{"id":3940,"date":"2009-10-14T10:18:00","date_gmt":"2009-10-14T10:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=3940"},"modified":"2009-10-14T10:18:00","modified_gmt":"2009-10-14T10:18:00","slug":"um-violino-no-telhado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-violino-no-telhado\/","title":{"rendered":"\u00abUm violino no telhado\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu*<\/p>\n<p>* \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4)<\/p>\n<p>Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n<p> <!--more--> 29.\u00ba Domingo do Tempo Comum (Ano B)<\/p>\n<p>1.\u00aa leitura: Livro do Profeta Isa\u00edas 53, 10-11<\/p>\n<p>2.\u00aa leitura: Carta aos Hebreus 4,14-16<\/p>\n<p>Evangelho: S\u00e3o Marcos 10,35-45<\/p>\n<p>Um filme cl\u00e1ssico, dos anos 70. Entre bom humor e dramatismo, a figura principal \u2013 um judeu, s\u00e3o de corpo e alma \u2013 exclama: \u00abEu sei, Senhor, que somos o teu povo escolhido! Mas n\u00e3o poderias agora escolher outro para o fazer sofrer?\u00bb<\/p>\n<p>A 1.\u00aa leitura deste Domingo refere-se de novo ao \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb \u2013 uma figura misteriosa que os pr\u00f3prios exegetas n\u00e3o conseguem identificar: s\u00edmbolo do \u00abPovo escolhido\u00bb, no seu conjunto? S\u00edmbolo de todos aqueles que trabalham com Deus? Ou ser\u00e1 a representa\u00e7\u00e3o de algum profeta, rei ou qualquer outra personalidade, cuja ac\u00e7\u00e3o \u00e9 da maior import\u00e2ncia para o projecto da salva\u00e7\u00e3o do Homem?  \u00c9 prov\u00e1vel esta \u00faltima hip\u00f3tese \u2013 sem se aplicar necessariamente ao Messias. Como quer que seja, a miss\u00e3o do \u00abservo\u00bb \u00e9 proclamar o direito e a justi\u00e7a em toda a terra, mesmo que tenha que enfrentar persegui\u00e7\u00f5es, torturas e a morte. Proclama a certeza do sucesso final e que ficar\u00e1 para sempre \u00abjunto\u00bb do Deus vivo. <\/p>\n<p>Marcado pelo sofrimento e pelo aparente abandono de Deus, o \u00abservo\u00bb lembra um pouco o sofrimento de Job. Mas Job discute com Deus, n\u00e3o compreendendo a raz\u00e3o de ser do seu sofrimento. Uma discuss\u00e3o representativa de todas as ang\u00fastias humanas e que acaba tamb\u00e9m numa aparente frustra\u00e7\u00e3o: Deus apenas lhe faz sentir que \u00abos caminhos de Deus n\u00e3o s\u00e3o os nossos caminhos\u00bb (Isa\u00edas 55,8) e que a nossa raz\u00e3o n\u00e3o penetra o que \u00e9 Deus (Job 42,3).<\/p>\n<p>Em contraste, o \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb pouco fala. Os quatro \u00abc\u00e2nticos do servo\u00bb, dispersos nas cr\u00f3nicas do profeta Isa\u00edas, apresentam-no uma pessoa silenciosa, s\u00edmbolo da tremenda inquieta\u00e7\u00e3o sobre o sentido de toda a vida humana. Como unir Deus e Humanidade? Que realidades s\u00e3o estas? Para a linguagem humana, poderiam ser dois expoentes da for\u00e7a c\u00f3smica da vida: um, seria o expoente da pura vida sem sofrimento, sem morte, sem limita\u00e7\u00e3o alguma; o outro, o expoente da consci\u00eancia da despropor\u00e7\u00e3o entre essa pura vida e a dos seres que se transformam continuamente, de morte em morte, de dor em dor, mas tamb\u00e9m de alegria em alegria, de amor em amor, de vida em vida.<\/p>\n<p>O \u00abhomem das dores\u00bb da 1.\u00aa leitura \u00e9 o mesmo sobre quem Deus \u00abfez repousar o seu esp\u00edrito para que leve \u00e0s na\u00e7\u00f5es a verdadeira justi\u00e7a\u00bb (Isa\u00edas 42, 1). Ser\u00e1 preciso tanto sofrimento para que a justi\u00e7a se realize? As leituras dos \u00faltimos domingos juntam justi\u00e7a a mart\u00edrio: mart\u00edrio significa \u00abtestemunho volunt\u00e1rio\u00bb. O \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb testemunha como a verdadeira justi\u00e7a implica a capacidade de perseveran\u00e7a: frente \u00e0 morte, frente \u00e0 tristeza, frente \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para os seres humanos, \u00e9 essencial a esperan\u00e7a da uni\u00e3o perfeita entre Vida e Justi\u00e7a. Jesus Cristo, que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 identificou ao \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb, mostrou que o sacrif\u00edcio aut\u00eantico \u00e9 darmos a nossa vida (o nosso trabalho de todos os dias!) pela constru\u00e7\u00e3o de um mundo de justi\u00e7a. E tal como o servo, \u00abpela sua sabedoria trar\u00e1 a justi\u00e7a a multid\u00f5es de homens\u00bb (1.\u00aa leitura).<\/p>\n<p>Nos antigos rituais de sacrif\u00edcios, matavam-se animais para \u00abapaziguar a ira de Deus\u00bb, num gesto de abdica\u00e7\u00e3o de um bem. Pedia-se a Deus que esquecesse (o termo hebraico significa \u00abocultasse\u00bb) os nossos pecados. Mas o grande sentido deste conceito, j\u00e1 no Antigo Testamento, era o de perd\u00e3o: pedir o perd\u00e3o de Deus \u00e9 reconhecer as falhas que acompanham o pr\u00f3prio esfor\u00e7o em lutar pela justi\u00e7a. A reconcilia\u00e7\u00e3o entre o Homem e Deus, por\u00e9m, exige uma contrapartida: que \u00abperdoemos a quem nos tem ofendido\u00bb.<\/p>\n<p>Lembre-se, por\u00e9m, que Jesus Cristo nunca se apresentou como sacerdote, nunca exerceu essas fun\u00e7\u00f5es nem as prop\u00f4s aos seus seguidores. E quando fala dos sacerdotes, critica a sua organiza\u00e7\u00e3o demasiado \u00e0 imagem da organiza\u00e7\u00e3o do poder civil. Instituiu, isso sim, e com todo o vigor, um pequeno grupo propagador de Vida e Justi\u00e7a. Nem o sofrimento d\u00e1 direito a algu\u00e9m, como diz o evangelho, \u00abpara se sentar \u00e0 direita e \u00e0 esquerda\u00bb de Jesus (os disc\u00edpulos s\u00f3 pensavam na \u00abgl\u00f3ria\u00bb do Mestre, porque durante a  \u00abpaix\u00e3o\u00bb foi o que se viu&#8230;). <\/p>\n<p>Na realidade, Jesus Cristo n\u00e3o \u00e9 uma figura silenciosa como o servo de Jav\u00e9, e demarca-se da solenidade e import\u00e2ncia terrena de um sumo sacerdote. Fala com todos e aproveita as vistas curtas dos pr\u00f3prios ap\u00f3stolos para dar li\u00e7\u00f5es profundas aplic\u00e1veis (por vezes, de que maneira!) a todos os \u00absucessores dos ap\u00f3stolos\u00bb: \u00abSabeis que os que s\u00e3o considerados como chefes das na\u00e7\u00f5es exercem dom\u00ednio sobre elas, e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. N\u00e3o deve ser assim entre v\u00f3s. Quem de v\u00f3s quiser tornar-se grande, tem de mostrar que est\u00e1 mesmo ao servi\u00e7o dos outros\u00bb.<\/p>\n<p>Nem sempre tocaremos as nossas \u00abmelodias\u00bb no cimo de um telhado, e menos vezes veremos um coro de admiradores \u00e0 nossa volta (ou um coro de manifestantes exigindo que agora seja a vez de outro para sofrer&#8230;). Mas \u00e9 natural o desejo de nos sentirmos apreciados \u2013 \u00e9 mesmo uma necessidade b\u00e1sica, a que corresponde o dever de mostrar aos outros, sempre que oportuno, o nosso apre\u00e7o. \u00c9 uma maneira, ao alcance de qualquer um de n\u00f3s, de repor a ideia de justi\u00e7a, para a qual ningu\u00e9m se pode conformar perante o sofrimento, que tanto atinge \u00abos maus\u00bb como \u00abos bons\u00bb. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb acaba por ser glorificado por Deus. <\/p>\n<p>N\u00e3o precisou Jesus de se refugiar no carinho de gente amiga? Precisamos de treinar aquelas manifesta\u00e7\u00f5es de apre\u00e7o, aquela companhia amiga, aqueles di\u00e1logos onde h\u00e1 cr\u00edticas e sugest\u00f5es\u2026 que favorecem a forma\u00e7\u00e3o de pessoas suficientemente corajosas para proclamar e construir um mundo novo.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu* * \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4) Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-3940","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3940","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3940"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3940\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}