{"id":4244,"date":"2009-11-18T10:51:00","date_gmt":"2009-11-18T10:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4244"},"modified":"2009-11-18T10:51:00","modified_gmt":"2009-11-18T10:51:00","slug":"historias-de-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/historias-de-reis\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias de reis"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu *<\/p>\n<p>* \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4)<\/p>\n<p>Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n<p> <!--more--> 34.\u00ba Domingo do tempo comum (ano B)<\/p>\n<p>1.\u00aa Leitura: Livro do profeta Daniel 7, 13-14<\/p>\n<p>2.\u00aa Leitura: Livro do Apocalipse 1, 5-8<\/p>\n<p>Evangelho: Jo\u00e3o 18, 33-37<\/p>\n<p>Foi o Papa Pio XI, que tinha por divisa \u00aba paz de Cristo no Reino de Cristo\u00bb, quem instituiu, em 1925, a \u00abSolenidade de Jesus Cristo rei e senhor do universo\u00bb. Muito interventivo na organiza\u00e7\u00e3o quer religiosa quer pol\u00edtica, publicou, em 1937, duas enc\u00edclicas contra o regime totalit\u00e1rio \u2013 incompat\u00edvel com a liberdade e supremacia de Cristo (era o tempo de Hitler e Mussolini). A insist\u00eancia no \u00abreino de Cristo\u00bb, paradoxalmente, prejudicou o movimento ecum\u00e9nico, mas deu origem aos v\u00e1rios movimentos de Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, bem como a novo dinamismo da obra mission\u00e1ria. <\/p>\n<p>Para defender a Igreja \u2013 entendida como imagem vis\u00edvel do Reino de Cristo \u2013 de qualquer sujei\u00e7\u00e3o ao poder civil, estabeleceu concordatas com o M\u00e9xico e com o regime de Hitler (ambas em 1933, sendo a \u00faltima de pouca dura) e com o governo de It\u00e1lia (1929). Garantiu deste modo a independ\u00eancia do Vaticano e a neutralidade pol\u00edtica nos conflitos de todo o mundo, ao mesmo tempo que poderia intervir, como chefe da Igreja Cat\u00f3lica, no cuidado dos seus membros, e erguer a voz na luta contra a pobreza e contra os inimigos da \u00abpaz verdadeira\u00bb.<\/p>\n<p>A Solenidade de Jesus Cristo Rei nasceu assim num ambiente de grande instabilidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica. Tamb\u00e9m as duas leituras e o Evangelho foram escritos num clima de persegui\u00e7\u00e3o e instabilidade, prop\u00edcio ao desenvolvimento da literatura apocal\u00edptica (ver o coment\u00e1rio ao domingo passado). Neles encontramos alguns dos temas fortes desta literatura: o Rei (todas as leituras), sempre com alguma mistura de messianismo terreno; o ex\u00edlio (1.\u00aa leitura); as grandes persegui\u00e7\u00f5es de Nero at\u00e9 Domiciano, passando pela destrui\u00e7\u00e3o do Templo por Vespasiano, no ano 70 (2.\u00aa leitura).<\/p>\n<p>Hoje em dia, a Igreja continua perseguida pelo poder pol\u00edtico. Nalguns pa\u00edses, como em Portugal, insidiosamente \u2013 o que a faz correr o risco de parecer, por vezes, demasiado ocupada num jogo de competi\u00e7\u00e3o de poder com o Estado (utilizando at\u00e9 estrat\u00e9gias semelhantes). De resto, \u00e9 positivo que seja um sinal de contradi\u00e7\u00e3o perante o ego\u00edsmo, corrup\u00e7\u00e3o e injusti\u00e7a dos grupos detentores de poder pol\u00edtico e econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>A ideia que \u00abo Senhor \u00e9 rei\u00bb (Salmo 92) \u00e9 vincada pelo salmo responsorial, como profecia da aclama\u00e7\u00e3o a Jesus Cristo, aquando da sua entrada em Jerusal\u00e9m (S. Marcos, 11, 10), mesmo antes da Paix\u00e3o. Por\u00e9m, em ambos os casos, s\u00e3o gritos caracter\u00edsticos do sonho de um Messias-rei, restaurador da gl\u00f3ria de Israel \u2013 o \u00abgrande guerreiro\u00bb, que os \u00abPapas imperadores\u00bb (classifica\u00e7\u00e3o aplicada a alguns pont\u00edfices que a mereceram) acharam por bem imitar: v\u00e1rias vezes, impuseram a f\u00e9 crist\u00e3 pela for\u00e7a e escolheram eles pr\u00f3prios os sucessores no papado, com a pretensa base de serem o representante na terra do \u00abRei dos reis\u00bb, a quem era devido o dom\u00ednio absoluto. <\/p>\n<p>Constantino, o 1.\u00ba imperador crist\u00e3o (324-337), aproveitou-se desta aura divina para expandir o cristia-nismo ao estilo de um \u00abimperador sagrado\u00bb, consciente de que a fus\u00e3o do \u00abreino de Deus\u00bb com o imp\u00e9rio romano ajudava os interesses pol\u00edticos. De facto, facilitou a unifica\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio e a forma\u00e7\u00e3o da \u00abcristandade\u00bb (conjunto dos pa\u00edses e povos crist\u00e3os, que moldaram, a partir do s\u00e9c. V, os princ\u00edpios sociais e pol\u00edticos geradores da Europa como unidade cultural), mas o joio n\u00e3o tardou a abafar o trigo. Os imperadores crist\u00e3os arrogaram-se representantes de Deus na terra, defensores da verdadeira f\u00e9 e protectores providenciais da Igreja \u2013 identificada ao pr\u00f3prio Estado. Como chefes supremos da pol\u00edtica e da religi\u00e3o, convocavam conc\u00edlios e nomeavam o alto clero. Teod\u00f3sio o Grande (379-395) adoptou oficialmente o cristianismo como religi\u00e3o do Estado \u2013 a heresia era punida como crime contra o Estado, dando origem a persegui\u00e7\u00f5es, sobretudo contra os judeus, descontrolando os impulsos violentos de muitos adeptos. No s\u00e9c. VI, o imperador Justiniano consolidou a estrutura crist\u00e3 do imp\u00e9rio, extinguindo as ainda existentes institui\u00e7\u00f5es pag\u00e3s.<\/p>\n<p> Esta confus\u00e3o entre for\u00e7a f\u00edsica e for\u00e7a espiritual, entre chefe pol\u00edtico e chefe religioso, favoreceu uma linguagem e t\u00e9cnica pr\u00f3prias de uma organiza\u00e7\u00e3o militar, manifesta em fen\u00f3menos distintos como as cruzadas, a inquisi\u00e7\u00e3o, a contra-reforma e o pr\u00f3prio movimento mission\u00e1rio. Felizmente, v\u00e1rios representantes m\u00e1ximos do catolicismo reconheceram e tiraram proveito dos erros do passado e v\u00e3o renunciando a manifesta\u00e7\u00f5es de riqueza e poder.<\/p>\n<p>A imagem de Imperador e de Rei continua a fascinar como s\u00edmbolo de poder e de grandeza, da for\u00e7a da unidade, da seguran\u00e7a e da esperan\u00e7a. Estabelece a liga\u00e7\u00e3o entre o ser humano (representando a sua hist\u00f3ria) e a divindade (forma perfeita da exist\u00eancia). \u00c9 empolgante ver um bom rei conduzindo um ex\u00e9rcito vitorioso. Facilmente arrasta multid\u00f5es \u2013 mas que tanto se podem entusiasmar pela defesa do bem comum como apenas pela defesa do proveito pr\u00f3prio. Pode mesmo excitar os menos s\u00e1bios a matar em nome da f\u00e9 nesse rei. <\/p>\n<p>Na 1.\u00aa leitura, o profeta Daniel evoca a misteriosa figura do \u00abfilho de homem\u00bb (ou um ser com apar\u00eancia humana), chamado por Deus a presidir \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o perfeita do universo. <\/p>\n<p>Cabe \u00e0 2.\u00aa leitura reconhecer Jesus como a grande testemunha de Deus, o cumpridor fiel das exig\u00eancias dessa orienta\u00e7\u00e3o, acima de toda a soberania terrena. E fala de todos os crist\u00e3os como \u00abum reino\u00bb e como \u00absacerdotes\u00bb. Como novos \u00absacerdotes\u00bb, estamos convidados ao verdadeiro culto que nos liga a Deus (a que aludia Jesus ao falar com a samaritana, na linha dos antigos profetas) \u2013 e que \u00e9 \u00abviver a s\u00e9rio\u00bb, tirando partido do trabalho e do lazer para multiplicar a alegria e a justi\u00e7a, garantindo um proveito aut\u00eantico para a Humanidade. E como mat\u00e9ria-prima de \u00abum reino\u00bb, afirmamos que queremos ser os seguidores sem fingimento do optimismo radical (ousado e prudente!) de Deus. <\/p>\n<p>Finalmente, o evangelista refere que Jesus se afirmou \u00abrei\u00bb \u2013 no m\u00ednimo estranho: n\u00e3o joga com as regras da pol\u00edtica \u00abc\u00e1 de baixo\u00bb (que muitas vezes \u00e9 mesmo baixa), porque \u00e9 rei a s\u00e9rio. \u00abRei\u00bb \u00e9 aquele que estabelece as \u00abregras\u00bb, \u00abdirigindo\u00bb pelos caminhos \u00abrectos\u00bb (palavras com o mesmo radical indo-europeu \u00abreg\u00bb). Longe das vulgares formas exteriores do poder, Jesus fala de um \u00abreino\u00bb assente nas formas interiores da autoridade. Esta interioridade, s\u00f3 ating\u00edvel por quem d\u00e1 tempo \u00e0 medita\u00e7\u00e3o, \u00e9 que garante o \u00fanico saneamento eficaz da corrup\u00e7\u00e3o das nossas formas de poder. <\/p>\n<p>Jesus Cristo veio a este mundo \u00abpara dar testemunho da verdade\u00bb, e a verdade \u00e9 Deus. Ao oferecer a vida, como verdadeiro \u00abtesta de ferro\u00bb (a \u00abtestemunha fiel\u00bb da 2.\u00aa leitura) de toda a Humanidade, deixou aos seguidores a heran\u00e7a seguramente real: a coragem de querer a verdade.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu * * \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4) Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-4244","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4244"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4244\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}