{"id":390,"date":"2010-01-28T09:34:00","date_gmt":"2010-01-28T09:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=390"},"modified":"2010-01-28T09:34:00","modified_gmt":"2010-01-28T09:34:00","slug":"pede-se-aos-alunos-que-escrevam-mas-nao-se-lhes-ensina-a-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pede-se-aos-alunos-que-escrevam-mas-nao-se-lhes-ensina-a-escrever\/","title":{"rendered":"pede-se aos alunos que escrevam, mas n\u00e3o se lhes ensina a escrever"},"content":{"rendered":"<p>Autor de \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Escrita Criativa\u201d (ed. Colibri, obra recenseada no Correio do Vouga de 23 de Dezembro de 2009) e de v\u00e1rios livros de poesia e contos, Jo\u00e3o de Mancelos define-se mais como investigador do que como escritor ou professor que tamb\u00e9m \u00e9. Admirador do poeta Eug\u00e9nio de Andrade, est\u00e1 presentemente a investigar, em p\u00f3s-doutoramento na Universidade de Aveiro, a influ\u00eancia de poetas de l\u00edngua inglesa na obra do autor portuense. Nesta entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira, o principal assunto \u00e9 a escrita criativa<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; A escrita criativa tornou-se um fen\u00f3meno popular. Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>JO\u00c3O DE MANCELOS &#8211; H\u00e1 dois tipos de pessoas que frequentam os cursos de escrita criativa. Por um lado, os escritores-aprendizes, que j\u00e1 escrevem mas querem escrever melhor para chegar a publicar. Por outro, os que simplesmente querem ser melhores leitores. Estes \u00faltimos frequentam os cursos para saberem como se faz, como se obt\u00e9m este ou aquele efeito. Permite-lhes apreciar melhor as obras, tal como um ouvinte de m\u00fasica cl\u00e1ssica, conhecendo mais os autores e as t\u00e9cnicas, pode apreciar melhor a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Diz no seu livro que somos um pa\u00eds de poetas, mas em que n\u00e3o se l\u00ea poesia.<\/p>\n<p>Sim, cada vez me conven\u00e7o mais de que os poetas s\u00e3o os \u00fanicos a ler poesia. \u00c9 por isso que a poesia n\u00e3o se vende e h\u00e1 pouca cr\u00edtica e refer\u00eancias a livros de poesia nos jornais e revistas.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos a quererem escrever e poucos a quererem ler o que se escreve?<\/p>\n<p>\u00c9 um fen\u00f3meno. Mas os escritores deveriam come\u00e7ar por ler muito mais. Devem receber outras influ\u00eancias. At\u00e9 um mau livro pode ser uma leitura interessante porque aprendemos o que n\u00e3o se deve fazer. Ainda h\u00e1 um certo desprezo pela escrita criativa.<\/p>\n<p>Desprezo dos intelectuais?<\/p>\n<p>De alguns. H\u00e1 quem pense que escrita criativa \u00e9 s\u00f3 fazer exerc\u00edcios. N\u00e3o conhecem as t\u00e9cnicas. E alguns pensam que as t\u00e9cnicas s\u00e3o receitas. A escrita criativa est\u00e1 a entrar mal em Portugal. Quando um curso de escrita criativa se chama \u201cworkshop\u201d, est\u00e1 tudo estragado. A primeira coisa a fazer \u00e9 ter algum respeito pela l\u00edngua e n\u00e3o usar temos ingleses no nome do curso\u2026<\/p>\n<p>Disse que h\u00e1 t\u00e9cnicas, mas n\u00e3o receitas. \u00c9 poss\u00edvel ensinar a escrever criativamente?<\/p>\n<p>Sim. Isso sempre se fez. Os escritores sempre pediram conselhos a outros escritores mais experientes. A escrita criativa n\u00e3o \u00e9 uma coisa recente. Nos EUA, existe no ensino desde 1880. Da mesma forma que um m\u00fasico vai para o conservat\u00f3rio e aprende t\u00e9cnicas de composi\u00e7\u00e3o ou um pintor vai para uma escola de Belas-Artes, tamb\u00e9m um escritor pode e deve frequentar cursos de escrita criativa. Ernest Hemingway frequentou. William Faulkner frequentou. Toni Morrison frequentou. Todos eles s\u00e3o Nobel da Literatura. Alguma coisa h\u00e3o-de ter apren-dido com a escrita criativa.<\/p>\n<p>O que \u00e9 mais importante, o talento, o esfor\u00e7o ou o dom\u00ednio das t\u00e9cnicas?<\/p>\n<p>Tem de ser tudo. Se tiver talento mas n\u00e3o conhecer a t\u00e9cnica, n\u00e3o vai a lado nenhum. Se tiver talento e t\u00e9cnica mas n\u00e3o se esfor\u00e7ar, tamb\u00e9m n\u00e3o vai a lado nenhum. O esfor\u00e7o \u00e9 absolutamente essencial. Mas o talento \u00e9 b\u00e1sico. Se n\u00e3o se tem um m\u00ednimo de talento, n\u00e3o se aprende nada no curso. Ou aprende-se apenas a apreciar os outros escritores.<\/p>\n<p>Que conselho d\u00e1 a algu\u00e9m que tem algum talento, tem umas ideias, mas n\u00e3o sabe como pass\u00e1-las ao papel?<\/p>\n<p>Que frequente um curso de escrita criativa e que compre obras de escrita criativa. Depois de frequentar um curso, tem de continuar a trabalhar. Sempre. Hemingway dizia que a escrita \u00e9 uma \u00e1rea em que somos aprendizes at\u00e9 ao fim da vida. Se h\u00e1 coisa que a escrita criativa ensina \u00e9 a humildade. Se eu vejo que agora escrevo melhor do que escrevia h\u00e1 uns anos, devo pensar que o que escrevo amanh\u00e3 ser\u00e1 melhor do que o que escrevo hoje. Estamos sempre a aprender. E tamb\u00e9m se aprende muito lendo outros autores e at\u00e9 lendo entrevistas de escritores, que v\u00e3o revelando os seus h\u00e1bitos de escrita.<\/p>\n<p>Como surgiu o livro \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Escrita Criativa\u201d?<\/p>\n<p>Desde 1996 que lecciono escrita criativa. O primeiro curso que leccionei foi na Biblioteca Municipal de Aveiro. Depois introduzi uma unidade did\u00e1ctica sobre este assunto nas cadeiras que leccionava na Universidade Cat\u00f3lica, em Viseu. L\u00e1 orientei um mestrado sobre escrita criativa; foi o primeiro em Portugal. E passei por muitas escolas secund\u00e1rias e bibliotecas a fazer pequenos cursos, de horas. Continuo a estar dispon\u00edvel, a t\u00edtulo gracioso. Tudo isto contribuiu para passar a livro o que j\u00e1 h\u00e1 muito faz parte do meu dia-a-dia.<\/p>\n<p>Quando faz um desses pequenos cursos, o que ensina?<\/p>\n<p>Fa\u00e7o uma apresenta\u00e7\u00e3o em que desmonto os mitos sobre a escrita criativa e explico algumas t\u00e9cnicas b\u00e1sicas. Por exemplo, completar uma frase em que h\u00e1 uma compara\u00e7\u00e3o: \u201cA chuva a cair num telhado de zinco \u00e9 como\u2026\u201d \u00c0s vezes surgem ideias interessantes. \u201c\u2026\u00c9 como o barulho da m\u00e1quina de escrever do vizinho\u201d. \u201cO choro de um beb\u00e9 a meio da noite \u00e9 como\u2026 uma sirene de ambul\u00e2ncia\u201d. Coisas muito simples. Claro que n\u00e3o s\u00e3o como as t\u00e9cnicas que ensino na Universidade de Aveiro, nos cursos livres, mas abrangem a constru\u00e7\u00e3o de personagens, a import\u00e2ncia do local e do espa\u00e7o, t\u00e9cnicas para investigar.<\/p>\n<p>Diz no seu livro que normalmente \u00e9 na adolesc\u00eancia que surge o gosto pela leitura e pela escrita. Foi assim consigo?<\/p>\n<p>Foi, gra\u00e7as \u00e0 poesia de Ant\u00f3nio Gede\u00e3o e \u00e0s Cantigas de Amigo. Miguel Torga e Eug\u00e9nio de Andrade e, mais tarde, Fernando Pessoa tamb\u00e9m foram influentes.<\/p>\n<p>O ensino actual n\u00e3o desperta para a escrita?<\/p>\n<p>Penso que no ensino se continua a fazer muito este tipo de composi\u00e7\u00e3o: \u201cComo foram as tuas f\u00e9rias?\u201d Pede-se aos alunos que escrevam composi\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o se ensina a escrever. S\u00f3 se diz que tem de ter uma introdu\u00e7\u00e3o, um desenvolvimento e uma conclus\u00e3o. Ora, isso n\u00e3o \u00e9 nada. Como se constr\u00f3i uma personagem? Como se descreve um espa\u00e7o? Qual o tipo de narrador mais adequado \u00e0 hist\u00f3ria? Como se cria \u201csuspense\u201d? Quais as t\u00e9cnicas para desbloquear a inspira\u00e7\u00e3o? No ensino b\u00e1sico e secund\u00e1rio n\u00e3o ensina nada disto.<\/p>\n<p>Est\u00e1 a sugerir que os pr\u00f3prios professores de portugu\u00eas\u2026<\/p>\n<p>\u2026deviam frequentar um bom curso de escrita criativa.<\/p>\n<p>Referiu as t\u00e9cnicas para desbloquear a inspira\u00e7\u00e3o. Quais s\u00e3o?<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas. Por exemplo: Se a pessoa n\u00e3o est\u00e1 inspirada e costuma escrever no computador, experimente escrever num bloco de notas. Mudar a t\u00e9cnica de escrita. Outro exemplo: criar o caderno do escritor. Cada vez que tem uma ideia, apont\u00e1-la. P\u00f4r l\u00e1 uma fotografia. Quer criar uma personagem? N\u00e3o precisa de cri\u00e1-la do zero. Pode inspirar-se em pessoas conhecidas. V\u00e1 dar um passeio e imagine que est\u00e1 junto da personagem e entreviste-a: que idade tem, quais os seus sonhos, os que faz\u2026 Tudo isto s\u00e3o t\u00e9cnicas simples.<\/p>\n<p>Define-se como investigador, mais do que como escritor ou professor. O que investiga actualmente?<\/p>\n<p>Estou num p\u00f3s-doutoramento na Universidade de Aveiro. Estudo sobre a presen\u00e7a de poetas de l\u00edngua inglesa na obra de Eug\u00e9nio de Andrade, um poeta muito culto, com obra perme\u00e1vel a outros autores. O meu estudo de Eug\u00e9nio de Andrade j\u00e1 deu origem ao livro \u201cO marulhar de versos antigos. A Intertextualidade em Eug\u00e9nio de Andrade\u201d (ed. Colibri). Dentro de pouco tempo poder\u00e1 sair outro livro.<\/p>\n<p>Que poetas influenciaram Eug\u00e9nio de Andrade?<\/p>\n<p>John Keats, Yeats, Walt Whitman, que Eug\u00e9nio de Andrade diz ter influenciado tanto na obra como na vida, na maneira de ser e estar. Outros poetas como os modernistas norte-americanos, de que \u00e9 exemplo E. E. Cummings, tamb\u00e9m influenciaram.<\/p>\n<p>Revele-nos os seus gostos liter\u00e1rios. Parece preferir autores de l\u00edngua inglesa?<\/p>\n<p>Ao n\u00edvel da prosa, sem d\u00favida. Prefiro os norte-americanos Philip Roth, Paul Auster e Toni Morrison. Ao n\u00edvel da poesia, prefiro a europeia e portuguesa. Temos grandes poetas e tive imensa pena por o Nobel da Literatura n\u00e3o ter sido atribu\u00eddo a Miguel Torga, Eug\u00e9nio de Andrade ou Sophia Andresen. Temos ainda grandes poetas como Rosa Alice Branco, filha de Vasco Branco, aqui de Aveiro, Isabel Cristina Pires e Paulo Ramalho, ambos de Coimbra, ou Casimiro Brito, de Loul\u00e9. A poesia continua a dar cartas.<\/p>\n<p>O livro \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Escrita Criativa\u201d encontra-se \u00e0 venda da Livraria da Universidade de Aveiro ou em www.edi-colibri.pt. Jo\u00e3o de Mancelos tem s\u00edtio pessoal em http:\/\/mancelos.com.sapo.pt, onde apresenta uma selec\u00e7\u00e3o dos seus trabalhos cient\u00edficos e liter\u00e1rios. J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor de \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Escrita Criativa\u201d (ed. Colibri, obra recenseada no Correio do Vouga de 23 de Dezembro de 2009) e de v\u00e1rios livros de poesia e contos, Jo\u00e3o de Mancelos define-se mais como investigador do que como escritor ou professor que tamb\u00e9m \u00e9. 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