{"id":3886,"date":"2009-10-07T10:24:00","date_gmt":"2009-10-07T10:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3886"},"modified":"2009-10-07T10:24:00","modified_gmt":"2009-10-07T10:24:00","slug":"pais-real-ou-portugal-dos-pequeninos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pais-real-ou-portugal-dos-pequeninos\/","title":{"rendered":"Pa\u00eds real ou &#8220;Portugal dos pequeninos&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p>Cada vez aparece mais l\u00facida e actual a express\u00e3o \u201cpa\u00eds real\u201d. Esse pa\u00eds que, de norte a sul, trabalha no campo ou nas empresas, nos servi\u00e7os ou nas escolas, que luta pela justi\u00e7a e pelo bem-estar, que sofre injusti\u00e7as de que ningu\u00e9m se acusa, solta gritos que ningu\u00e9m ouve. Pa\u00eds real, como lhe chamou S\u00e1 Carneiro, \u00e9 este povo desconhecido de muitos que dele falam eloquentemente e at\u00e9 dizem que \u00e9 ele quem ordena, e se julgam mesmo, ciclicamente, os leg\u00edtimos delegados e defensores dos seus direitos. <\/p>\n<p>S\u00f3 conhece o pa\u00eds real quem se cobre com o p\u00f3 dos seus caminhos, suja os p\u00e9s na sua lama, gasta tempo a ouvir quem nele luta e \u00e9 a reserva nacional do bom senso, da honestidade, do trabalho, do respeito, da verdade e da justi\u00e7a a toda a prova. Povo que cresceu com a chave sempre na porta, aberta, como o cora\u00e7\u00e3o, a quem chegava e, agora, se v\u00ea amea\u00e7ado e inseguro nas suas pessoas e bens, vendo admirado, inc\u00f3lumes e \u00e0 solta, os profissionais da mentira, do assalto aos bens alheios, do ataque infame a idosos indefesos, do crime frequente. Povo com centenas de milhares de portugueses que n\u00e3o querem o p\u00e3o dos subs\u00eddios, mas o sal\u00e1rio justo de um trabalho certo.<\/p>\n<p>P\u00f3 e lama deste povo significam a dor e os sacrif\u00edcios de milh\u00f5es de portugueses que, aqui ou l\u00e1 fora, lutam para viverem uma exist\u00eancia de pessoas, que muitos n\u00e3o a tiveram antes, e poderem transmitir aos filhos, com a educa\u00e7\u00e3o que os prepare para a vida, os valores duradoiros que a tornam digna. <\/p>\n<p>P\u00f3 e lama \u00e9 a car\u00eancia sofrida de muita gente que ainda n\u00e3o disp\u00f5e de meios para cuidar a tempo da sa\u00fade, nem possibilidade de uns dias de f\u00e9rias repousantes, necess\u00e1rias e justas. \u00c9 o esfor\u00e7o ingl\u00f3rio de milhares de jovens para quem um diploma de curso \u00e9 pouco mais que um papel in\u00fatil, e v\u00eaem voar o tempo, sem lobrigarem trabalho e condi\u00e7\u00f5es para constituir uma fam\u00edlia com estabilidade. \u00c9 a dor inconsol\u00e1vel de muitos idosos que trabalharam uma vida inteira sem hor\u00e1rios, antes do sol nascer e para al\u00e9m do sol se p\u00f4r, e, que hoje, sofrem com a m\u00edngua do p\u00e3o, cada dia mais caro, e a prem\u00eancia de ter de contar os tost\u00f5es para poder comprar rem\u00e9dios indispens\u00e1veis. Os passeios gratuitos por todo o pa\u00eds, com almo\u00e7o inclu\u00eddo, que os pol\u00edticos lhes proporcionam, n\u00e3o apagam car\u00eancias essenciais do dia a dia, nem enxugam l\u00e1grimas choradas no sil\u00eancio das noites sem fim e, agora, de uma casa sem gente.<\/p>\n<p>Muitas coisas melhoraram neste pai real. Mal seria se assim n\u00e3o fosse. Mas n\u00e3o se atribuam honras pr\u00f3prias ao que se faz por dever e sempre com o dinheiro que n\u00e3o \u00e9 dos que governam. Nenhum bem social \u00e9 favor, a que t\u00edtulo seja, de pol\u00edticos generosos.<\/p>\n<p>Ao lado deste pa\u00eds h\u00e1 outro que, tamb\u00e9m, \u00e9 Portugal. Quem vir os canais de televis\u00e3o em concorr\u00eancia, onde cada vez mais vale tudo, ler os jornais que procuram fugir \u00e0 fal\u00eancia, vendendo t\u00edtulos enganosos, folhear, ainda que s\u00f3 nas salas de espera dos consult\u00f3rios m\u00e9dicos, as revistas cor-de-rosa que desvirtuam a vida e os sonhos de muita gente; quem reduzir os seus horizontes humanos e sociais ao mundo do futebol, perceber os objectivos, p\u00fablicos e ocultos, de algumas juventudes partid\u00e1rias, e mesmo de gente adulta que navega nas mesmas \u00e1guas, observar a sa\u00edda apressada das tocas e esconderijos dos que nela escondidos na hora da luta, investem logo que lhes cheira a proventos poss\u00edveis da morte ou da infelicidade de outros do seu mundo, ficar\u00e1, com uma ideia razo\u00e1vel, ainda que n\u00e3o perfeita, do que \u00e9 o \u201cPortugal dos pequeninos\u201d.<\/p>\n<p>Intrigas e coscuvilhices pol\u00edticas, at\u00e9 ao extremo, d\u00e3o horas intermin\u00e1veis a polit\u00f3logos, jornalistas, pol\u00edticos profissionais, gurus do pensamento e do saber, que esclarecem pouco e intoxicam muito. Tudo gente que s\u00f3 tem certezas, fala e n\u00e3o deixa falar, s\u00f3 as suas opini\u00f5es s\u00e3o verdades incontest\u00e1veis. Neste momento, Portugal s\u00e3o apenas duas pessoas. O resto \u00e9 gente que n\u00e3o interessa. Neste pa\u00eds de gente pequena, os modelos em promo\u00e7\u00e3o reduzem-se a pol\u00edticos vazios, futebolistas de milh\u00f5es, gente f\u00fatil de telenovelas e passarelas\u2026 O povo que trabalha, esse n\u00e3o tem hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada vez aparece mais l\u00facida e actual a express\u00e3o \u201cpa\u00eds real\u201d. Esse pa\u00eds que, de norte a sul, trabalha no campo ou nas empresas, nos servi\u00e7os ou nas escolas, que luta pela justi\u00e7a e pelo bem-estar, que sofre injusti\u00e7as de que ningu\u00e9m se acusa, solta gritos que ningu\u00e9m ouve. 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