{"id":4298,"date":"2009-11-11T10:15:00","date_gmt":"2009-11-11T10:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4298"},"modified":"2009-11-11T10:15:00","modified_gmt":"2009-11-11T10:15:00","slug":"o-dia-depois-de-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-dia-depois-de-amanha\/","title":{"rendered":"\u00abO dia depois de amanh\u00e3\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu* <\/p>\n<p>* \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4)<\/p>\n<p>Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n<p> <!--more--> 33.\u00ba  Domingo do tempo comum   (ano B)<\/p>\n<p>1.\u00aa leitura: Livro de Daniel 12, 1-3<\/p>\n<p>2.\u00aa leitura: Carta aos Hebreus 10, 11-14.18<\/p>\n<p>Evangelho: S. Marcos 13, 24-32<\/p>\n<p>S\u00f3 o \u00abamanh\u00e3\u00bb \u00e9 que \u00e9 perto, como que ao alcance da nossa m\u00e3o. Para o \u00abdepois\u00bb, quase todas as tintas s\u00e3o v\u00e1lidas, embora esteja na moda pintar os cen\u00e1rios mais perturbadores sobre o poder destruidor da viol\u00eancia humana, ou sobre a morte das estrelas, destrui\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, supervulc\u00f5es e supertsunamis (como no filme que d\u00e1 o t\u00edtulo). Os pr\u00f3prios cientistas afirmam que as cat\u00e1strofes naturais v\u00eam a\u00ed com toda a certeza, s\u00f3 n\u00e3o se sabe quando\u2026 Contudo, conv\u00e9m ter presente que o ser humano nunca p\u00e1ra na descoberta de si pr\u00f3prio e do mundo, alterando perspectivas, incluindo as religiosas, e at\u00e9 corrigindo o que parecia certo.<\/p>\n<p>Com esta consci\u00eancia de que todas as coisas s\u00e3o ef\u00e9meras, e de que o pr\u00f3prio universo, com a sua estabilidade aparente, est\u00e1 sujeito \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que se tenha  formado a \u00abliteratura apocal\u00edptica\u00bb (do grego \u00abApocalipse\u00bb, \u00abrevela\u00e7\u00e3o\u00bb ou \u00abdesvelamento\u00bb). Com estilo grandioso e imagens riqu\u00edssimas, n\u00e3o alheias \u00e0 mitologia e simbologia iranianas, \u00e9 uma literatura  presente nas culturas mais diversas, tornando vis\u00edvel a estrutural comunh\u00e3o entre todo o g\u00e9nero humano quanto \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o sobre o futuro.<\/p>\n<p>Os textos apocal\u00edpticos do judeo-cristianismo (continuados pelo islamismo) centram-se nos temas do Ju\u00edzo final e da Salva\u00e7\u00e3o, e apresentam o Reino de Deus e o Novo Mundo como transfigura\u00e7\u00e3o do Universo, onde a pr\u00f3pria morte ser\u00e1 dominada. Ter\u00e1 pois um final feliz o \u00abcombate\u00bb entre as for\u00e7as misteriosas do Bem e do Mal, da Vida e da Morte, apesar de os \u00abfilhos da luz\u00bb terem que sofrer devido \u00e0 ast\u00facia dos \u00abfilhos das trevas\u00bb (na terminologia do pr\u00f3prio Jesus Cristo). E a morte \u00e9 a passagem n\u00e3o para um estado de vida inferior, mas sim de vida claramente pr\u00f3xima do que podemos entender por Luz, Alegria, Bem-estar.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos apocalipses, antes e depois de Cristo, todos eles reflectindo a mesma inquieta\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a. A maioria, contudo, n\u00e3o \u00e9 aceite como can\u00f3nica (ou seja, n\u00e3o \u00e9 representativa ou at\u00e9 est\u00e1 em desacordo com o \u00abn\u00facleo duro\u00bb da doutrina em quest\u00e3o).<\/p>\n<p>Ao termo de \u00abapocal\u00edptica\u00bb junta-se o de \u00abescatologia\u00bb (\u00abestudo dos \u00faltimos acontecimentos\u00bb, em grego): traduz, sobretudo, o olhar que o ser humano dirige \u00e0 sua volta, alcan\u00e7ando o sentido e interesse da considera\u00e7\u00e3o da morte e da cren\u00e7a numa vida eterna. N\u00e3o deve haver hiato entre este futuro e o presente: a cren\u00e7a optimista num \u00abcombate escatol\u00f3gico\u00bb em que o Bem vence o Mal, d\u00e1 for\u00e7a para ir travando esse combate no presente. Deste modo, se vai desde j\u00e1 acelerando o \u00abmundo novo\u00bb, sob a luz da justi\u00e7a (o \u00abreino\u00bb de Deus, como se diz no Pai Nosso).<\/p>\n<p>Com a aproxima\u00e7\u00e3o do final do ciclo lit\u00fargico, os textos dominicais manifestam cada vez mais pendor apocal\u00edptico e escatol\u00f3gico. Curiosamente, estes \u00abpalavr\u00f5es\u00bb t\u00e3o obscuros designam justamente o fim da obscuridade em que vivemos.  <\/p>\n<p>O apogeu da literatura apocal\u00edptica situa-se entre os anos 200 antes de Cristo e 200 depois de Cristo. O Livro de Daniel (1.\u00aa leitura) \u00e9 escrito cerca de 164 a.C. e o evangelho de Marcos (3.\u00aa leitura) cerca de 70 d.C.<\/p>\n<p>O Livro de Daniel \u00e9 a recolha de diferentes tradi\u00e7\u00f5es orais. Tem muito pouco valor hist\u00f3rico mas \u00e9 um testemunho valioso do clima apocal\u00edptico da \u00e9poca em que foi escrito \u2013 o tempo dos Macabeus. Ap\u00f3s a morte de Alexandre Magno em 323 a.C., surge a dinastia sel\u00eaucida, oriunda do desmembramento do imp\u00e9rio. Os judeus fi\u00e9is passaram a sofrer a imposi\u00e7\u00e3o da cultura grega, muitas vezes atentat\u00f3ria da religi\u00e3o judaica, e v\u00e1rias persegui\u00e7\u00f5es, sobretudo sob o reinado de Ant\u00edoco Epif\u00e2nio. <\/p>\n<p>De acordo com a t\u00e9cnica apocal\u00edptica, este livro pretende ser a obra de um profeta que viveu o Cativeiro de Babil\u00f3nia (587 a 538 a.C.), grande s\u00edmbolo do poder das For\u00e7as do Mal. Assim, a \u00e9poca cr\u00edtica do passado surge como \u00abimagem\u00bb, profecia, li\u00e7\u00e3o e consola\u00e7\u00e3o para o futuro (a \u00e9poca em que foi realmente escrito). <\/p>\n<p>O texto de hoje pretende infundir coragem naqueles que sofrem pela justi\u00e7a, apelando para a f\u00e9 numa vida eterna. A ideia de ressurrei\u00e7\u00e3o aparece claramente, na linha do sentido etimol\u00f3gico de que n\u00e3o desaparecemos mas voltamos a \u00absurgir\u00bb (isto n\u00e3o \u00e9 especula\u00e7\u00e3o, pois traduz uma poderosa, embora difusa, intui\u00e7\u00e3o da humanidade; a natural curiosidade de lobrigar o \u00abcomo\u00bb desta nova aventura \u00e9 que tem muito de especulativo). Sentimo-nos mais em casa, se n\u00e3o deixarmos a morte e a eternidade na rua. Eliminamos assim uma grande parte da nossa ang\u00fastia, justamente porque a admitimos \u00e0 nossa mesa, conversando com ela e exigindo-lhe que se porte bem\u2026 (N\u00e3o se aplica neste caso a can\u00e7\u00e3o de Coimbra \u00ab(\u2026) que a vida de olhos fechados \/ custa menos a viver\u00bb!). \u00c9 t\u00e3o bom sentir que o nosso calend\u00e1rio nunca ser\u00e1 rasgado de vez, mas que mesmo \u00abdepois de amanh\u00e3\u00bb \u00abos que tiverem levado os outros aos caminhos da justi\u00e7a brilhar\u00e3o como estrelas com um esplendor eterno\u00bb! <\/p>\n<p>O texto do evangelho \u00e9 que reflecte mais o tradicional estilo apocal\u00edptico (mas as suas imagens e conceitos devem muito ao Livro de Daniel). Jesus fala de si como \u00abo Filho do homem vindo com as nuvens, com grande poder e gl\u00f3ria\u00bb, \u00abpara reunir os seus eleitos dos quatro cantos da terra\u00bb. <\/p>\n<p>(As \u00abnuvens\u00bb tanto podem ser tenebrosas, como um v\u00e9u di\u00e1fano que protege do ardor do sol e do encandeamento da luz forte. Simbolizam os paradoxos de Deus, juntando dist\u00e2ncia e proximidade. Assim, no Dia de Jav\u00e9,  as nuvens claras arrebatar\u00e3o os crentes para os levarem ao encontro do Senhor que vem). <\/p>\n<p>O sentido de \u00abFilho do homem\u00bb continua a dar dores de cabe\u00e7a aos especialistas e agu\u00e7a a \u00abcuriosidade apocal\u00edptica\u00bb de toda a gente. A express\u00e3o \u00e9 frequente em Daniel e nos ap\u00f3crifos, e no Livro dos Actos (7,56) lemos que Santo Est\u00eav\u00e3o, martirizado pelo fanatismo de alguns judeus (entre eles Paulo de Tarso, o futuro S. Paulo) v\u00ea \u00abo Filho do Homem de p\u00e9 \u00e0 direita de Deus\u00bb. Mas nunca mais foi usado no Novo Testamento. \u00c9 formid\u00e1vel, contudo, a ideia de colocar um representante do g\u00e9nero humano ao lado do \u00abgrande Juiz\u00bb.<\/p>\n<p>Podemos dizer que Jesus utiliza \u00abfilho do homem\u00bb como express\u00e3o que tanto sugere como esconde a origem divina da sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com o aramaico, seria at\u00e9 mais exacto \u00abfilho de homem\u00bb, com o sentido de pertencer \u00e0 esp\u00e9cie humana. Ao longo da B\u00edblia, \u00e9 frequente a admira\u00e7\u00e3o de como o ser humano, um ser t\u00e3o fraco, \u00e9 de tal modo amado por Deus e eleito por Ele como rei de toda a cria\u00e7\u00e3o. Assim reza o Salmo 8,5: \u00abQue \u00e9 o homem para que dele te recordes, o filho de homem para que dele tenhas cuidado? Quase fizeste dele um ser divino, de gl\u00f3ria e de honra o coroaste. Deste-lhe dom\u00ednio sobre as obras das tuas m\u00e3os, tudo submeteste a seus p\u00e9s\u00bb.<\/p>\n<p>(Digam l\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 mesmo bom ouvir coisas t\u00e3o bonitas a nosso respeito!)<\/p>\n<p>Mas Jesus ter\u00e1 aproximado intencionalmente a ideia de um ser fraco, sujeito ao sofrimento e \u00e0 morte, ao c\u00e9lebre conceito de \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb. <\/p>\n<p>A 2.\u00aa leitura coloca Jesus Cristo no centro do pensamento apocal\u00edptico. Em Jesus, \u00e9 palp\u00e1vel a vastid\u00e3o do drama do ser humano, onde o pr\u00f3prio Deus entra nas intrigas. A \u00abressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb mostra que Jesus n\u00e3o ficou prisioneiro da hist\u00f3ria, muito pelo contr\u00e1rio, e sublinha fortemente que a pessoa n\u00e3o pode existir para ser reduzida ao nada. At\u00e9 os momentos mais negativos da vida deixam de ser tara perdida.<\/p>\n<p>O cristianismo, descobrindo em Jesus o \u00abfilho de homem\u00bb que \u00e9 \u00abfilho de Deus\u00bb (t\u00e3o intensamente que O trata por \u00abPai\u00bb), p\u00f5e de lado os medos e a falta de \u00e2nimo para lutar pelo Bem, sobretudo quando o Mal parece avassalador. Na sua vida, Jesus mostrou muitos momentos de ang\u00fastia, mas n\u00e3o deixou de ser o mais agrad\u00e1vel dos amigos e o mais seguro de que Deus d\u00e1 sentido total ao drama da humanidade, dando valor e unidade aos dias de ontem e de hoje, de amanh\u00e3 e de \u00abdepois de amanh\u00e3\u00bb.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu* * \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4) Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-4298","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4298"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4298\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}