{"id":3755,"date":"2009-09-30T12:09:00","date_gmt":"2009-09-30T12:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3755"},"modified":"2009-09-30T12:09:00","modified_gmt":"2009-09-30T12:09:00","slug":"galileu-vitima-do-poder-e-nao-da-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/galileu-vitima-do-poder-e-nao-da-fe\/","title":{"rendered":"Galileu, v\u00edtima do poder e n\u00e3o da f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Em 2009 completam-se 400 anos sobre as principais observa\u00e7\u00f5es astron\u00f3micas de Galileu e 200 e 150 anos sobre o nascimento de Darwin e a publica\u00e7\u00e3o de \u201cA Origem das Esp\u00e9cies\u201d. Estes dois cientistas mudaram a forma como entendemos o mundo. O primeiro, na senda de Cop\u00e9rnico, significou o fim das concep\u00e7\u00f5es que punham a Terra e o ser humano no centro do universo. O segundo veio dizer que o ser humano, como os outros seres vivos, descende de esp\u00e9cies menos evolu\u00eddas. Ambos provocaram conflitos f\u00e9-ci\u00eancia. As teorias cient\u00edficas colidiam com o geocentrismo b\u00edblico e com a origem divina de Ad\u00e3o e Eva. Obrigaram a reler as Escrituras e a repensar o lugar do ser humano no mundo. <!--more--> Textos de Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>Quem entra na Bas\u00edlica de Santa Croce, em Floren\u00e7a, depara com os t\u00famulos de tr\u00eas grandes vultos da humanidade: Miguel \u00c2ngelo, o artista preferido dos papas; Maquiavel, pensador da pol\u00edtica, e Galileu Galilei, o cientista condenado pela Igreja. Mas como pode estar Galileu sepultado no interior de uma igreja, num magn\u00edfico t\u00famulo, se foi condenado pela Inquisi\u00e7\u00e3o como se diz? Algo n\u00e3o bate certo.<\/p>\n<p>Galileu \u00e9 o s\u00edmbolo da oposi\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e ci\u00eancia, entre Igreja Cat\u00f3lica e investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u00c9 invocado como exemplo do suposto obscurantismo da Igreja; o seu caso \u00e9 tido como prot\u00f3tipo do cientista perseguido.<\/p>\n<p>Em 2009, voltou-se a falar de Galileu. Precisamente h\u00e1 quatrocentos anos, com uma luneta (que n\u00e3o inventou mas aperfei\u00e7oou), observou as crateras da Lua, descobriu que a Via L\u00e1ctea \u00e9 composta por milh\u00f5es de estrelas (e n\u00e3o uma \u201cemana\u00e7\u00e3o\u201d, como se pensava e o nome sugere) e descobriu quatro das luas de J\u00fapiter. Deu in\u00edcio \u00e0 Astronomia como ci\u00eancia. At\u00e9 ent\u00e3o estava muito misturada com a astrologia.<\/p>\n<p>Em Maio passado, a Santa S\u00e9 promoveu um congresso internacional sobre \u201co caso Galileu\u201d. As actas ainda n\u00e3o foram publicadas, mas os dados divulgados nos \u00faltimos tempos pelos historiadores da ci\u00eancia, se n\u00e3o desculpabilizam a Igreja, pelo menos melhoram a sua imagem nesta fotografia para a qual geralmente se olha com \u00f3culos deformadores.<\/p>\n<p>Vejamos. Diz-se que no final do julgamento que remete Galileu ao sil\u00eancio sobre o heliocentrismo (o Sol no centro e a Terra girando \u00e0 sua volta), ele teria murmurado: \u201cEppur, si muove\u201d [\u201cE, no entanto, ela move-se\u201d]. O facto n\u00e3o est\u00e1 documentado. Trata-se de uma express\u00e3o associada a Galileu muito depois da sua morte.<\/p>\n<p>Por outro lado, ao contr\u00e1rio do que se pensa, Galileu, que \u00e9 sem d\u00favida um dos maiores g\u00e9nios cient\u00edficos de sempre (pelo m\u00e9todo experimental, pelos estudos de Mec\u00e2nica, pela aplica\u00e7\u00e3o da Matem\u00e1tica \u00e0 realidade, pela Astronomia\u2026), n\u00e3o prova o heliocentrismo. Galileu invoca como prova uma explica\u00e7\u00e3o solar das mar\u00e9s que foi \u201csem sombra de d\u00favida, o maior disparate que alguma vez escreveu\u201d, como afirmou Claude All\u00e8gre, em \u201cDeus e a Ci\u00eancia\u201d (obra publicada numa parceria entre a Gradiva e a Universidade de Aveiro). Muitos anos mais tarde, Newton explicar\u00e1 as mar\u00e9s atrav\u00e9s da Lua e n\u00e3o do Sol, como pretendeu o cientista italiano. Galileu estava certo quanto \u00e0 imobilidade do Sol em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra, mas n\u00e3o o conseguiu provar (tinha como argumento cred\u00edvel a observa\u00e7\u00e3o das fases de V\u00e9nus, no entanto tal n\u00e3o foi suficiente para arrebatar ades\u00f5es). Estava convencido de que tinha raz\u00e3o. E tinha. Mas em ci\u00eancia s\u00e3o necess\u00e1rias as provas.<\/p>\n<p>Hoje, h\u00e1 novas perspectivas para avaliar o \u201ccaso Galileu\u201d. Surge entre historiadores e te\u00f3logos uma nova vis\u00e3o que diz que este caso n\u00e3o \u00e9 tanto de oposi\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e ci\u00eancia, mas mais de guerrilha entre poderes dentro e fora da Igreja \u2013 o que n\u00e3o deixar\u00e1 de ser relevante e, em certo sentido, continua a ser um contra-testemunho do cristianismo. Contribuiu para estes dados que estavam esquecidos o pedido de reavalia\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II. Em resumo, porque as p\u00e1ginas de um jornal s\u00e3o insuficientes para as explica\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, no caso Galileu houve duas lutas, uma entre jesu\u00edtas e dominicanos e outra entre cat\u00f3licos e protestantes.<\/p>\n<p>A primeira tem a ver com a rivalidade entre estas duas ordens religiosas. Galileu era amigo dos jesu\u00edtas, que na altura criaram o Col\u00e9gio Romano, prestigiada institui\u00e7\u00e3o de ensino cient\u00edfico que aprofunda as observa\u00e7\u00f5es de Galileu (nota-se que foi o jesu\u00edta portugu\u00eas Manuel Dias que, logo em 1614, levou o telesc\u00f3pio para a China). Ora, os dominicanos mandavam no Santo Of\u00edcio. Numa altura de centraliza\u00e7\u00e3o do poder face \u00e0 amea\u00e7a protestante, as ideias de Galileu (e n\u00e3o o pr\u00f3prio Galileu, como nos casos de heresia) s\u00e3o apanhadas no turbilh\u00e3o. Mas Galileu, que era o cientista mais prestigiado, \u00e9 defendido por jesu\u00edtas, mesmo sendo estes injustamente criticados numa obra de Galileu, que tamb\u00e9m satiriza Urbano VIII (jesu\u00edta). Este papa, contudo, nunca chega a assinar o decreto de condena\u00e7\u00e3o das ideias de Galileu, certamente lembrando-se na amizade que os unia no passado. Tal explica que o cat\u00f3lico Galileu (teve duas filhas freiras) esteja bem sepultado.<\/p>\n<p>A segunda luta \u00e9 a que divide toda a Europa. A reforma protestante est\u00e1 em curso. Tanto a Igreja cat\u00f3lica como os protestantes querem ter a seu favor a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Se a Igreja cat\u00f3lica recusa o heliocentrismo, os protestantes v\u00e3o apoi\u00e1-lo, ainda que os cientistas demorem d\u00e9cadas a prov\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A verdadeira consequ\u00eancia nefasta do caso Galileu \u00e9 que a ci\u00eancia p\u00f4de desenvolver-se livremente nos pa\u00edses protestantes (em parte por causa do livre arb\u00edtrio que tamb\u00e9m se aplicava \u00e0s Escrituras e que causou sucessivas divis\u00f5es religiosas), enquanto nos pa\u00edses cat\u00f3licos, ligados a Roma, num tempo em que o Papa era a autoridade n\u00e3o s\u00f3 religiosa, mas tamb\u00e9m temporal e mesmo cient\u00edfica, assiste-se a uma subalterniza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. N\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 que se op\u00f5e \u00e0 ci\u00eancia. O pr\u00f3prio Galileu escreveu sobre isso (ver texto nesta p\u00e1gina). As quest\u00f5es de poder \u00e9 que inquinam tudo.<\/p>\n<p>Galileu Galilei<\/p>\n<p>1564 \u2013 (15 de Fevereiro) Nasce em Pisa<\/p>\n<p>1609 \u2013 Observa\u00e7\u00f5es de Galileu que revolucionam a astronomia<\/p>\n<p>1611 \u2013 Galileu apresenta as suas descobertas aos jesu\u00edtas, que as aperfei\u00e7oam<\/p>\n<p>1616 \u2013 Primeira admoesta\u00e7\u00e3o do Santo Of\u00edcio contra o heliocentrismo de Galileu<\/p>\n<p>1623 \u2013 Elei\u00e7\u00e3o de Urbano VIII, papa amigo de Galileu<\/p>\n<p>1633 \u2013 Galileu \u00e9 condenado a permanecer na sua casa de campo, em Floren\u00e7a, e proibido de ensinar o heliocentrismo.<\/p>\n<p>1642 \u2013 (8 de Janeiro) Morre em Floren\u00e7a<\/p>\n<p>1757 \u2013 Bento XIV autoriza a interpreta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da B\u00edblia relativamente ao Sol.<\/p>\n<p>1979 \u2013 Jo\u00e3o Paulo II diz \u00e0 Pontif\u00edcia Academia das Ci\u00eancias que \u00e9 necess\u00e1rio rever o caso Galileu.<\/p>\n<p>1992 \u2013 Jo\u00e3o Paulo II reconhece o erro dos te\u00f3logos do s\u00e9c. XVI e o caso Galileu fica finalmente encerrado.<\/p>\n<p>\u201cEu aqui direi aquilo que ou\u00e7o a um eclesi\u00e1stico de posi\u00e7\u00e3o muito elevada, isto \u00e9, que a inten\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo era ensinar-nos como se vai para o c\u00e9u, e n\u00e3o o referente ao c\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p>Galileu Galilei<\/p>\n<p>Como e onde ver as luas galileanas?<\/p>\n<p>No dia 3 de Outubro, a partir das 21h30, na sede do FISUA (Associa\u00e7\u00e3o de F\u00edsica da Universidade de Aveiro \u2013 Campus de Santiago), o Observat\u00f3rio Astron\u00f3mico de Mira e de Aveiro organiza uma sess\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o de J\u00fapiter e das luas descobertas por Galileu h\u00e1 400 anos. A iniciativa, de entrada livre, insere-se no Ano Internacional da Astronomia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2009 completam-se 400 anos sobre as principais observa\u00e7\u00f5es astron\u00f3micas de Galileu e 200 e 150 anos sobre o nascimento de Darwin e a publica\u00e7\u00e3o de \u201cA Origem das Esp\u00e9cies\u201d. Estes dois cientistas mudaram a forma como entendemos o mundo. 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