{"id":3823,"date":"2009-09-23T10:59:00","date_gmt":"2009-09-23T10:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3823"},"modified":"2009-09-23T10:59:00","modified_gmt":"2009-09-23T10:59:00","slug":"fazendo-ressoar-o-apelo-de-adolfo-peres-esquivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/fazendo-ressoar-o-apelo-de-adolfo-peres-esquivel\/","title":{"rendered":"Fazendo ressoar o apelo de Adolfo P\u00e9res Esquivel"},"content":{"rendered":"<p>Confesso que, ap\u00f3s quase cinco anos a viver no Brasil, mesmo tendo regressado fisicamente a Portugal, continuo muito interessado em tudo o que se vai passando na P\u00e1tria Grande, Latinoamerica querida. <\/p>\n<p>Assim, tenho acompanhado com especial aten\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o, ao longo do \u00faltimo trimestre, o que est\u00e1 a acontecer nas Honduras, com o golpe que levou \u00e0 destitui\u00e7\u00e3o do presidente eleito, Zelaya, e a tomada do poder por Micheletti, impulsionando o regresso das for\u00e7as olig\u00e1rquicas que durante o s\u00e9culo XX \u2013 salvo alguns curtos hiatos temporais de relativa normalidade constitucional \u2013 dominaram o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para que se possa perceber, resumidamente, o que aconteceu, conv\u00e9m situar as Honduras, um pa\u00eds montanhoso de 140 mil km\u00b2, localizado na Am\u00e9rica Central, onde vivem cerca de 5 milh\u00f5es de pessoas. A maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mesti\u00e7a, fruto da mistura entre os descendentes dos colonizadores espanh\u00f3is e os ind\u00edgenas aut\u00f3ctones, sobretudo Maias e Toltecas, mas tamb\u00e9m afro-americana, resultado dos mais de tr\u00eas s\u00e9culos de tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n<p>Pa\u00eds independente de Espanha desde 1821, Honduras raramente viveu em paz democr\u00e1tica. Das lutas internas entre conservadores e liberais \u00e0s inger\u00eancias estrangeiras na economia do pa\u00eds, passando pela influ\u00eancia quase constante dos militares que ora ocasionava golpes de estado ora orquestrava governos autorit\u00e1rios, de tudo um pouco Honduras foi sofrendo. Sendo que, quem mais tem sofrido tem sido o povo. Quase dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o vive abaixo do limiar da pobreza, tornando Honduras o antepen\u00faltimo pa\u00eds em \u00edndice de desenvolvimento de todo o continente americano.<\/p>\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio deste s\u00e9culo, o pa\u00eds tentou entrar num per\u00edodo de maior normalidade democr\u00e1tica, com o sistema eleitoral a ditar uma altern\u00e2ncia entre o conservador Maduro e o liberal Zelaya. Por\u00e9m, em pleno governo deste \u00faltimo, a 29 de Junho deste ano, as for\u00e7as olig\u00e1rquicas, receando perder os seus privil\u00e9gios e o dom\u00ednio s\u00f3cio-pol\u00edtico que sempre detiveram, resolveram dar um golpe de estado, prendendo o presidente eleito e suspendendo as garantias constitucionais do povo.        <\/p>\n<p>Apesar da comunidade internacional, com especial \u00eanfase para a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, ter condenado, desde o in\u00edcio, o golpe que colocou Micheletti no poder nas Honduras, o certo \u00e9 que, tr\u00eas meses volvidos, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se inverteu. Antes pelo contr\u00e1rio, parece que toma forma a ideia de que umas elei\u00e7\u00f5es improvisadas, com candidatos \u201carranjados\u201d, marcadas pelos golpistas para Novembro, devolver\u00e3o a legitimidade constitucional ao pa\u00eds.  <\/p>\n<p>A pr\u00f3pria comunica\u00e7\u00e3o social ocidental, em particular a europeia, n\u00e3o tem dado ao caso a import\u00e2ncia que se requeria. Mais, as escassas not\u00edcias que t\u00eam sido veiculadas, longe de descrever o que se est\u00e1, efectivamente, a passar, t\u00eam sistematicamente apresentado o caso como \u201cZelaya, presidente pertencente ao c\u00edrculo pr\u00f3ximo de Hugo Ch\u00e1vez que se est\u00e1 a confrontar com a oposi\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de uma parte do pa\u00eds\u201d. Vis\u00e3o errada, como nos mostra o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos, as tomadas de posi\u00e7\u00e3o de membros da Igreja Cat\u00f3lica hondurenha, como o bispo de Cop\u00e1n \u2013 voz de tantos outros l\u00edderes crist\u00e3os que convivem com o povo mais pobre \u2013 ou as den\u00fancias do Pr\u00e9mio Nobel da Paz, Adolfo P\u00e9rez Esquivel. <\/p>\n<p>O arquitecto argentino, militante dos Direitos Humanos laureado em 1980, conhece, na 1.\u00aa pessoa, a sangrenta hist\u00f3ria recente da Am\u00e9rica Latina e teme que a destitui\u00e7\u00e3o de Zelaya abra um precedente que possibilite o retorno das oligarquias e com elas os velhos poderes ditatoriais que tanto martirizaram a Am\u00e9rica Latina. De pensamento s\u00f3brio e esclarecido, como \u00e9 sua caracter\u00edstica, veio a p\u00fablico apelar para que a comunidade internacional, solidariamente, defenda a legitimidade democr\u00e1tica e \u201cimpe\u00e7a a instaura\u00e7\u00e3o nas Honduras, ou em qualquer outro pa\u00eds, de novas ditaduras militares\u201d.<\/p>\n<p>Por isso senti que, apesar da dist\u00e2ncia a que os nossos leitores se podem achar da Am\u00e9rica Latina, deveria fazer eco ao apelo de P\u00e9rez Esquivel. Para que saibamos, realmente, o que se est\u00e1 a passar, para que a opini\u00e3o p\u00fablica da Europa possa ter uma outra vis\u00e3o do que est\u00e1 a acontecer e para que, se poss\u00edvel, ainda se consiga evitar que este golpe antidemocr\u00e1tico possa vingar nas Honduras e com ele fazer retroceder em v\u00e1rias d\u00e9cadas as conquistas democr\u00e1ticas que a Am\u00e9rica Latina, se bem que a muito custo, tem vindo a conseguir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confesso que, ap\u00f3s quase cinco anos a viver no Brasil, mesmo tendo regressado fisicamente a Portugal, continuo muito interessado em tudo o que se vai passando na P\u00e1tria Grande, Latinoamerica querida. 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