{"id":439,"date":"2010-01-28T10:41:00","date_gmt":"2010-01-28T10:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=439"},"modified":"2010-01-28T10:41:00","modified_gmt":"2010-01-28T10:41:00","slug":"circo-feira-de-vaidades-ou-o-caos-que-se-aproxima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/circo-feira-de-vaidades-ou-o-caos-que-se-aproxima\/","title":{"rendered":"Circo, feira de vaidades ou o caos que se aproxima?"},"content":{"rendered":"<p>Em entrevista breve, por motivo do Pr\u00e9mio Pessoa, o bispo do Porto disse que \u201cOs portugueses sobrevivem apesar de Portugal\u201d. Sempre num contexto s\u00f3cio-econ\u00f3mico, diz ainda que \u201cPortugal \u00e9 um pa\u00eds cr\u00edtico\u201d. E acrescenta: \u201cPortugal, como estudo de caso, \u00e9 uma coisa apaixonante, porque \u00e9 um pa\u00eds que n\u00e3o tinha nenhuma raz\u00e3o para subsistir e subsiste\u201d (Expresso, caderno \u201cActual\u201d 18-12-2009). <\/p>\n<p>N\u00e3o vi reac\u00e7\u00e3o, positiva ou negativa, a estas palavras de opini\u00e3o livre de uma pessoa culta e atenta, pessoa que, neste momento, n\u00e3o falta, na comunica\u00e7\u00e3o social, quem a traga, frequentemente, \u00e0 ribalta.<\/p>\n<p>Guardei o jornal e recordei o que fora dito, para poder, com o dedo na mesma tecla, opinar tamb\u00e9m sobre o palco pol\u00edtico que se nos abre e convida, sobremodo, a reflectir outras facetas deste \u201cestudo de caso\u201d e deste \u201cpa\u00eds cr\u00edtico\u201d, dado que se v\u00e3o gerando e disseminando preocupa\u00e7\u00f5es em catadupa.<\/p>\n<p>O panorama partid\u00e1rio \u00e9 preocupante, como est\u00e1 \u00e0 vista: os interesses pessoais sobrep\u00f5em-se aos problemas comuns e urgentes; na casa desarrumada, \u00e0 espera de quem a\u00ed ponha ordem, surgem novos arruaceiros; as muitas contradi\u00e7\u00f5es, que ningu\u00e9m quer assumir, multiplicam-se escandalosamente; o prest\u00edgio pessoal e o desd\u00e9m antecipam e perturbam, sem raz\u00f5es de estado, acontecimentos de cariz p\u00fablico, sem que se atenda \u00e0s consequ\u00eancias; desfazem-se refer\u00eancias necess\u00e1rias em troca de palavras v\u00e3s, que j\u00e1 ningu\u00e9m respeita; os debates pol\u00edticos v\u00e3o se tornando uma n\u00e1usea e s\u00f3 favorecem o narcisismo de alguns intervenientes, deliciados por se ouvirem a si pr\u00f3prios; aos problemas vitais responde-se com floreados, em vez de dar raz\u00f5es convincentes e de tomar decis\u00f5es que levem a solu\u00e7\u00f5es esperadas.<\/p>\n<p>Vemos, entretanto, isso sim, multiplicarem-se as voca\u00e7\u00f5es de parlamentares, tal o modo de os deputados dos diversos partidos se interpelarem e n\u00e3o se ouvirem, da ardilosa maneira de fugir \u00e0s quest\u00f5es, do jeito descarado de fazer passar, por dogmas indiscut\u00edveis, interven\u00e7\u00f5es vazias de conte\u00fado e de sentido, da discuss\u00e3o palavrosa e  inconsequente de problemas que requerem respostas urgentes, do aplaudir, fren\u00e9tico e comandado, de banalidades travestidas de ret\u00f3rica barata\u2026<\/p>\n<p>Generaliza-se a sensa\u00e7\u00e3o de que os pol\u00edticos s\u00e9rios aguentam mas n\u00e3o acreditam que o pa\u00eds tenha sa\u00edda. Nesta babil\u00f3nica balb\u00fardia admiramos a paci\u00eancia atenciosa e delicada do Presidente da Assembleia e dos que ainda por l\u00e1 andam com ineg\u00e1vel amor \u00e0 P\u00e1tria e preocupados em lhe lan\u00e7ar uma b\u00f3ia que a n\u00e3o deixe afogar.<\/p>\n<p>E o que, no meio disto tudo, se vai lendo e ouvindo? \u201cA Espanha \u00e9 a nossa solu\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cSalazar, para quem as coisas n\u00e3o eram s\u00f3 projecto, eram concebidas para se fazerem\u2026 Ele que n\u00e3o acreditava na capacidade dos portugueses para se auto governarem\u201d, e, ainda, \u201cconfian\u00e7a e bom senso s\u00e3o coisas que n\u00e3o abundam entre alguns pol\u00edticos\u201d\u2026 Tudo isto palavras de gente com nome na pra\u00e7a, porque, se ouvirmos o homem da rua que ainda consegue, neste caos, guardar a lucidez, a sua eloqu\u00eancia \u00e9 ainda mais c\u00e1ustica.<\/p>\n<p>A quem interessa ou pode interessar o desprest\u00edgio da ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da classe pol\u00edtica? S\u00f3 a peixes de \u00e1guas turvas ou a fautores, que n\u00e3o faltam por a\u00ed, do quanto pior, melhor.<\/p>\n<p>O pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 a saldo &#8211; por enquanto, dir\u00e3o alguns &#8211; e os \u00f3rg\u00e3os da soberania n\u00e3o s\u00e3o um ornato da na\u00e7\u00e3o, como n\u00e3o podem ser um pesadelo A sa\u00edda tem de se operar com gente normal que ponha os interesses de todos acima dos pr\u00f3prios. Seja realista, n\u00e3o malabarista.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos num circo de fantoches, nem numa feira de vaidades. Estamos num espa\u00e7o de vida, onde a vida \u00e9 ainda poss\u00edvel. S\u00f3 ela pode exorcizar o caos que espreita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista breve, por motivo do Pr\u00e9mio Pessoa, o bispo do Porto disse que \u201cOs portugueses sobrevivem apesar de Portugal\u201d. Sempre num contexto s\u00f3cio-econ\u00f3mico, diz ainda que \u201cPortugal \u00e9 um pa\u00eds cr\u00edtico\u201d. 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