{"id":4322,"date":"2009-11-18T11:56:00","date_gmt":"2009-11-18T11:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4322"},"modified":"2009-11-18T11:56:00","modified_gmt":"2009-11-18T11:56:00","slug":"ha-outros-muros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ha-outros-muros\/","title":{"rendered":"H\u00e1 outros muros"},"content":{"rendered":"<p>Cust\u00f3dio. Tem nome de anjo. O nome que o protege n\u00e3o \u00e9 suficiente para a tranquilidade materna que acorre sempre que choraminga, grita por alimento ou por aten\u00e7\u00e3o. Dorme sereno no ber\u00e7o de onde passar\u00e1 rapidamente para a caminha de grades. Passados dois anos, experimentar\u00e1 a cama grande, protegido por uma rede que o ampare de poss\u00edveis quedas.  <\/p>\n<p>Nas escolas por onde passa, continua a ter portas, redes ou grades que o amparam de poss\u00edveis quedas. Contesta. N\u00e3o quer. Recusa as recusas para passar as portas. Abrem-se-lhe os port\u00f5es de par em par, as redes e gradeamentos deixam de ter sentido. N\u00e3o cumprem mais a sua fun\u00e7\u00e3o: n\u00e3o protegem, oprimem.<\/p>\n<p>Tem nome de anjo. O nome que o protege n\u00e3o \u00e9 suficiente para a tranquilidade materna. Mas j\u00e1 ningu\u00e9m acorre quando ele chora, grita por alimento ou por aten\u00e7\u00e3o. Porque ele n\u00e3o quer. Porque ele n\u00e3o deixa. <\/p>\n<p>Tem nome de anjo, que n\u00e3o quer usar, porque na moda est\u00e3o outros nomes. Tem todas as certezas dos adolescentes: n\u00e3o \u00e9 fr\u00e1gil, nem se vai tornar dependente dos amigos, do tabaco, da droga, do \u00e1lcool, da internet, dos caf\u00e9s. N\u00e3o vai cair nas malhas de ningu\u00e9m. O seu pai, tamb\u00e9m ele com nome de anjo, ensinou-lhe a enfrentar a vida, a encarar os outros. O que ele n\u00e3o sabe \u00e9 que cresce t\u00e3o depressa que as noites mal dormidas s\u00e3o substitu\u00eddas por ins\u00f3nias maternas e paternas. Onde estar\u00e1 ele? Com quem anda? Vamos lev\u00e1-lo para casa dos av\u00f3s, mud\u00e1-lo de terra, de amigos, de colegas? Afast\u00e1-lo do perigo. As quedas s\u00e3o muitas. <\/p>\n<p>Tinha cara de anjo, mas apenas responde ao nome de anjo que a m\u00e3e carinhosamente pronuncia. <\/p>\n<p>Depois de dois anos de prova\u00e7\u00e3o familiar, aceita dar outro rumo \u00e0 sua vida. <\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026 <\/p>\n<p>Hoje, o seu filho tem nome de anjo. Vai-lhe contar que, um dia, foi a Berlim. Tinha 18 anos e a experi\u00eancia continua actual. Foram tr\u00eas ou quatro horas de contacto com uma realidade desconhecida. Cruel. Chocante. Percebeu que os muros, as grades, as redes que oprimem n\u00e3o s\u00e3o as das escolas que ele frequentou. Essas estavam de p\u00e9 para o proteger. Mas ele n\u00e3o dera oportunidade a ningu\u00e9m para lhas explicar. N\u00e3o deu oportunidade a si mesmo para perceber o que lhe diziam. Em Berlim, ficou at\u00f3nito com um muro, um campo minado, as torres de vigia, as fam\u00edlias divididas por paredes de tijolos, redes, gradeamentos. Regressou aos 34 anos, relembrando a emo\u00e7\u00e3o do dia 9 de Novembro de 1989: o muro ca\u00edra. <\/p>\n<p>Hoje, conta ao filho que h\u00e1 outros muros que se erguem, graves atentados \u00e0 liberdade e \u00e0 vida. Esses, sim, s\u00e3o opress\u00e3o. E espera que o seu filho, com nome de anjo, compreenda que a caminha de grades, a rede na cama e as escolas cercadas por gradeamentos est\u00e3o l\u00e1 para o ampararem de poss\u00edveis quedas. Porque o nome que o protege n\u00e3o \u00e9 suficiente para a tranquilidade familiar. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>Encontrei-o no outro dia. Quando sa\u00ed do carro estendeu-me a m\u00e3o para a moeda. J\u00e1 o tinha avistado mesmo antes de desligar o motor. O que fazer? O que lhe dizer? Cumprimentei-o: &#8211; Ol\u00e1! Est\u00e1 bom? De cabe\u00e7a baixa, disse que sim. &#8211; Ent\u00e3o? N\u00e3o me reconhece? N\u00e3o sabe quem eu sou? &#8211; N\u00e3o, desculpe, senhora. N\u00e3o\u2026 Sempre de cabe\u00e7a baixa, com vergonha. <\/p>\n<p>Disfarcei os meus sentimentos e apresentei-me. &#8211; Fui sua professora. N\u00e3o se lembra? &#8211; Ah! Sim. \u2013 e sorriu timidamente. Continuou: &#8211; Desculpe, mas a cabe\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 boa. J\u00e1 deixei a droga h\u00e1 um ano. Estou limpo h\u00e1 um ano. H\u00e1 um ano que consigo n\u00e3o consumir, mas a cabe\u00e7a\u2026 esqueceu tudo, baralha tudo\u2026 j\u00e1 n\u00e3o sabe nada\u2026 (Porque \u00e9 que me contou? N\u00e3o lhe perguntei nada!&#8230;) Continuou a falar. Humilhado, triste. N\u00e3o me encarava nos olhos. Mas queria contar. Satisfeito por resistir. Contou sobre a sua vida, o desemprego, a fam\u00edlia, a droga que lhe tirara a mem\u00f3ria. <\/p>\n<p>Rapaz bonito, em 5 anos transformou-se: a pele est\u00e1 ba\u00e7a, a cabe\u00e7a n\u00e3o pensa, os olhos morreram. Alguma vez recuperar\u00e1? <\/p>\n<p>Quem falhou? Eu, ele, a fam\u00edlia, a escola, a sociedade?<\/p>\n<p>Qualquer semelhan\u00e7a entre este relato e a realidade n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cust\u00f3dio. Tem nome de anjo. O nome que o protege n\u00e3o \u00e9 suficiente para a tranquilidade materna que acorre sempre que choraminga, grita por alimento ou por aten\u00e7\u00e3o. Dorme sereno no ber\u00e7o de onde passar\u00e1 rapidamente para a caminha de grades. 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