{"id":3872,"date":"2009-10-07T09:49:00","date_gmt":"2009-10-07T09:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3872"},"modified":"2009-10-07T09:49:00","modified_gmt":"2009-10-07T09:49:00","slug":"as-dobras-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/as-dobras-da-vida\/","title":{"rendered":"As dobras da vida"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu * <\/p>\n<p>* \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4)<\/p>\n<p>Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n<p> <!--more--> 28.\u00ba Domingo do Tempo Comum (Ano B)<\/p>\n<p>1.\u00aa Leitura: Sabedoria 7, 7-11<\/p>\n<p>2.\u00aa Leitura: Carta aos Hebreus 4, 12-13  Evangelho: Marcos 10, 17-30<\/p>\n<p>Valer\u00e1 a pena ser honesto nos tempos que correm? Valer\u00e1 a pena preferir a sabedoria ao oportunismo?<\/p>\n<p>H\u00e1 coisa de vinte anos, uma conceituada revista internacional estudava o impacto das aulas de moral em pa\u00edses dos cinco continentes, entre alguns dos mais e menos desenvolvidos. E o resultado foi revelador: eram as mais preferidas \u2013 mas tamb\u00e9m as mais in\u00fateis para \u201cvencer na vida\u201d! Pois quantos \u00e9 que conseguem chegar ao topo, sem mentir, sem adular, sem roubar, sem fazer-se falso amigo, sem espezinhar os outros? O pr\u00f3prio bem comum passou a ser um r\u00f3tulo vazio, sentido como limitador do nosso projecto pessoal. Demasiadas vezes, at\u00e9, aqueles que hasteiam a bandeira do bem comum pretendem sobretudo enrolar quem ainda se deixa levar por sentimentos ou ideias s\u00e3s, ficando eles confortavelmente instalados nos seus postos de privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a Sabedoria vale muito, mas n\u00e3o serve para nada?<\/p>\n<p>Cerca de um s\u00e9culo antes de Jesus Cristo, um autor erudito e inspirado, bom conhecedor das culturas judaica e grega, lutou corajosamente contra esta invers\u00e3o end\u00e9mica de valores, ao longo da aventurosa hist\u00f3ria da esp\u00e9cie humana. Em termos bem incisivos, proclama como a Sabedoria s\u00f3 habita em quem a deseja sinceramente; e que as honras e riquezas n\u00e3o a podem comprar (embora os espertalh\u00f5es a finjam possuir) e que nada valem sem ela. Nem a sa\u00fade nem a beleza se lhe comparam: enquanto o esplendor do corpo humano se vai desfazendo, a sabedoria brilha cada vez mais, e at\u00e9 embeleza e transforma as rugas, a dor e a pr\u00f3pria morte. Quem procura a Sabedoria acima de todas as coisas descobre os tesouros e a alegria que se escondem nas \u201cdobras da vida\u201d. <\/p>\n<p>Na 2.\u00aa leitura, vemos que receber a palavra de Deus \u00e9 receber a sabedoria. Mas nada recebemos se n\u00e3o nos preparamos para discernir o modo de p\u00f4r a vida a render 100%, qualquer que seja a dura\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es da vida de cada qual \u2013 n\u00e3o \u00e9 o que dizem as par\u00e1bolas dos \u00abtalentos\u00bb, dos \u00abtrabalhadores da vinha\u00bb e do \u00absemeador\u00bb? Se n\u00e3o desenvolvermos o esp\u00edrito cr\u00edtico, acabamos por nos deixar levar como garraf\u00f5es de pl\u00e1stico vazios ao sabor das ondas da publicidade assente no comodismo e na curteza de vistas. <\/p>\n<p>Budistas, crist\u00e3os, mu\u00e7ulmanos&#8230; e at\u00e9 ateus \u2013 quantos destes deram ao mundo o testemunho de abandonar o brilho do oiro e da beleza, naturalmente cativantes embora perec\u00edveis, para mais livremente seguirem a sabedoria? <\/p>\n<p>O jovem rico do evangelho, reconhecidamente cidad\u00e3o exemplar e atento \u00e0 palavra de Deus, p\u00f4s o problema desta escolha a Jesus Cristo. Queria ter a certeza da melhor estrat\u00e9gia de investimento da vida de todos os dias para alcan\u00e7ar o prazer garantido de viver. Faltaria alguma coisa? N\u00e3o, n\u00e3o faltava. Na opini\u00e3o de Jesus, at\u00e9 tinha a vida muito bem orientada. Mas ele parecia querer o risco de novos investimentos. Ent\u00e3o, Jesus lan\u00e7ou-lhe o isco: porque n\u00e3o entrar numa \u00abjoint venture\u00bb com o Mestre? <\/p>\n<p>Ora a palavra de Deus penetra como uma espada de dois gumes e \u00e9 capaz de distinguir as inten\u00e7\u00f5es e os pensamentos do cora\u00e7\u00e3o (Sabedoria, 18, 15; Isa\u00edas, 11, 2-4). Temos que ser honestos para com Deus, para com os outros e para connosco, n\u00e3o dizendo que queremos o que n\u00e3o podemos ou n\u00e3o estando para modificar a nossa vida (Lucas, 14, 28-33). A sabedoria n\u00e3o \u00e9 perten\u00e7a nem de ricos nem de pobres, mas de quem a aprecia acima dos muitos ou poucos bens terrenos que possui. O jovem rico preservava a sabedoria acima de tudo &#8722; de outro modo Jesus n\u00e3o lhe teria reconhecido a honestidade e boa vontade. Mas a estrat\u00e9gia proposta por Jesus era-lhe demasiado estranha ao sentir e ao pensar.<\/p>\n<p>Na catequese tradicional, interpretava-se frequentemente este epis\u00f3dio \u00abdo jovem rico\u00bb como uma condena\u00e7\u00e3o da riqueza, ao mesmo tempo que se exaltava o entusiasmo de Pedro que, logo a seguir, exclama para o Mestre: \u2013 Mas n\u00f3s n\u00e3o somos assim! N\u00f3s at\u00e9 deix\u00e1mos tudo para te seguir de perto! (N\u00e3o se podiam comparar os apetrechos piscat\u00f3rios de Pedro &#038; companhia com os bens do jovem rico, mas o sacrif\u00edcio n\u00e3o se mede assim \u2013 custa sempre muito deixar tudo o que temos!).<\/p>\n<p>Ora Jesus sublinha apenas que a riqueza material desse jovem o fez desanimar de embarcar numa vida plenamente dedicada ao maior bem de toda a gente. N\u00e3o condenou a riqueza (n\u00e3o era Jesus sustentado pela riqueza dos seus amigos &#8722; homens e mulheres?) mas apontou como uma pessoa rica enfrenta grandes dificuldades para ser plenamente honesta. Como tamb\u00e9m \u00e9 particularmente dif\u00edcil a um pol\u00edtico ou a quem quer que detenha grande poder. Todos estes facilmente embarcam numa dura l\u00f3gica de efic\u00e1cia do aumento desse poder ou dessa riqueza. (Queira Deus \u2013 e queiramos n\u00f3s \u2013 que n\u00e3o se possa aplicar esta cr\u00edtica a quem se diz e apresenta com o estatuto de seguidor de Jesus\u2026). <\/p>\n<p>O problema \u00e9 que n\u00e3o bastam os bons prop\u00f3sitos. J\u00e1 os profetas do Antigo Testamento denunciavam a \u00abtristeza\u00bb de Deus, porque aqueles que se diziam \u00abo seu povo\u00bb, honravam-no com palavras bonitas, mas guardavam o cora\u00e7\u00e3o bem longe\u2026 (Isa\u00edas 29,13; 1,14-17); e chegavam a apregoar aos quatro ventos que eram bons (Mateus 7,21-23; Lucas 16,14-15; 18,9-14). Jesus Cristo n\u00e3o se deixava enganar por certas ora\u00e7\u00f5es devotas\u2026<\/p>\n<p>Na continua\u00e7\u00e3o do texto da 1.\u00aa leitura, o autor elogia quem sabe tirar partido dos prazeres da vida: \u00e9 \u00e0 Sabedoria que se deve a procura persistente de tudo o que nos pode fazer sentir bem. \u00c9 a Sabedoria que desperta e robustece a arte de encontrar em todas as vidas o sabor de viver. \u00c9 a Sabedoria que ensina a encontrar o bem pr\u00f3prio sem descuidar o bem dos outros. <\/p>\n<p>Se ningu\u00e9m fosse capaz de remar contra as mar\u00e9s poluentes da humanidade, j\u00e1 o nosso mundo seria muito pior do que n\u00f3s dizemos que \u00e9. Sempre que damos testemunho de nos preocuparmos com a justi\u00e7a, apesar daqueles que se sentem mal e atacam o nosso esfor\u00e7o, a Sabedoria ensina-nos, como diz o evangelho, a encontrar a felicidade e o sabor da Vida j\u00e1 nas dobras da vida\u2026<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu * * \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4) Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-3872","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3872"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3872\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}