{"id":3555,"date":"2009-09-16T12:05:00","date_gmt":"2009-09-16T12:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3555"},"modified":"2009-09-16T12:05:00","modified_gmt":"2009-09-16T12:05:00","slug":"ateus-a-quem-deus-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ateus-a-quem-deus-incomoda\/","title":{"rendered":"Ateus a quem Deus incomoda"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 frequente os ateus virarem te\u00f3logos. Coisa esquisita, por certo. Se n\u00e3o acreditam, porque se incomodam e perdem tempo a negar o que para eles n\u00e3o existe? Se \u00e9 para empurrarem os crentes para a descren\u00e7a, ent\u00e3o tem que se lhes pedir que respeitem os sentimentos de quem n\u00e3o afina pelo seu diapas\u00e3o. Muita gente simples \u00e9 profundamente s\u00e1bia e dispensa conselhos e ajudas daqueles que presumem de muito saber e pouco respeito.<\/p>\n<p>Quem subiu alto, por seu p\u00e9 ou, como acontece frequentemente, porque outros o levaram ao colo, e se v\u00ea, por fim, no trono que lhe prepararam, se n\u00e3o tem consci\u00eancia de que toda a gl\u00f3ria \u00e9 passageira, como \u201cflor que murcha e erva que seca\u201d, e de que n\u00e3o faltam na sociedade  est\u00e1tuas com p\u00e9s de barro, acontece pensar que o esplendor do trono diviniza os mortais e \u00e9, por si, fonte de saber sem limites e raz\u00e3o para tudo poder afirmar ou negar.<\/p>\n<p>Temos a\u00ed um exemplo de casa, que me aparece &#8211; \u00e9 a minha opini\u00e3o &#8211; como algu\u00e9m atormentado pelos maus esp\u00edritos que procura exorcizar, sem grande resultado pr\u00e1tico. Refiro-me ao Nobel Saramago. Nada tenho contra o senhor. Li um ou outro dos seus livros. N\u00e3o consegui acabar alguns que ainda comecei. Por raz\u00f5es meramente liter\u00e1rias, n\u00e3o \u00e9 o meu g\u00e9nero, mas tamb\u00e9m n\u00e3o estranho nem me incomodo, que o seja de muitos dos seus leitores. Feita a casa na pra\u00e7a, tem de aceitar, se for capaz, quem queira opinar livremente sobre ela. O que ele faz com os outros.<\/p>\n<p>Por vezes penso que se trata de um homem incomodado, sen\u00e3o mesmo atormentado, pelos esp\u00edritos, talvez de Sofia, de Torga, ou at\u00e9 de gente de outras terras, onde se escreve em bom portugu\u00eas, mas onde os padrinhos podem faltar ou serem menos eficazes. <\/p>\n<p>Quando se sabe como se constr\u00f3i um Nobel, das letras e n\u00e3o s\u00f3, e qual a montagem que est\u00e1 por detr\u00e1s do veredicto final, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que fiquem fantasmas pelo meio do processo. Depois do facto consumado, o problema n\u00e3o resolvido d\u00e1 lugar a outros problemas. Saramago poder\u00e1 ter sido, talvez, um exemplo destas manobras. N\u00e3o falta quem o pense e quem o diga.<\/p>\n<p>\u00c9 um homem orgulhoso e intoc\u00e1vel. Fez do galard\u00e3o um escudo de intoc\u00e1vel. N\u00e3o permite, a seu respeito, cr\u00edticas e opini\u00f5es que n\u00e3o sejam de apre\u00e7o e elogio. Mostra que n\u00e3o esquece nem perdoa e que, para al\u00e9m dele, ningu\u00e9m, neste pobre mundo se lhe pode comparar. Sabe muito bem mover os cordelinhos que puxam o carrinho dos seus interesses. Este retrato deduz-se facilmente e sem preconceitos, das suas interven\u00e7\u00f5es. Sem que seja necess\u00e1rio inventar ou deturpar. Ele pr\u00f3prio diz que precisa de mostrar que est\u00e1 vivo. Muito bem. Um prop\u00f3sito positivo de que ningu\u00e9m o pode impedir. Por isso, agora, euf\u00f3rico, escreve sem parar. As interven\u00e7\u00f5es multiplicam-se. Os livros sucedem-se. A venda est\u00e1 de h\u00e1 muito assegurada. S\u00f3 h\u00e1 que cuidar que os t\u00edtulos sejam apelativos. A idade, agora, \u00e9 jus e fama que abre portas. Do passado, o que l\u00e1 vai, l\u00e1 vai. <\/p>\n<p>H\u00e1 uns tempos, de modo mais insistente, o ateu virou te\u00f3logo. Afirmativo e dogm\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o que detesta. Diz a sabedoria do povo que quem tem olhos tortos, entorta as coisas mais direitas. N\u00e3o sei, por isso, se o caminho escolhido lhe dar\u00e1 pr\u00e9mios e \u00eaxitos.<\/p>\n<p>Desta vez, parece ser o fratricida Caim que lhe d\u00e1 ensejo para matar o Deus, inventado por pobres escravos que Ele mesmo escravizou e que, na sua cegueira, teimam em O dizer vivo. O livro est\u00e1 a chegar, mas o autor j\u00e1 foi dizendo o que pretendia. O marketing funciona.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esperar que Saramago acerte a pontaria contra o Deus que para ele n\u00e3o existe, mas que o incomoda, mesmo tratando-se de uma mera inven\u00e7\u00e3o de escravos\u2026<\/p>\n<p>A B\u00edblia exige f\u00e9 para penetrar na sua mensagem. Os crentes e as igrejas crist\u00e3s n\u00e3o temem os tiros secos do desprezo ou do \u00f3dio. Ser\u00e3o os puros de cora\u00e7\u00e3o ver\u00e3o a Deus. Puros de cora\u00e7\u00e3o s\u00e3o os humildes, os \u00fanicos capazes de ser verdadeiros at\u00e9 ao fim. Puros, sem manobras ego\u00edstas, sem refolhos que coleccionam p\u00f3, sem misturas esp\u00farias.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre para todos um fim inevit\u00e1vel. Para um crente \u00e9 um in\u00edcio em que tudo aparecer\u00e1 definitivamente claro. Um momento para nos apresentarmos sem recomenda\u00e7\u00f5es e sem galard\u00f5es. Um momento \u00fanico da verdade total. <\/p>\n<p>A sorte de todos, crentes ou n\u00e3o crentes, \u00e9 a mesma. Quem acolhe nesse encontro inevit\u00e1vel de regresso \u00e0 Fonte da vida, ser\u00e1 sempre o Deus Pai, que tem, no seu amor misericordioso para com todos, a express\u00e3o mais eloquente do seu projecto salvador da dignifica\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 frequente os ateus virarem te\u00f3logos. Coisa esquisita, por certo. Se n\u00e3o acreditam, porque se incomodam e perdem tempo a negar o que para eles n\u00e3o existe? Se \u00e9 para empurrarem os crentes para a descren\u00e7a, ent\u00e3o tem que se lhes pedir que respeitem os sentimentos de quem n\u00e3o afina pelo seu diapas\u00e3o. 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