{"id":385,"date":"2010-01-20T14:42:00","date_gmt":"2010-01-20T14:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=385"},"modified":"2010-01-20T14:42:00","modified_gmt":"2010-01-20T14:42:00","slug":"igreja-em-campo-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/igreja-em-campo-aberto\/","title":{"rendered":"Igreja em campo aberto"},"content":{"rendered":"<p>A Igreja sempre esteve em campo aberto. \u00c9 de sua natureza e, por isso mesmo, essa \u00e9 a sua miss\u00e3o e seu modo natural de agir. Em campo aberto: ao calor do Ver\u00e3o, ao frio do Inverno, \u00e0 beleza da Primavera, \u00e0 serenidade do Outono O Vaticano II veio dizer que assim \u00e9.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, houve tempo, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o s\u00e9culos, em que a Igreja caiu na tenta\u00e7\u00e3o de construir pal\u00e1cios com muralhas. \u00c0 maneira de reis e fidalgos. Umas mais ostensivas a denunciar poder. Outras mais discretas, com frestas estreitas para poder espreitar, guardando da tenta\u00e7\u00e3o de sair para o vento. Visto de longe, tudo parecia bem e iluminado. Assim, se tornou mais dif\u00edcil entrar e sair, e mais c\u00f3modo estar de ouvidos cerrados ao rugir de vendavais e ao cair da chuva. O mesmo \u00e9 dizer, estranho \u00e0s intemp\u00e9ries da vida que geram sofrimento, e \u00e0 luta ingl\u00f3ria de muitos sem saberem como enfrentar o abandono.<\/p>\n<p>As verdades foram ganhando bolor, as gargantas ferrugem, e o povo a ter de se contentar com a esmola ocasional e fugidia das palavras piedosas de algum frade pregador, que passava, de tempo a tempo, pelo povoado. Muitas casas paroquiais j\u00e1 nem eram do padre, mesmo com ele a viver l\u00e1 dentro. E, onde ele ainda mandava, n\u00e3o raro as propostas de religi\u00e3o que apontavam para Deus eram limitadas, sempre iguais e de alcance reduzido para aqueles a quem chegavam, que, mesmo estes, iam escasseando, a pouco e pouco.<\/p>\n<p>Um dia os maiores se aperceberam que, l\u00e1 fora, em campo seu, se moviam outras for\u00e7as e nelas estava o inimigo que era preciso esconjurar. Sa\u00edram, ent\u00e3o, das muralhas para fazer guerra ao intruso. De defesa da f\u00e9 e da verdade, dizia-se. Tarde de mais. Com a luz  debaixo do alqueire n\u00e3o se pode estranhar que, na noite da vida, surjam lampi\u00f5es. Os de fora equiparam-se com armas depreciadas pelos de dentro. A estas, outras se juntaram, de novo cariz e n\u00e3o menos poderosas. E a guerra de oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o terminou mais.<\/p>\n<p>Avisos do c\u00e9u foram abafados. Palavras de profetas, n\u00e3o ouvidas. Sinais de novos caminhos, rejeitados. O bem que os outros faziam, desfeiteado\u2026<\/p>\n<p>Mas o Esp\u00edrito ia trabalhando. Onde era maior o sofrimento pela injusti\u00e7a dos pecados sociais, surgiam novos ap\u00f3stolos; onde o tesouro da verdade estava aberto s\u00f3 a iniciados, alguns mais ousados penetraram nele e apresentaram-no como bem de todos os que a ele tinham direito; onde o medo imperava, uma coragem inesperada tornou-se express\u00e3o de vida; os humildes vieram \u00e0 ribalta e soaram palavras novas\u2026 <\/p>\n<p>J\u00e1 nada era igual na Igreja, nem modo havia de retroceder. Uns perceberam que era necess\u00e1rio abrir caminhos novos e uniram-se para tal tarefa. Outros n\u00e3o temeram a tempestade e enfrentaram-na corajosamente. Outros, ainda, avan\u00e7aram sem intuitos de guerra, dispostos a falar a todos da \u201cliberdade com que Cristo nos libertou\u201d, mesmo onde j\u00e1 se hasteavam bandeiras de outras liberdades de sinal diferente. <\/p>\n<p>Muralhas foram caindo; inc\u00f3modos por novo rumo foram crescendo; a noite dando lugar a dias de esperan\u00e7a; as lutas perderam o sentido; a paz foi mais desejada; os ouvidos mais atentos \u00e0s v\u00edtimas das mentiras e injusti\u00e7as; os cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis \u00e0 dor. <\/p>\n<p>E a Igreja viu-se, como nos seus princ\u00edpios, no Cafarnaum da confus\u00e3o, na feira franca das ideias e das op\u00e7\u00f5es, no campo aberto onde todos entram. Surge, ent\u00e3o, Jo\u00e3o XXIII com um sorriso de esperan\u00e7a. Carregava as preocupa\u00e7\u00f5es de muitos, era eco da voz do grande Profeta. E disse assim: a Igreja de Cristo \u00e9 luz das na\u00e7\u00f5es e sinal de salva\u00e7\u00e3o para todos, se for, de novo, serva e pobre; ela \u00e9 povo de irm\u00e3os com voca\u00e7\u00e3o de fraternidade universal; edifica o Reino e \u00e9 sinal de que Ele j\u00e1 est\u00e1 entre n\u00f3s; \u00e9 m\u00e3e e mestra, servi\u00e7o e n\u00e3o poder; tem na pessoa humana \u00e9 o seu caminho e o seu lugar \u00e9 o lado da verdade e da justi\u00e7a; tem de deixar de vez o trono dos grandes e estar, dispon\u00edvel para o lava-p\u00e9s; falar\u00e1 com o mundo e ouvir\u00e1 dele as alegrias e esperan\u00e7as\u2026 <\/p>\n<p>Outra vez Igreja no campo aberto de uma sociedade plural. A\u00ed tem de ser ela mesma: fermento, sal, luz, proposta de amor e aberta ao di\u00e1logo, disposta ao sofrimento, fiel \u00e0 verdade e ao encontro das pessoas. Igreja votada, a tempo inteiro, ao essencial, o projecto de Cristo. Igreja no mundo, sem ser do mundo, deixando que o Esp\u00edrito a conduza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja sempre esteve em campo aberto. \u00c9 de sua natureza e, por isso mesmo, essa \u00e9 a sua miss\u00e3o e seu modo natural de agir. Em campo aberto: ao calor do Ver\u00e3o, ao frio do Inverno, \u00e0 beleza da Primavera, \u00e0 serenidade do Outono O Vaticano II veio dizer que assim \u00e9. 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