{"id":4082,"date":"2009-10-28T11:51:00","date_gmt":"2009-10-28T11:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4082"},"modified":"2009-10-28T11:51:00","modified_gmt":"2009-10-28T11:51:00","slug":"deus-e-misericordioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/deus-e-misericordioso\/","title":{"rendered":"Deus \u00e9 misericordioso"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou apreciador da escrita de Jos\u00e9 Saramago, mas n\u00e3o desconsidero a sua obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Como autor e cidad\u00e3o, Jos\u00e9 Saramago tem todo o direito de exprimir as suas ideias sobre tudo e mais alguma coisa. <\/p>\n<p>E, naturalmente, de expressar com clareza, frontalidade e liberdade o seu ate\u00edsmo militante. Seja nos seus livros, seja nos seus ditos. <\/p>\n<p>Mas para se ser respeitado nas suas opini\u00f5es, \u00e9 preciso ter-se a intelig\u00eancia, a razoabilidade e a prud\u00eancia de se dar ao respeito.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 Saramago defender o seu pensamento livre. Outra \u00e9 o modo como o faz. Com acidez, arrog\u00e2ncia, intoler\u00e2ncia e sectarismo extremos. <\/p>\n<p>Pretensamente auto-dotado de uma superioridade intelectual e moral desde que foi galardoado com o Nobel acha-se pateticamente acima dos outros. Por isso, n\u00e3o argumenta, agride. N\u00e3o opina, sentencia. N\u00e3o confronta, insulta. N\u00e3o esclarece, obscurece. N\u00e3o convoca, provoca. N\u00e3o fundamenta, opta pelo fundamentalismo.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que, depois de tudo o que diz e escreve com a liberdade de que, ali\u00e1s, felizmente disp\u00f5e, estranha as posi\u00e7\u00f5es de quem o confronta. Nada que me espante, sabendo-se do modo como tratava os \u201cdelitos de opini\u00e3o\u201d, por exemplo, quando foi director de um jornal\u2026<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago \u00e9 um paradoxo: \u00e9 religiosamente anti-religioso. O seu proselitismo \u00e9 a express\u00e3o de uma nova moda religiosa: o ate\u00edsmo pretensa-mente humanista.<\/p>\n<p>Saramago acaba de editar mais um livro e aproveita a ocasi\u00e3o para um diktat gratuito t\u00e3o ao seu gosto pessoal. A Deus tudo culpa, a Deus chama tudo o que de mal possa haver, ao mesmo tempo que diz n\u00e3o existir. Em que ficamos? <\/p>\n<p>A B\u00edblia, para ele, \u00e9 um manual de maus costumes e um cat\u00e1logo de crueldades, num recorrente certificado de menoridade antropol\u00f3gica do pr\u00f3prio homem. N\u00e3o percebe que a B\u00edblia (e sobretudo o Antigo Testamento) \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria da condi\u00e7\u00e3o humana feita de luz e de sombras, do bem e do mal que coexistem por conta da liberdade humana. Deus n\u00e3o nos fez robots. Logo a seguir a Caim e Abel, Deus diz \u201cMeu esp\u00edrito n\u00e3o se responsabilizar\u00e1 indefinidamente pelo homem\u201d (G\u00e9nesis 6,3).<\/p>\n<p>Saramago olha para a B\u00edblia e interpreta-a rudemente \u00e0 letra, sem contextualiza\u00e7\u00e3o, como se estivesse a ser escrita agora. S\u00f3 lhe falta um Deus a comunicar por telem\u00f3vel.<\/p>\n<p>Saramago odeia visceral e mefistofelicamente a ideia de Deus e dos Livros Sagrados. Est\u00e1 no seu direito. Mas rev\u00ea-se no estalinismo, nos seus gulags e pogroms, para ele, por certo, \u00edcones dos bons costumes e das boas pr\u00e1ticas. <\/p>\n<p>Saramago \u00e9 um incompreendido. Nega um Deus (que, apesar de n\u00e3o existir, \u00e9 a causa de todos os males\u2026) que, todavia, n\u00e3o \u00e9 capaz de esquecer. Deus n\u00e3o existe mas n\u00e3o lhe sai do pensamento. Estranho, n\u00e3o \u00e9? \u00c0 conta deste pesadelo, decreta impositivamente um atestado de quase insanidade sobre os que, para si incompreensivelmente, cr\u00eaem em Deus. Saramago procura chamar \u00e0 realidade milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas que, ao longo dos tempos, vivem nas trevas, sem intelig\u00eancia e discernimento, manipuladas por um Deus menor. Cautelosamente, o Deus menor da B\u00edblia que n\u00e3o o do Cor\u00e3o \u2026<\/p>\n<p>Enquanto cat\u00f3lico, n\u00e3o sou nem mais nem menos pessoa do que Saramago. Mas tenho o direito \u00e0 defesa dos valores em que acredito. N\u00e3o me revejo nos arautos da atitude pol\u00edtica e religiosamente correcta que, com calculista \u201crespeitinho\u201d pelo Nobel, se remetem a uma esp\u00e9cie de coliga\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio. Como tamb\u00e9m n\u00e3o perfilho a ideia da indiferen\u00e7a ou da contrafac\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o. A f\u00e9 \u00e9 um acto de liberdade porque sem liberdade n\u00e3o haveria qualquer m\u00e9rito em crer. <\/p>\n<p>Que esta pol\u00e9mica de puro marketing tenha pelo menos a vantagem de levar mais crist\u00e3os a ler ou reler a B\u00edblia. S\u00f3 por isso agrade\u00e7o a Saramago. <\/p>\n<p>Quanto ao resto, a publicidade n\u00e3o \u00e9 uma medida divina. Deus \u00e9 misericordioso e perdoa a Saramago. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou apreciador da escrita de Jos\u00e9 Saramago, mas n\u00e3o desconsidero a sua obra liter\u00e1ria. Como autor e cidad\u00e3o, Jos\u00e9 Saramago tem todo o direito de exprimir as suas ideias sobre tudo e mais alguma coisa. E, naturalmente, de expressar com clareza, frontalidade e liberdade o seu ate\u00edsmo militante. Seja nos seus livros, seja nos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-4082","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4082","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4082"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4082\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4082"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4082"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}