{"id":420,"date":"2010-01-20T12:02:00","date_gmt":"2010-01-20T12:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=420"},"modified":"2010-01-20T12:02:00","modified_gmt":"2010-01-20T12:02:00","slug":"viver-para-os-pobres-morrer-com-eles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/viver-para-os-pobres-morrer-com-eles\/","title":{"rendered":"Viver para os pobres, morrer com eles"},"content":{"rendered":"<p>Escrevo esta cr\u00f3nica dois dias ap\u00f3s a pior cat\u00e1strofe do rec\u00e9m-iniciado ano de 2010, provavelmente uma das mais mort\u00edferas na hist\u00f3ria recente da humanidade \u2013 um sismo de magnitude 7.0 no Haiti, o pa\u00eds mais pobre da Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n<p>Entretanto, ao pesquisar informa\u00e7\u00f5es sobre o sucedido, reconheci um nome entre os milhares de v\u00edtimas an\u00f3nimas: Zilda Arns, pediatra brasileira, fundadora da Pastoral Crian\u00e7a, que tinha chegado \u00e0 capital haitiana no dia do terramoto para dar algumas palestras sobre combate \u00e0 desnutri\u00e7\u00e3o e mortalidade infantis.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 70 e in\u00edcios dos anos 80, a Igreja Cat\u00f3lica, no Brasil, tentava corresponder de forma prof\u00e9tica aos desafios do Conc\u00edlio. Come\u00e7ou, por isso, a estruturar comiss\u00f5es pastorais que atendessem os mais pobres, os mais exclu\u00eddos. O ent\u00e3o cardeal de S. Paulo, Dom Paulo Evaristo, preocupado com os elevados n\u00edveis de mortalidade infantil no Brasil, convidou a sua irm\u00e3 Zilda, m\u00e9dica pediatra, a iniciar um projecto que prestasse aten\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as mais desfavorecidas. Em 1983, foi criada uma organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria a que se deu o nome de Pastoral da Crian\u00e7a. Idealizada pela Dr.\u00aa Zilda com o objectivo de ajudar ao desenvolvimento integral das crian\u00e7as, desde a sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 idade escolar, \u201cpromovendo, em fun\u00e7\u00e3o delas, tamb\u00e9m as suas fam\u00edlias e as suas comunidades, sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, cor, profiss\u00e3o, nacionalidade, sexo, credo religioso ou pol\u00edtico\u201d, rapidamente se tornou na maior organiza\u00e7\u00e3o de voluntariado do mundo inteiro. <\/p>\n<p>Conheci de perto o trabalho da Pastoral da Crian\u00e7a durante os anos que estive em miss\u00e3o no Nordeste Brasileiro. Posso testemunhar os \u201cmilagres\u201d que faziam as l\u00edderes da Pastoral, na sua maioria mulheres simples do campo, quase sem instru\u00e7\u00e3o escolar, que recebiam forma\u00e7\u00e3o e da\u00ed palmilhavam, voluntariamente, centenas de quil\u00f3metros por m\u00eas, visitando os povoados no interior do \u201cmato\u201d, acompanhando as fam\u00edlias, orientando-as sobre o desenvolvimento da crian\u00e7a desde o \u00fatero materno, sobre o valor nutritivo dos alimentos, alertando para a import\u00e2ncia do aleitamento materno, do controle da desnutri\u00e7\u00e3o, a obesidade, as doen\u00e7as respirat\u00f3rias e as diarreias, generalizando o uso do soro caseiro, medindo e pesando crian\u00e7as, fazendo a preven\u00e7\u00e3o de acidentes dom\u00e9sticos&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, gra\u00e7as \u00e0 vis\u00e3o da Dr.\u00aa Zilda Arns e ao trabalho de milha-res de volunt\u00e1rias, conseguiu-se que, nas comunidades atendidas pela Pastoral da Crian\u00e7a, a taxa de mortalidade infantil descesse dos mais de 100 \u00f3bitos por cada mil crian\u00e7as, nos anos 70, para os 11 \u00f3bitos por cada mil crian\u00e7as, actualmente. Um aut\u00eantico milagre!<\/p>\n<p>Do Brasil o \u201cmilagre\u201d internacionalizou-se, primeiro para a Am\u00e9rica Latina, depois para os pa\u00edses africanos de l\u00edngua portuguesa e hoje em dia chega a quase trinta pa\u00edses do mundo, mesmo nos distantes Filipinas e Timor-Leste. Por isso mesmo, a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o foi v\u00e1rias vezes nomeada para Pr\u00e9mio Nobel da Paz. Quem sabe, o pouco protagonismo pol\u00edtico da Pastoral n\u00e3o a tenha impedido de ganhar esse galard\u00e3o, mas a Dr.\u00aa Zilda, determinada como estava a potencializar o trabalho de combate \u00e0 mortalidade e \u00e0 desnutri\u00e7\u00e3o infantis no pa\u00eds mais pobre da Am\u00e9rica Latina, acabou por ter a coroa mais importante de todas: estava junto dos pobres e com eles se identificou tanto que acabou por deixar, junto deles, a sua vida, num fat\u00eddico final de tarde, na capital haitiana de Port-au-Prince.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o sempre os mais pobres que sofrem mais\u201d<\/p>\n<p>Ouvi, como fa\u00e7o regularmente, uma cr\u00f3nica radiof\u00f3nica do jornalista Fernando Alves, desta vez a prop\u00f3sito do sismo no Haiti. Discorria sobre o facto da pobreza \u201catrair o desastre\u201d e insurgia-se contra o esquecimento a que s\u00e3o votados os pa\u00edses mais pobres do mundo. Na verdade, muitos de n\u00f3s nos perguntamos \u2013 como a declara\u00e7\u00e3o da ONG Oxfam, em Espanha, a que o jornalista fazia refer\u00eancia \u2013 \u201cporque \u00e9 que s\u00e3o sempre os mais pobres da Terra aqueles que sofrem as piores consequ\u00eancias das cat\u00e1strofes naturais?\u201d. A resposta \u00e9 clara: porque na maioria das situa\u00e7\u00f5es, a pobreza torna os povos mais vulner\u00e1veis e porque n\u00f3s, nos pa\u00edses ditos mais desenvolvidos, permitimos que o sistema econ\u00f3mico vigente continue a aprofundar a exclus\u00e3o e a adiar op\u00e7\u00f5es que possam trazer mais justi\u00e7a e igualdade.<\/p>\n<p>Por tudo isto, \u00e9 necess\u00e1rio aproveitar a mediatiza\u00e7\u00e3o do terramoto no Haiti para agitar consci\u00eancias, para fixarmos os nossos olhos nos inconformados que, como a Dr.\u00aa Zilda Arns, d\u00e3o a sua vida para que os pobres sejam ouvidos e para que a sua exist\u00eancia seja mais digna. H\u00e1 que seguir-lhes o exemplo, j\u00e1! Pois como disse o seu irm\u00e3o, Dom Paulo Arns, ao saber da morte da sua irm\u00e3: \u201cN\u00e3o \u00e9 hora de perder a esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevo esta cr\u00f3nica dois dias ap\u00f3s a pior cat\u00e1strofe do rec\u00e9m-iniciado ano de 2010, provavelmente uma das mais mort\u00edferas na hist\u00f3ria recente da humanidade \u2013 um sismo de magnitude 7.0 no Haiti, o pa\u00eds mais pobre da Am\u00e9rica Latina. 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