{"id":4347,"date":"2009-11-25T09:59:00","date_gmt":"2009-11-25T09:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4347"},"modified":"2009-11-25T09:59:00","modified_gmt":"2009-11-25T09:59:00","slug":"ja-um-cheirinho-a-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ja-um-cheirinho-a-natal\/","title":{"rendered":"J\u00e1 um cheirinho a Natal"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu*<\/p>\n<p>* \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4)<\/p>\n<p>Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n<p> <!--more--> 1.\u00ba Domingo do Advento (Ano C)<\/p>\n<p>1.\u00aa Leitura: Livro de Jeremias 33,14-16<\/p>\n<p>2.\u00aa Leitura: I Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses 3,12-4,2<\/p>\n<p>Evangelho: Lucas 21,25-28.34-36<\/p>\n<p>Nos antigos natais da aldeia, este domingo trazia o primeiro cheirinho a Natal, feito de castanhas e de vaga inquieta\u00e7\u00e3o por onde buscar o melhor musgo, por qual o canto mais lindo para o pres\u00e9pio e por onde param e como estar\u00e3o as figurinhas e outros adere\u00e7os \u2013 tudo isto no embalo das palavras misteriosas da liturgia em latim. At\u00e9 nem se reparava no estilo duro e apocal\u00edptico do Evangelho, adormecendo no conforto da Leitura de Jeremias! A pr\u00f3pria carta de S. Paulo, que nos exorta \u00e0 firmeza no progresso do amor e de outras virtudes, mais parecia uma coroa de flores a oferecer ao \u00abrebento justo\u00bb, ao \u00abMenino Jesus\u00bb. <\/p>\n<p>E contudo, a passagem do evangelho de hoje marca o final do minist\u00e9rio de Jesus em Jerusal\u00e9m, sendo imediatamente seguido pelo relato da Paix\u00e3o. O \u00abMenino Jesus\u00bb exprime a fraqueza pr\u00f3pria do \u00abfilho de homem\u00bb (imagem muito presente nos domingos anteriores) \u2013 mas tamb\u00e9m o lado paradoxal da mesma express\u00e3o: o poder e a gl\u00f3ria do aut\u00eantico \u00abjusticeiro\u00bb, que vir\u00e1 sobre as nuvens impenetr\u00e1veis ao nosso conhecimento e compreensivelmente temerosas para toda a humanidade. Por isso exclamava Sime\u00e3o, ao pegar ao colo em Jesus rec\u00e9m-nascido (Lucas, 2, 29-35): \u00abEste menino est\u00e1 aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradi\u00e7\u00e3o\u00bb. O encontro definitivo com ele n\u00e3o nos pode apanhar desprevenidos: temos que o saber esperar \u00abde p\u00e9 como as \u00e1rvores\u00bb carregadas de bom fruto. <\/p>\n<p>H\u00e1 pois que \u00abdesconfiar\u00bb da inoc\u00eancia e gra\u00e7a do \u00abMenino Jesus\u00bb\u2026 Ele n\u00e3o \u00e9 o boneco lindinho \u00e0 venda nas feiras, nem sequer um daqueles beb\u00e9s lindos a valer, que quase se confundem com o colo da m\u00e3e, se poss\u00edvel ainda mais linda. Iremos n\u00f3s ao encontro do \u00abMenino a s\u00e9rio\u00bb, como os \u00abReis Magos\u00bb? E saberemos tirar proveito desse encontro, como o fazia a \u00abM\u00e3e a s\u00e9rio\u00bb do \u00abMenino a s\u00e9rio\u00bb \u2013 guardando todos estes estranhos acontecimentos \u00abno seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb, para reflectir calmamente sobre o que poderiam significar? (Lucas, 2, 51; 1, 29). Ou acharemos mais c\u00f3modo e prudente matar o menino, como quis o rei Herodes \u2013 \u00abo tal (no dizer de Miguel Torga) que n\u00e3o gostava de crian\u00e7as\u00bb?<\/p>\n<p>A primeira leitura n\u00e3o \u00e9 original de Jeremias mas de um disc\u00edpulo. Trata-se de um c\u00e2ntico tipicamente messi\u00e2nico, presente noutros lugares dos livros do Antigo Testamento, prometendo ao povo de Israel que Deus far\u00e1 nascer um \u00abrebento de justi\u00e7a\u00bb para o dirigir com rectid\u00e3o. Na perspectiva religiosa desta \u00e9poca (destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m pelo imp\u00e9rio babil\u00f3nico, em 587, e subsequente cativeiro), o Messias (rei-sacerdote) nasceria da seiva de David, cabendo-lhe juntar o direito e a justi\u00e7a. Dentro dos par\u00e2metros da cultura do tempo, o Direito legitima a imposi\u00e7\u00e3o da autoridade e do julgamento. Mas precisa da Justi\u00e7a para que n\u00e3o se exer\u00e7a o poder arbitrariamente, oprimindo os que menos se podem proteger. <\/p>\n<p>No Antigo Testamento, a Justi\u00e7a \u00e9 um grande atributo de Deus. O termo hebraico original \u00e9 de dif\u00edcil tradu\u00e7\u00e3o, pois refere sobretudo a situa\u00e7\u00e3o concreta de algu\u00e9m que v\u00ea reconhecida a sua inoc\u00eancia ou satisfeita a sua pretens\u00e3o. Interessa \u00e9 ter a lei a seu favor \u2013 o que pode dar lugar a falsidade e corrup\u00e7\u00e3o. Como transpor este conceito para Deus? <\/p>\n<p>As ora\u00e7\u00f5es pedem a ajuda de Deus \u00abporque Ele \u00e9 justo\u00bb: \u00abEscuta-me, \u00f3 Deus, minha justi\u00e7a! Tu, que me libertaste na ang\u00fastia\u00bb (salmo 4,2); ou ainda, entre muitos outros exemplos: \u00abSalva-me, \u00f3 meu Deus! Bate na face dos meus inimigos. De ti, Senhor, vem a salva\u00e7\u00e3o\u00bb (salmo 3,8-9). Pedimos a Deus que nos d\u00ea raz\u00e3o, porque nos cremos na raz\u00e3o. Mas porque Deus v\u00ea claramente no fundo do cora\u00e7\u00e3o, reza assim o salmo 50: \u00ab\u00d3 Deus, meu salvador! Lava-me de toda a iniquidade. Reconhe\u00e7o as minhas culpas\u00bb (50,16.4.5). A justi\u00e7a exige reconhecer o mal como mal, e o bem como bem.<\/p>\n<p>Falar de Deus como justo \u00e9 portanto a percep\u00e7\u00e3o do conceito essencial de Deus como \u00absalvador\u00bb \u2013 a par da percep\u00e7\u00e3o que o ser humano tem de si pr\u00f3prio como incapaz de dar resposta a todos os desejos e necessidades, impotente para garantir a pr\u00f3pria felicidade. Por\u00e9m, a consci\u00eancia das nossas limita\u00e7\u00f5es e falhas seria dificilmente explic\u00e1vel se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos o vislumbre de algu\u00e9m sem falhas nem limita\u00e7\u00f5es. Ter f\u00e9 \u00e9 ter confian\u00e7a neste \u00abalgu\u00e9m\u00bb \u2013 o que, na vida real, \u00e9 ter esperan\u00e7a em Deus, mesmo quando s\u00f3 apetece desesperar (Romanos 4,18). E porque a Justi\u00e7a \u00e9 perfeita em Deus, pode e deve ser o crit\u00e9rio para matar \u00aba fome e sede de justi\u00e7a\u00bb de que falam as bem-aventuran\u00e7as. <\/p>\n<p>A seu tempo, o Cristianismo ver\u00e1, na leitura de Jeremias, o pren\u00fancio de Jesus bem adulto pregando o Amor como fundamento do Direito e da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A vinda de Jesus deu-se discretamente. Deus d\u00e1 a impress\u00e3o de querer \u201cmeter-se connosco\u201d de mansinho, para n\u00e3o nos assustar. N\u00e3o h\u00e1 nuvens nem imagens apocal\u00edpticas. Todos os olhos podem ver com alegria tranquila um menino a nascer. <\/p>\n<p>Mas \u00e0 medida que esse menino for crescendo, \u00abganhando for\u00e7a e sabedoria\u00bb (Lucas 2, 40), crescer\u00e3o as nuvens por todos os lados: progressivamente, tanto Jesus como os que o rodeiam, ir-se-\u00e3o dando conta da dimens\u00e3o transcendente do \u00abfilho do homem\u00bb, que chega a parecer aterradora. O pr\u00f3prio Jesus, mesmo antes de ser preso, pediu ao Pai para \u00abafastar o c\u00e1lice\u00bb do sofrimento e da morte iminente. Mostrou-se, por\u00e9m, fiel ao compromisso da vida \u00abat\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias\u00bb, e por isso mereceu partilhar da plenitude de Deus. \u00c9 com esta autoridade suprema que se manifestar\u00e1 \u00abno fim dos tempos\u00bb, e a verdade da vida aparecer\u00e1 t\u00e3o intensa que os seres humanos ficar\u00e3o at\u00f3nitos. Aqueles, por\u00e9m, que seguiram os caminhos de Cristo, sempre vigilantes, \u00ablevantar\u00e3o a cabe\u00e7a\u00bb e permanecer\u00e3o de p\u00e9 a seu lado \u2013 s\u00e3o os que procuraram, como ele, tanto nos maus como nos bons momentos, tanto ao sentir mais vida como ao sentir mais morte, mostrar que valeu a pena, para toda a humanidade, a estranh\u00edssima aventura de terem vindo a este mundo, do mesmo modo que veio o beb\u00e9 Jesus. <\/p>\n<p>Segundo v\u00e1rios especialistas, a seguir ao texto atemorizante do evangelho de hoje \u00e9 que faria sentido colocar o epis\u00f3dio da \u00abmulher ad\u00faltera\u00bb relatado por Jo\u00e3o (8, 1-11): Quando os escribas e fariseus perguntam a opini\u00e3o de Jesus sobre o que fazer \u00e0 mulher surpreendida em adult\u00e9rio, ouviram o que n\u00e3o queriam \u2013 \u00abquem de v\u00f3s estiver sem pecado lance-lhe a primeira pedra\u00bb. Jesus n\u00e3o condenou a mulher. Condenar \u00e9 um ju\u00edzo sem amor, e o mais importante \u00e9 suscitar em si e nos outros a coragem para procurar \u00abos caminhos de Deus\u00bb, como fizeram os Reis Magos.  <\/p>\n<p>Os semilend\u00e1rios \u00abreis magos\u00bb, s\u00edmbolo da diversidade humana ou das fases da vida humana (juventude, maturidade e velhice) n\u00e3o ficaram parados a olhar para a estrela do mist\u00e9rio: tiveram a coragem de se lan\u00e7ar de corpo e alma na transcend\u00eancia e exig\u00eancia do caminho que se ia desvelando passo a passo, vencendo os obst\u00e1culos sem perder tempo com desculpas nem jogos diplom\u00e1ticos. A tradi\u00e7\u00e3o viu neles o exemplo da perseveran\u00e7a e do reconhecimento que a justeza das decis\u00f5es humanas \u00e9 mais garantida quando nos orientamos por um ideal que n\u00e3o pode ser corrompido.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu* * \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4) Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-4347","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4347"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4347\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}