es e outras datas ou acontecimentos celebrados. Em jeito de revista falava-nos de temas importantes: fam\u00edlia, amigos, trabalhos, coisas acontecidas e outras que seriam urgentes e sempre, da parte dele, aventuras poss\u00edveis, com confian\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o quase tr\u00eas anos, encontr\u00e1mo-nos no fim da celebra\u00e7\u00e3o da entrada do senhor D. Ant\u00f3nio Francisco na Diocese e disparou: \u201cConto contigo para uns ser\u00f5es que vamos ter com gente da Ponte de Vagos. Tal dia, tal hora est\u00e1s no Col\u00e9gio e pronto. Do resto trato eu. Depois digo-te o tema\u201d. Eram noites frias, invernia, vem o telefonema. Aponta-me as datas, diz o n\u00famero de ser\u00f5es, as senhoras que conduziriam os di\u00e1logos, os temas, e remata: \u201cD\u00e1s o teu testemunho, conversas com eles, nada de palavras caras ou teorias. Ah! e s\u00e3o s\u00f3 homens\u201d. E eu, embasbacada: \u201cOh&#8230; P.e Jo\u00e3o, mas s\u00f3 homens?&#8230; Mas com estas noites eles n\u00e3o v\u00e3o, \u00e9 longe&#8230;\u201d Pois l\u00e1 fui, e l\u00e1 estavam pontualmente as dezenas de homens de variadas profiss\u00f5es e idades. J\u00e1 iam no 4.\u00ba ou 5.\u00ba encontro. O di\u00e1logo foi participado e, passada hora e meia, duas horas, aparece o P.e Jo\u00e3o, faz-nos descer ao refeit\u00f3rio e, todos \u00e0 mesma mesa, partilh\u00e1mos a refei\u00e7\u00e3o que nos serviu e tinha nesse espa\u00e7o ele pr\u00f3prio preparado. No fim, arrum\u00e1mos tudo e os homens ainda contribu\u00edram para as despesas. No regresso a casa, j\u00e1 de madrugada interiorizava eu: \u201cMas que outro homem sen\u00e3o este padre, teria tido tal ideia e a concretizaria assim com gosto?\u201d<\/p>\n<p>De h\u00e1 um ano&#8230;<\/p>\n<p>Cada visita foi um espa\u00e7o de vida profundamente gravado. \u00c0s vezes suave. \u00c0s vezes violento. Sempre doloroso, mas tamb\u00e9m sempre enternecedor. No sil\u00eancio, na inquieta\u00e7\u00e3o, na d\u00favidas, nas certezas, com a fam\u00edlia ou na cama do IPO. A teologia da e a realidade da dor, da Gra\u00e7a, da Eucaristia, da experi\u00eancia de novas formas de evangeliza\u00e7\u00e3o, da preocupa\u00e7\u00e3o pelos padres, pela miss\u00e3o e voca\u00e7\u00e3o, dos m\u00e9todos e projectos educativos, da Igreja acolhedora que ter\u00e1 de ser sempre e mais&#8230; do sentido da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A sensibilidade para o sofrimento das irm\u00e3s que o mimavam, dos cunhados e sobrinhos que se revezavam, de quantos perguntavam e rezavam por ele, de quem clinicamente o tratava e a ordem \u201csenta-te a\u00ed\u201d, at\u00e9 \u00e0 Av\u00e9-Maria que rezou connosco e \u00e0 b\u00ean\u00e7\u00e3o que nos deu!<\/p>\n<p>Na pen\u00faltima quinta-feira, baixinho: \u201cSabes a \u00e1gua fresca a correr que uma vez me falaste?&#8230; N\u00e3o posso&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Agora<\/p>\n<p>S\u00f3 pode ecoar em n\u00f3s a sua total doa\u00e7\u00e3o e amor \u00e0s pessoas concretas, a sua vida t\u00e3o valiosa quanto humilde, o seu dom \u00fanico de criar la\u00e7os e pontes, a sua ac\u00e7\u00e3o frutificadora de Mestre e Pastor, o seu fidel\u00edssimo caminho ao servi\u00e7o daquele que o escolheu e em favor do enriquecimento espiritual e humano de quantos com ele se cruzaram.<\/p>\n<p>Felizes de n\u00f3s, porque nele encontr\u00e1mos a ternura e a sabedoria, o carinho e o entendimento, a m\u00e3o firme e vigorosa que ampara, sustenta, reparte e det\u00e9m!                                                        <\/p>\n<p>Maria da Concei\u00e7\u00e3o Fernandes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegou h\u00e1 44 anos. 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