{"id":444,"date":"2010-02-03T09:59:00","date_gmt":"2010-02-03T09:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=444"},"modified":"2010-02-03T09:59:00","modified_gmt":"2010-02-03T09:59:00","slug":"enio-semedo-publica-livro-sobre-salgado-de-aveiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/enio-semedo-publica-livro-sobre-salgado-de-aveiro\/","title":{"rendered":"\u00c9nio Semedo publica livro sobre Salgado de Aveiro"},"content":{"rendered":"<p>Sexta-feira, pelas 18 horas, no Sal\u00e3o Nobre dos Pa\u00e7os do Concelho de Aveiro, ser\u00e1 apresentado o livro \u201cEcomuseu do Salgado de Aveiro. Preservar para transmitir\u201d, da autoria de \u00c9nio Semedo, com edi\u00e7\u00e3o da FEDRAVE. Nesta entrevista, o autor explica o que o levou a efectuar esse estudo e as metas que prop\u00f5e. Entrevista conduzida por Cardoso Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; O livro \u201cEcomuseu do Salgado de Aveiro. Preservar para transmitir\u201d \u00e9 mais do que um livro sobre um ecomuseu do salgado aveirense porque apresenta uma resenha hist\u00f3rica do sal em Aveiro e toda a sua componente etnogr\u00e1fica associada. Pode dizer-se que este livro abrange todo o mundo ligado ao salgado aveirense?<\/p>\n<p>\u00c9NIO SEMEDO &#8211; De facto, no livro procurei abordar toda essa tem\u00e1tica. Apesar das not\u00edcias recentemente vindas a p\u00fablico nos darem uma boa perspectiva do que ainda pode vir a ser a ind\u00fastria do sal em Aveiro, o que acontece \u00e9 que ela est\u00e1 em franco decl\u00ednio. Quando comecei a fazer este estudo, h\u00e1 12 anos, havia quase 30 marinhas a laborar, e agora s\u00e3o dez ou menos. Isso comparado com as 270 ou at\u00e9 as 500 que se diz que houve, mostra bem esse decl\u00ednio. Esta actividade diz muito a Aveiro e h\u00e1 at\u00e9 uma cita\u00e7\u00e3o, que eu fa\u00e7o no livro, que diz \u201cAveiro s\u00f3 foi sal\u201d porque enorme percentagem de documentos, sobretudo medievais, \u00e9 referente ao salgado. N\u00e3o sendo eu natural de Aveiro, mas sentindo-me aveirense, resolvi aproveitar a tese de mestrado para mostrar o meu reconhecimento a esta terra, pegando numa das coisas mais simb\u00f3licas de Aveiro e mais significativas sob o ponto de vista econ\u00f3mico, com um forte cunho identit\u00e1rio. Toda a gente liga Aveiro a quatro coisas: Ria, Barco Moliceiro, Sal e Ovos-moles. <\/p>\n<p>Desses quatro temas, escolheu o salgado.<\/p>\n<p>Pensei que a melhor maneira de preservar a ind\u00fastria do sal em Aveiro era atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um ecomuseu, um verdadeiro ecomuseu de comunidade, um ecomuseu dos marnotos, para os marnotos e com os marnotos. Eles que se mostrem \u00e0 comunidade e a quem os quiser visitar e ao mesmo tempo reanimem a actividade. Esse foi o primeiro objectivo que me motivou a fazer isto. As incurs\u00f5es que fiz pela Hist\u00f3ria e pela Geografia j\u00e1 tinham o prop\u00f3sito de lan\u00e7ar os alicerces desse ecomuseu. Quem ler o livro ir\u00e1 notar que eu questiono algumas das afirma\u00e7\u00f5es que at\u00e9 hoje t\u00eam sido dadas como indiscut\u00edveis. Com essas incurs\u00f5es, tentei dar alguma informa\u00e7\u00e3o para justificar o contexto espacial e hist\u00f3rico do territ\u00f3rio onde esse ecomuseu deveria ser instalado.<\/p>\n<p>Como seria esse ecomuseu?<\/p>\n<p>Eu concebo um ecomuseu com n\u00facleos geograficamente espalhados mas t\u00e3o pr\u00f3ximos quanto poss\u00edvel, para permitir pequenas desloca\u00e7\u00f5es a p\u00e9, de barco ou de bicicleta. Defendo que o N\u00facleo Interpretativo fique no Canal de S. Roque porque a\u00ed foi o centro da actividade salineira. A\u00ed eram desembarcados os barcos saleiros, a\u00ed existiam os armaz\u00e9ns e as balan\u00e7as, a\u00ed foi constru\u00eddo um ramal ferrovi\u00e1rio e foi por causa do sal que foram constru\u00eddos os ramais da Linha do Vouga e da Linha do Norte para permitir aos comboios virem a Aveiro carregar sal. Para al\u00e9m do sal, a\u00ed eram carregados in\u00fameros produtos da regi\u00e3o. A C\u00e2mara Municipal de Aveiro \u00e9 propriet\u00e1ria de palheiros no Canal de S. Roque que podem ser adaptados para acolher esse n\u00facleo.  O lugar de maior cunho salineiro \u00e9 o Canal de S. Roque.<\/p>\n<p>O seu projecto \u00e9 mais amplo que o actual Ecomuseu da Marinha da Troncalhada?<\/p>\n<p>Sim. O ecomuseu em si n\u00e3o constitui um fim. Eu defendo que o ecomuseu deve ser a estrutura capaz de reanimar a actividade. No livro, digo claramente que a compra da Marinha da Troncalhada, pela C\u00e2mara Municipal de Aveiro, foi a iniciativa mais significativa que os poderes aut\u00e1rquicos tomaram em rela\u00e7\u00e3o a um museu do sal. Mas n\u00e3o pode ser s\u00f3 a Troncalhada. No livro defino v\u00e1rios n\u00facleos, ainda que os dois mais significativos sejam a Marinha da Troncalhada, onde se pudesse ver ao vivo as diversas fases da faina, e um n\u00facleo interpretativo. A safra do sal \u00e9 sazonal. Come\u00e7ava com a Feira dos Mo\u00e7os, por altura da Feira de Mar\u00e7o, e depois prolongava-se at\u00e9 \u201cquando Deus queria\u201d: se chovia cedo, a safra n\u00e3o seria boa, se o Ver\u00e3o se prolongava at\u00e9 mais tarde, a safra podia ir at\u00e9 Setembro ou Outubro. De Outubro at\u00e9 meados da Primavera n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mostrar a faina na marinha. Por outro lado, h\u00e1 trabalhos na marinha que n\u00e3o se repetem, mas tamb\u00e9m h\u00e1 outros que s\u00e3o muito ma\u00e7adores para o observador porque s\u00e3o mon\u00f3tonos e repetitivos. O n\u00facleo interpretativo tem de ser didacticamente muito bem pensado, da\u00ed a import\u00e2ncia que eu atribuo aos t\u00e9cnicos de museologia na estrutura\u00e7\u00e3o do ecomuseu. Esse n\u00facleo interpretativo teria m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es, desde exposi\u00e7\u00f5es at\u00e9 espa\u00e7o de \u201cloja de museu\u201d, passando por outras fun\u00e7\u00f5es que convirjam e comunguem dos mesmos interesses do ecomuseu.<\/p>\n<p>Nessa \u201cloja de museu\u201d poderia ser vendido sal, flor de sal e produtos de cosm\u00e9tica e de higiene confeccionados \u00e0 base de sal?<\/p>\n<p>Tudo isso teria a\u00ed lugar. Nenhuma porta se deve fechar. Tamb\u00e9m deveriam ser explorados dois produtos que em Portugal n\u00e3o t\u00eam merecido a devida aten\u00e7\u00e3o. Um, \u00e9 a salic\u00f3rnia, que \u00e9 uma \u201cerva\u201d, conhecida por \u201cgramata\u201d que se vende na Europa do Norte por pre\u00e7os elevados. Essa planta tem aplica\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias muito interessantes. O outro produto tem a ver com SPA, hoje tanto em moda. Onde \u00e9 que est\u00e1 o aproveitamento da \u00e1gua marinha nos SPA em Aveiro? Esse seria uma boa oferta para vender aos turistas. Outra coisa poderia ser do g\u00e9nero \u201cmanteiga feita com sal de Aveiro\u201d, como fazem em Fran\u00e7a, em que os produtores de manteiga e de sal s\u00f3 t\u00eam a beneficiar com essa parceria. O sal de Aveiro poderia entrar em v\u00e1rios produtos gourmet. Esse caminho da gastronomia e dos produtos regionais ainda est\u00e1 perfeitamente virgem e dever\u00e1 ser explorado tal como o dos SPA. A flor de sal \u00e9 car\u00edssima e, felizmente, os marnotos est\u00e3o a despertar para esse produto que j\u00e1 se pode comprar na Marinha da Troncalhada. A flor de sal \u00e9 o sal naturalmente refinado e tem um maior poder de salga, ou seja, com menor quantidade obt\u00eam-se o mesmo resultado do que usando sal normal.<\/p>\n<p>O seu livro \u00e9 tamb\u00e9m um estudo etnogr\u00e1fico do salgado\u2026  <\/p>\n<p>\u2026Que obviamente \u00e9 o mais importante. Foi um prazer extraordin\u00e1rio esse meu contacto com os marnotos. Os marnotos s\u00e3o seres humanos extraordin\u00e1rios e penso que enquanto houver marnotos esse \u00e9 um tema que dever\u00e1 ser aprofundado. Claro que antes de eu ir para a marinha documentei-me, mas nunca me deixei influenciar pelo que li e sempre estive aberto \u00e0quilo que para mim era novidade e, felizmente, encontrei algumas que acrescentei \u00e0 bibliografia existente. A brancura do sal de Aveiro \u00e9 uma quest\u00e3o t\u00e9cnica que deveria ser estudada. Eu encontrei um marnoto que revela como \u00e9 que se pode produzir sal branco sem areia. A areia \u00e9 o grande problema do sal de Aveiro. Fez-lhe sofrer alguns reveses. Apercebi-me de como os marnotos v\u00eam o mundo que eles constroem e essa vis\u00e3o deve estar dentro do ecomuseu. \u00c9 por isso que eu digo que deve ser um ecomuseu dos marnotos, com os marnotos, para os marnotos e para quem for ao museu. Toda a faina \u00e9 de uma riqueza t\u00e9cnica que, estudada ao pormenor delicia. Ficamos assombrados com algumas subtilezas da t\u00e9cnica. Tudo parece muito simples, as pr\u00f3prias alfaias s\u00e3o quase todas de madeira, mas depois, quando se come\u00e7a a analisar ao pormenor, pergunta-se \u201ccomo \u00e9 que estes homens foram capazes de descobrir isto\u201d. Temos de reconhecer nos marnotos tudo aquilo que eles s\u00e3o como art\u00edfices e tudo aquilo que eles s\u00e3o como homens que deram grandeza e esplendor a esta terra.<\/p>\n<p>Na realiza\u00e7\u00e3o do seu estudo visitou outros locais de marinhas, desde a Figueira da Foz ao Algarve.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade. E tamb\u00e9m outros museus do sal. Nas marinhas da Figueira da Foz, que est\u00e3o aqui pr\u00f3ximas, t\u00eam t\u00e9cnicas parecidas com as usadas em Aveiro e a terminologia \u00e9 muito semelhante, mas est\u00e3o a fazer inova\u00e7\u00f5es. N\u00e3o quer dizer que aqui tamb\u00e9m n\u00e3o as tenham feito, porque as fizeram, mas todas acabaram mal. H\u00e1 acultura\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se podem fazer de maneira nenhuma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta-feira, pelas 18 horas, no Sal\u00e3o Nobre dos Pa\u00e7os do Concelho de Aveiro, ser\u00e1 apresentado o livro \u201cEcomuseu do Salgado de Aveiro. Preservar para transmitir\u201d, da autoria de \u00c9nio Semedo, com edi\u00e7\u00e3o da FEDRAVE. Nesta entrevista, o autor explica o que o levou a efectuar esse estudo e as metas que prop\u00f5e. 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