{"id":4257,"date":"2009-11-04T10:41:00","date_gmt":"2009-11-04T10:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4257"},"modified":"2009-11-04T10:41:00","modified_gmt":"2009-11-04T10:41:00","slug":"todos-devem-sentir-se-responsaveis-pela-reinsercao-do-ex-presos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/todos-devem-sentir-se-responsaveis-pela-reinsercao-do-ex-presos\/","title":{"rendered":"Todos devem sentir-se respons\u00e1veis pela reinser\u00e7\u00e3o do ex-presos"},"content":{"rendered":"<p>Segunda parte da entrevista ao Coordenador Nacional da Pastoral Penitenci\u00e1ria, P.e Jo\u00e3o Gon\u00e7alves, sacerdote da Diocese de Aveiro<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; As pessoas t\u00eam a ideia de que muitos dos presos j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam emenda, havendo quem defenda para certos crimes a pris\u00e3o perp\u00e9tua. Um preso tem a sensibilidade para vir a ser reintegrado na sociedade?<\/p>\n<p>P.E JO\u00c3O GON\u00c7ALVES &#8211; N\u00f3s acreditamos que a pessoa pode ser recuperada. H\u00e1 aqueles casos de doen\u00e7as, mas a\u00ed o caso \u00e9 diferente porque s\u00e3o pessoas doentes com propens\u00e3o para o crime. Essas pessoas n\u00e3o est\u00e3o nas cadeias mas nos hospitais. N\u00f3s temos uma atitude radical contra a pena de morte e tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua, porque entendemos que a pessoa pode ser sempre recuperada. Ter\u00e1 \u00e9 que ser acompanhada e \u00e9 nesse acompanhamento que se deve investir muitas for\u00e7as, quer em recursos humanos quer em termos financeiros. \u00c9 evidente que n\u00e3o concordamos com o crime que a pessoa cometeu, mas amamos a pessoa. Aqui estamos perante uma pessoa que putativamente ter\u00e1 cometido um crime, mas que acreditamos que possa ser recuperada.<\/p>\n<p>Na pris\u00e3o o preso tem acompanhamento. Os problemas surgem quando ocorre a sua liberta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A vida de um preso tem sempre tr\u00eas tempos: o tempo do antes do crime, o tempo da reclus\u00e3o e o tempo de ap\u00f3s pris\u00e3o, em que decorre a reinser\u00e7\u00e3o social. \u00c9 importante ver de onde \u00e9 que a pessoa veio, qual era o seu ambiente familiar, social e profissional antes de ter cometido qualquer tipo de il\u00edcito. O tempo de pris\u00e3o deve ser de reflex\u00e3o, de reconcilia\u00e7\u00e3o consigo mesmo e de projec\u00e7\u00e3o para o seu futuro. A sua reinser\u00e7\u00e3o come\u00e7a j\u00e1 na pris\u00e3o. Toda a preocupa\u00e7\u00e3o do sistema, das pessoas que prestam servi\u00e7o como volunt\u00e1rios ou como quadros dos servi\u00e7os prisionais, deve orientar-se para a reinser\u00e7\u00e3o social. Aqui, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os servi\u00e7os da Direc\u00e7\u00e3o Geral da Reinser\u00e7\u00e3o Social ou da Direc\u00e7\u00e3o Geral dos Servi\u00e7os Prisionais que devem intervir, mas toda a sociedade, e \u00e9 aqui que h\u00e1 a grande falha, por falta de informa\u00e7\u00e3o, de uma cultura solid\u00e1ria neste campo concreto. Toda a sociedade deve sentir-se responsabilizada pela inser\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que passou por uma cadeia, at\u00e9 porque se essa pessoa estava fragilizada, e da\u00ed ter cometido um il\u00edcito, ela tamb\u00e9m deve ser ajudada a inserir-se socialmente. Isso compete a toda a gente e n\u00e3o s\u00f3 aos servi\u00e7os estatais ou governamentais. Compete \u00e0 fam\u00edlia, par\u00f3quia, comunidade, organiza\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es, empresas, empregadores. Temos de ser todos solid\u00e1rios, a n\u00e3o ser que queiramos que a pessoa, por n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de acolhimento, volte novamente para o mundo da criminalidade ou da marginalidade.<\/p>\n<p>No p\u00f3s-pris\u00e3o, apresentar a um empregador um curr\u00edculo em que conste \u201cex-prisioneiro\u201d n\u00e3o ser\u00e1 nada vantajoso&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Temos que ser todos muito verdadeiros. O facto de algu\u00e9m ter passado por uma cadeia, n\u00e3o pode ser impedimento para um emprego, porque o facto de ter estado na cadeia n\u00e3o significa que essa pessoa seja irrecuper\u00e1vel, que seja carregada de defeitos e de quem vamos, \u00e0 partida, desconfiar em todos os aspectos, quer no laboral, quer da confian\u00e7a ou da rentabilidade. Temos de estar cientes de que temos diante de n\u00f3s uma pessoa, e essa pessoa precisa de aten\u00e7\u00e3o e de acolhimento. Quanto mais n\u00f3s afastamos os ex-reclusos e mais os impedimos de se inserirem no mundo laboral e na sociedade, mais essa pessoa vai ficando na margem da sociedade. Ao empurrarmos pessoas para a margem da sociedade estamos a ser co-respons\u00e1veis. N\u00e3o podemos dizer que o crime \u00e9 fruto de si mesmo, porque, muitas vezes, o crime \u00e9 fruto do ambiente da pessoa e das suas circunst\u00e2ncias. Toda a gente deve estar fortemente consciencializada de que ajudar algu\u00e9m que saiu da pris\u00e3o \u00e9 ajudar algu\u00e9m a reconstituir a sua vida e \u00e9 ajudar algu\u00e9m a inserir-se num mundo capaz, num mundo bom onde a pessoa se sinta \u00fatil. Isso tem uma consequ\u00eancia pr\u00e1tica, que \u00e9 termos uma sociedade mais equilibrada e sem medos.<\/p>\n<p>Qual a aten\u00e7\u00e3o prestada \u00e0s v\u00edtimas? <\/p>\n<p>As dioceses devem organizar-se numa verdadeira pastoral penitenci\u00e1ria, que n\u00e3o tem a ver s\u00f3 com aquilo que se faz na pris\u00e3o, mas no que se faz na diocese e nas pr\u00f3prias par\u00f3quias. A diocese deve ter a sua Comiss\u00e3o Diocesana da Pastoral Penitenci\u00e1ria e, por ventura, tamb\u00e9m cada par\u00f3quia, porque todos tempos potenciais presos e, por isso, a preven\u00e7\u00e3o do crime deve ser feita com grupos estabelecidos nas par\u00f3quias, por pessoas que possam dar aten\u00e7\u00e3o aos reclusos ou \u00e0s suas fam\u00edlias. Todos, diocese, arciprestados e par\u00f3quias, devem ter tamb\u00e9m uma aten\u00e7\u00e3o especial para com as v\u00edtimas do crime. Este \u00e9 um aspecto que n\u00e3o tem sido muito real\u00e7ado por n\u00f3s, mas a v\u00edtima do crime deve merecer uma aten\u00e7\u00e3o muito especial, e por todas as raz\u00f5es. <\/p>\n<p>H\u00e1 uma boa rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas das v\u00e1rias religi\u00f5es que prestam servi\u00e7o assistencial prisional? H\u00e1 trabalho conjunto?<\/p>\n<p>Num ou noutro caso, h\u00e1 mesmo algum trabalho conjunto. N\u00e3o \u00e9 muito significativa a presen\u00e7a de outras confiss\u00f5es religiosas, sejam crist\u00e3s ou de outras religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s, nas pris\u00f5es portuguesas. Somos bons amigos, de vez em quando encontramo-nos na entrada, mas a presen\u00e7a mais significativa \u00e9, de facto, a da Igreja Cat\u00f3lica e do voluntariado levado pela Igreja Cat\u00f3lica, embora haja alguns volunt\u00e1rios de outras confiss\u00f5es ou convic\u00e7\u00f5es. \u00c9 no voluntariado que podemos incorporar pessoas de outras confiss\u00f5es em ac\u00e7\u00f5es sociais ou jur\u00eddicas, at\u00e9 porque o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o pr\u00f3prio bem do recluso. O di\u00e1logo interconfeccional deve ser implementado e, com a nova legisla\u00e7\u00e3o, outras religi\u00f5es podem aparecer, com car\u00e1cter mais oficial e claro, nas pris\u00f5es. Da parte da Igreja Cat\u00f3lica, temos uma abertura total.<\/p>\n<p>\u00c9 significativa a percentagem de reclusos de outras etnias, nacionalidades e religi\u00f5es nas pris\u00f5es portuguesas? A assist\u00eancia religiosa a toda essa gente \u00e9 feita pelos representantes da Igreja Cat\u00f3lica?<\/p>\n<p>N\u00f3s temos um n\u00famero muito elevado de estrangeiros nas nossas cadeias. Neste momento, temos um total de 2.247 presos estrangeiros, num universo de 11.119 presos, no dia 15 de Outubro. Estes n\u00fameros fazem-nos pensar que os nossos estabelecimentos prisionais s\u00e3o autenticamente espa\u00e7os de um verdadeiro ecumenismo e de um trabalho em rede com outras Igrejas. Sempre foi poss\u00edvel que outras religi\u00f5es pudessem entrar nas pris\u00f5es, mesmo antes desta legisla\u00e7\u00e3o que agora entra em vigor. Isso sempre foi poss\u00edvel e sempre existiu. Sempre os pastores e os l\u00edderes de outras religi\u00f5es entraram nas pris\u00f5es, n\u00e3o por favor mas porque estava consentido no c\u00f3digo de execu\u00e7\u00e3o de penas. Hoje, com este estatuto da regulamenta\u00e7\u00e3o da assist\u00eancia religiosa nos estabelecimentos prisionais, isso aparece de uma maneira muito mais clara, aparece como um direito assegurado na pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o. Dizemos em que dias estamos, e as pessoas aparecem, mesmo sem religi\u00e3o ou de outras religi\u00f5es, e est\u00e3o l\u00e1, escutam, dialogam e isso tamb\u00e9m lhes faz bem. Por vezes, h\u00e1 mesmo processos de aut\u00eantica convers\u00e3o, o que deve ser dito com j\u00fabilo, porque isso significa que essas pessoas encontraram a verdade, a serenidade da sua consci\u00eancia, tendo encontrado Deus.<\/p>\n<p>Entrevista conduzida por Cardoso Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda parte da entrevista ao Coordenador Nacional da Pastoral Penitenci\u00e1ria, P.e Jo\u00e3o Gon\u00e7alves, sacerdote da Diocese de Aveiro CORREIO DO VOUGA &#8211; As pessoas t\u00eam a ideia de que muitos dos presos j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam emenda, havendo quem defenda para certos crimes a pris\u00e3o perp\u00e9tua. 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