{"id":3827,"date":"2009-10-14T09:55:00","date_gmt":"2009-10-14T09:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3827"},"modified":"2009-10-14T09:55:00","modified_gmt":"2009-10-14T09:55:00","slug":"a-beleza-deve-estar-em-toda-a-vida-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-beleza-deve-estar-em-toda-a-vida-da-igreja\/","title":{"rendered":"A beleza deve estar em toda a vida da Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Hermano Luis, madrileno nascido em 1946, era decorador e estava ligado ao mundo da moda. Em Londres, para onde fora \u00e0 procura de novas perspectivas, come\u00e7a a aproximar-se da Igreja cat\u00f3lica. Em 1975, entra para o Mosteiro de Santa Maria, a Real, de Oseira (diocese de Orense, Galiza). Neste mosteiro beneditino da ordem de Cister, constru\u00eddo no s\u00e9c. XVI (com origens no s\u00e9c. XII), abandonado no s\u00e9c. XIX e novamente com vida a partir de 1925, o monge Hermano Luis (n\u00e3o \u00e9 sacerdote) \u00e9 respons\u00e1vel pela hospedaria, fazendo jus \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o beneditina de bem acolher, e dedica-se \u00e0 arte sacra: pintura, decora\u00e7\u00e3o, ilustra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 banda desenhada, como \u00e9 exemplo o volume do Apocalipse (\u00faltimo livro da B\u00edblia) em BD. <\/p>\n<p>A pretexto de \u201cEu sou o Vinho\u201d, exposi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no Semin\u00e1rio de Aveiro e a partir do dia 19 de Outubro pode ser vista no Museu da S\u00e9 de Aveiro, o Correio do Vouga entrevistou Hermano Luis, monge e artista<\/p>\n<p>Correio do Vouga \u2013 Como chegou \u00e0 arte sacra e de inspira\u00e7\u00e3o religiosa?<\/p>\n<p>Hermano Luis \u2013 Eu j\u00e1 era artista antes de entrar no mosteiro, logicamente continuei trabalhando artisticamente dentro da vida mon\u00e1stica. Primeiro, trabalhei no plano puramente decorativo, para dar ao mosteiro um certo n\u00edvel de \u201chabitat\u201d, porque estava completamente despojado do seu tesouro art\u00edstico, devido \u00e0 desamortiza\u00e7\u00e3o [processo que consistiu em retirar bens das consideradas \u201cm\u00e3os mortas\u201d para vend\u00ea-los em leil\u00e3o; a Igreja cat\u00f3lica e as ordens religiosas foram as institui\u00e7\u00f5es mais visadas].<\/p>\n<p>Mas rapidamente a sua arte saiu dos claustros do mosteiro&#8230;<\/p>\n<p>Comecei a fazer exposi\u00e7\u00f5es no mosteiro, no espa\u00e7o do refeit\u00f3rio do s\u00e9c. XVI. Mas, devido a convites de organismos de Orense, passei a expor fora do mosteiro.<\/p>\n<p>Pinta como forma de evangeliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Sim. Actualmente a minha vida arte desenvolve o que posso chamar de \u201cpastoral art\u00edstica\u201d. A prioridade da minha arte \u00e9 a pastoral, como nesta exposi\u00e7\u00e3o dedicada ao vinho numa perspectiva sagrada, eucar\u00edstica. Nestas 16 pinturas [sete foram reproduzidas na edi\u00e7\u00e3o da semana passa deste jornal], o vinho \u00e9 apresentado como parte do mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o e da salva\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 presente desde o des\u00edgnio criador de Deus \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte, \u201ca fatal desilus\u00e3o do inverno\u201d [o \u00faltimo quadro \u00e9 um conjunto de videiras sem folhas, numa paisagem que pode ser de neve e que fez exclamar a um visitante da exposi\u00e7\u00e3o: \u201cParece um cemit\u00e9rio\u201d].<\/p>\n<p>Nalguns quadros, a mensagem \u00e9 directa, noutros, \u00e9 preciso ler a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie de quadros tem telas que se inserem no figurativismo e na abstrac\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma mescla de duas coisas. Os quadros figurativos permitem que o espectador que n\u00e3o seja capaz de entrar na abstrac\u00e7\u00e3o perceba a mensagem de um modo mais directo. Nos abstractos \u00e9 mais o cromatismo que fala.<\/p>\n<p>Uns apelam mais \u00e0 racionalidade e outros \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Exactamente.<\/p>\n<p>Dos 16 quadros, qual prefere?<\/p>\n<p>O que tem por t\u00edtulo \u201cFoi sepultado\u201d. \u00c9 uma abstrac\u00e7\u00e3o, numa \u00fanica cor. Cada quadro tem uma refer\u00eancia, um nome e uma catequese. [Na catequese explicativa do n.\u00ba 12, \u00abFoi sepultado\u00bb, escreve-se: \u201cAs analogias da Palavra de Deus abarcam todos os campos da realidade e d\u00e3o-lhe sentido. O mosto encerrado no tonel, para converter-se em vinho, n\u00e3o se pode compreender sen\u00e3o como mais uma analogia das que a natureza oferece em rela\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, como fen\u00f3meno iluminador do mist\u00e9rio da dor, da morte, e depois dela, da esperan\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d].<\/p>\n<p>O que esteve na origem de \u201cEu sou o Vinho\u201d?<\/p>\n<p>Na origem n\u00e3o est\u00e1 uma finalidade religiosa\u2026 Tratou-se do convite de um comiss\u00e1rio de arte que pediu pe\u00e7as para uma exposi\u00e7\u00e3o dedicada ao vinho, numa regi\u00e3o vitivin\u00edcola de Espanha. Mas o meu projecto n\u00e3o era trabalhar para uma sala de exposi\u00e7\u00f5es. Era fazer algo que revelasse alguma da riqueza do mist\u00e9rio. Digamos que os quadros t\u00eam uma primeira dimens\u00e3o natural. Mas a segunda faceta ou dimens\u00e3o \u00e9 eucar\u00edstica.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que a f\u00e9 e a beleza (ou o sentido est\u00e9tico) est\u00e3o de costas voltadas. Concorda?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o, de maneira nenhuma. A Igreja \u00e9 a primeira promotora de todo o tipo de beleza, porque o fim \u00faltimo da miss\u00e3o da Igreja \u00e9 a transcend\u00eancia do mist\u00e9rio divino, que \u00e9 verdade, beleza e bem. A beleza deve estar em todo o mist\u00e9rio e vida da Igreja.<\/p>\n<p>Mas admite que na liturgia, nas palavras, nos espa\u00e7os, nos livros e jornais da Igreja, a beleza por vezes est\u00e1 distante\u2026<\/p>\n<p>Sim, concordo. Isso faz-me lembrar um livro de um autor alem\u00e3o do s\u00e9culo passado, intitulado \u201cA indignidade da arte sagrada\u201d. A Igreja reconhece que nem sempre assume a beleza, mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o queira t\u00ea-la do seu lado.<\/p>\n<p>Quantas horas dedica por dia ao trabalho art\u00edstico?<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho um tempo fixo. Uns dias trabalho cinco minutos, outras meia hora, outros cinco horas. \u00c9 dif\u00edcil trabalhar cinco horas porque a minha actividade no mosteiro \u00e9 muito intensa. Sou encarregado da portaria, com a miss\u00e3o do turismo e da hospedaria. Portanto, o tempo para a arte \u00e9 relativamente escasso, mas nunca deixo de trabalhar, sejam cinco minutos ou meia hora.<\/p>\n<p>Que pintores e escolas o influenciam?<\/p>\n<p>A gra\u00e7a maior que tenho \u00e9 a independ\u00eancia de vida e a solid\u00e3o do mosteiro. Ainda que tenha muitas influ\u00eancias, como qualquer pessoa, tive a possibilidade de criar a minha pr\u00f3pria linguagem, o meu espa\u00e7o, a minha personalidade art\u00edstica num campo puramente religioso, sem prestar tributo aos monstros sagrados da pintura.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 irrepresent\u00e1vel, mas se quisesse representar o divino, ainda que simbolicamente, o que escolheria na vida ou na natureza?<\/p>\n<p>A \u00fanica forma de expressar o divino seria uma imensa esfera branca. Porque o branco \u00e9 a cor da divindade e a esfera \u00e9 o s\u00edmbolo da infinitude.<\/p>\n<p>Entrevista conduzida <\/p>\n<p>por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hermano Luis, madrileno nascido em 1946, era decorador e estava ligado ao mundo da moda. Em Londres, para onde fora \u00e0 procura de novas perspectivas, come\u00e7a a aproximar-se da Igreja cat\u00f3lica. 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