{"id":4170,"date":"2009-11-11T10:23:00","date_gmt":"2009-11-11T10:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4170"},"modified":"2009-11-11T10:23:00","modified_gmt":"2009-11-11T10:23:00","slug":"a-autoridade-deve-ter-como-fim-o-bem-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-autoridade-deve-ter-como-fim-o-bem-comum\/","title":{"rendered":"A autoridade deve ter como fim o bem comum"},"content":{"rendered":"<p>D. Carlos Azevedo \u00e9 presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Pastoral Social, que promove de 20 a 22 de Novembro a Semana Social 2009. O encontro de Aveiro, no Centro Cultural e de Congressos, tem como tema geral \u201cA constru\u00e7\u00e3o do bem comum: Responsabilidade da Pessoa, da Igreja e do Estado\u201d. Ao Correio do Vouga, D. Carlos Azevedo nota n\u00e3o s\u00f3 a \u201cclamorosa aus\u00eancia de consci\u00eancia c\u00edvica\u201d dos portugueses, que se habituaram a que \u201calgu\u00e9m resolvesse os seus problemas\u201d, como tamb\u00e9m a dificuldade de levar a cabo reformas estruturais que \u201cquebrem os atrasos e enfrentem grupos instalados\u201d.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; O conceito de \u201cBem Comum\u201d, t\u00e3o caro ao pensamento social cat\u00f3lico, anda arredado das discuss\u00f5es e op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou de algum modo foi substitu\u00eddo por outros como o \u201cdesenvolvimento\u201d e \u201cbem-estar\u201d? H\u00e1 algo de intrinsecamente crist\u00e3o neste conceito?<\/p>\n<p>D. CARLOS AZEVEDO &#8211; Embora o conceito de bem comum seja assumido e se desenvolva na vis\u00e3o personalista crist\u00e3 e seja valorizado como princ\u00edpio fundamental da Doutrina social da Igreja, ele \u00e9 decorrente da ordem natural da vida em sociedade. S\u00f3 uma vis\u00e3o que atende prevalentemente aos direitos individuais ou a press\u00f5es de grupos sociais mais fortes esquece o bem comum como crit\u00e9rio personalizador da vida social e base de todo o exerc\u00edcio da autoridade. A perspectiva do desenvolvimento est\u00e1 inclu\u00edda porque o bem comum tem como objectivo criar condi\u00e7\u00f5es sociais que permitam ao ser humano o desenvolvimento pleno e integral da sua perfei\u00e7\u00e3o, como afirma a Gaudium et Spes e Bento XVI desenvolve na recente enc\u00edclica. Se tiv\u00e9ssemos em conta que a raz\u00e3o de ser da autoridade \u00e9 \u00fanica e exclusivamente o bem comum, ser\u00edamos mais exigentes com quem assume a miss\u00e3o de governo, de direc\u00e7\u00e3o, capaz de requerer obedi\u00eancia. <\/p>\n<p>Olhando para a sociedade portuguesa actual, como s\u00e3o os pap\u00e9is dos cidad\u00e3os, da Igreja e do Estado na constru\u00e7\u00e3o do bem comum? Confundem-se? Colidem? Cooperam? Remetem para o outro as responsabilidades pr\u00f3prias?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma responsabilidade pr\u00f3pria a cada n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o. \u00c9 clamorosa a aus\u00eancia de consci\u00eancia c\u00edvica em grande parte da popula\u00e7\u00e3o portuguesa que se habituou a que algu\u00e9m resolvesse os seus problemas, sem participar localmente em modos de defesa do bem comum, que treinassem para uma mesma consci\u00eancia em c\u00edrculos mais alargados at\u00e9 ao internacional. O individualismo ou bairrismo impedem uma verdadeira regionaliza\u00e7\u00e3o, passo para a colabora\u00e7\u00e3o com o bem nacional. Os cidad\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o meros receptores ou benefici\u00e1rios dos fins sociais. Devem ser criadores.<\/p>\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado em campos como o ensino, a sa\u00fade e diversos servi\u00e7os sociais \u00e9 a atitude recomendada para servi\u00e7o do bem comum. A proximidade que as comunidades crist\u00e3s t\u00eam da vida concreta das pessoas conduziram a Igreja a assumir tarefas que ningu\u00e9m desempenhava. Quando o Estado cresce no controle directo de todos os sectores da vida social rouba \u00e0 sociedade civil o que ela faz melhor do que a m\u00e1quina estatal. Garantir o bem comum n\u00e3o \u00e9 absorver toda a actividade, mas antes atender com rigor \u00e0 justa distribui\u00e7\u00e3o dos meios e regular os agentes e institui\u00e7\u00f5es sociais no desempenho criterioso dos direitos e deveres humanos.<\/p>\n<p>No Portugal de hoje, no seu entender, quais s\u00e3o as falhas mais graves do Bem Comum? O funcionamento da justi\u00e7a? A pobreza e a desigualdade?<\/p>\n<p>A pobreza \u00e9 uma consequ\u00eancia das incapacidades para p\u00f4r fim a um estilo de vida e a op\u00e7\u00f5es criadoras de desigualdades. O mais grave vejo-o na dificuldade de proceder a reformas estruturais que quebrem os atrasos e enfrentem grupos instalados. A sa\u00fade financeira do pa\u00eds \u00e9 fundamental para dedicar os poucos meios a um desenvolvimento que privilegie o que melhor prepara o futuro. An\u00e1lises est\u00e3o feitas mas tem faltado governan\u00e7a operativa que lidere as transforma\u00e7\u00f5es, dentro de uma cultura de responsabilidade solid\u00e1ria e de m\u00fatua exig\u00eancia. Os actuais novelos da justi\u00e7a e da educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o decorrentes da falta de firmeza de um Portugal constru\u00eddo fiel \u00e0 sua identidade.<\/p>\n<p>Vejo crescer uma nova gera\u00e7\u00e3o aberta a uma mais hol\u00edstica vis\u00e3o do bem comum, que conte com a espiritualidade, a arte, o ambiente, a ternura, os bens para al\u00e9m do econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>Por vezes parece a vis\u00e3o cat\u00f3lica da sociedade n\u00e3o \u00e9 bem-vinda na discuss\u00f5es p\u00fablicas. O lugar e a contribui\u00e7\u00e3o dos cat\u00f3licos na edifica\u00e7\u00e3o do Bem Comum est\u00e1 em risco? Como conjugar a vis\u00e3o crist\u00e3 da vida e da sociedade com o ambiente cultural de relativismo e de m\u00faltiplas vis\u00f5es em que vivemos?<\/p>\n<p>A rejei\u00e7\u00e3o ou a indiferen\u00e7a perante a vis\u00e3o crist\u00e3 da sociedade podem ter a ver com a perspectiva prof\u00e9tica e cr\u00edtica que n\u00e3o se acomoda e aponta crit\u00e9rios profundamente humanistas, integrais, universais que vinculam moralmente. A aus\u00eancia de fins \u00faltimos e de aten\u00e7\u00e3o ao transcendente cria choque cultural. Mas a rejei\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m ter a ver com vis\u00f5es incapazes de integrar a conquista das ci\u00eancias e com a escassez de exemplos vivos, de testemunhos concretos da plenitude de perfei\u00e7\u00e3o humana que se anseia construir no sentido do bem comum teoricamente indicado na doutrina defendida. Ora, a sensibilidade contempor\u00e2nea atende e acolhe a bondade total e simples de quem se entrega, por causa do Sumo Bem, ao bem de todos na constru\u00e7\u00e3o livre do bem comum.<\/p>\n<p>O que espera desta Semana Social?<\/p>\n<p>Espero que a Semana Social 2009, de Aveiro, seja uma reflex\u00e3o profunda sobre os deveres sociais que responsabilizem cada cidad\u00e3o, se encontrem orienta\u00e7\u00f5es para a Igreja rever o seu modo de servir a sociedade na fidelidade ao Evangelho de Jesus, se identifiquem as fun\u00e7\u00f5es do Estado na profunda crise de valores para n\u00e3o perder o respeito dos cidad\u00e3os e ter direito a ser obedecido. Da harmonia destas responsabilidades resultar\u00e1 a descoberta de vias que firmem passos seguros e articulados nos anos pr\u00f3ximos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Carlos Azevedo \u00e9 presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Pastoral Social, que promove de 20 a 22 de Novembro a Semana Social 2009. 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