{"id":4471,"date":"2009-12-09T12:11:00","date_gmt":"2009-12-09T12:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4471"},"modified":"2009-12-09T12:11:00","modified_gmt":"2009-12-09T12:11:00","slug":"a-madre-maria-nnes-na-recordacao-e-na-pena-de-d-joao-evangelista-de-lima-vidal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-madre-maria-nnes-na-recordacao-e-na-pena-de-d-joao-evangelista-de-lima-vidal\/","title":{"rendered":"A Madre Maria Nn\u00eas na recorda\u00e7\u00e3o e na pena de D. Jo\u00e3o Evangelista de Lima Vidal"},"content":{"rendered":"<p>Eu bem sei que h\u00e1 muitas madres prioresas, cada qual para o seu convento; mas para mim, quando se diz madre prioresa, assim em geral, sem qualquer outra especifica\u00e7\u00e3o, a madre prioresa \u00e9 s\u00f3 uma, nem pode ser outra, \u00e9 a Madre Maria In\u00eas do Col\u00e9gio de Santa Joana de Aveiro, de apelido de fam\u00edlia Champalimaud Duff.<\/p>\n<p>Acontece que \u00e0s vezes almas grandes, de voos largos, tocadas mesmo pelo fogo do g\u00e9nio, se aninham e se ajeitam o melhor que podem em tristes inv\u00f3lucros, em corpos raqu\u00edticos ou monstruosos, em encaderna\u00e7\u00f5es defeituosas, grotescas, fora daquela harmonia pr\u00e9-estabelecida, que estava tanto na mente de algumas escolas filos\u00f3ficas da Idade-M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Quando eu penso, por exemplo, em Giacomo Leopardi [1798-1837], essa crian\u00e7a que aos doze anos iludia a sabedoria do tempo, que fazia passar por odes de Anacreonte, de Xenofonte ou de Hor\u00e1cio, ou por metamorfoses de Ov\u00eddio aquilo que n\u00e3o era sen\u00e3o os versos que ele compunha, amarrado a uma mesa pela severidade do pai, \u00e0 altura de uma tal aventura; quando eu penso nesse pobre corcunda, nesse an\u00e3o torcido e franzino que aguentou, sem se despeda\u00e7ar \u00e0s primeiras, numa carne miser\u00e1vel, o esp\u00edrito super-humano que reatou nos nossos tempos as tradi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da It\u00e1lia de Dante, de Ariosto ou de Tasso; j\u00e1 me n\u00e3o custa nada a admitir que, mesmo num vaso fr\u00e1gil \u2013 \u2018in vasis fictilibus\u2019 \u2013 como dizia S. Paulo, possa medrar e mexer-se uma planta imortal.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se d\u00e1, nem de longe, o caso de um tal desequil\u00edbrio, de uma despropor\u00e7\u00e3o t\u00e3o chocante, na Madre Maria In\u00eas do Convento de Santa Joana. Dizia-me uma vez o Doutor Francisco Jos\u00e9 de Sousa Gomes, lente catedr\u00e1tico da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra [1860-1911], que, se porventura fechasse os olhos quem se encontrasse com ela a falar na sala, poderia ter a impress\u00e3o de que n\u00e3o estava a falar com nenhuma freirita, vestida de sarago\u00e7a ou de sarja, mas que tinha diante de si a pr\u00f3pria Rainha Santa Isabel, com as rosas do seu milagre no rega\u00e7o, com o esplendor da sua aur\u00e9ola e do seu diadema na fronte. Era alta, delgada, majestosa por si mesma, sem fazer o m\u00ednimo esfor\u00e7o para o ser ou pelo menos para parecer, tendo sempre nos l\u00e1bios por singular inspira\u00e7\u00e3o, com certeza, as palavras sobre todas pr\u00f3prias que n\u00f3s mais desejar\u00edamos ouvir no momento. Ficava admiravelmente bem o seu alto esp\u00edrito no manto imponente da sua mesma apresenta\u00e7\u00e3o corporal. Algu\u00e9m at\u00e9 notou que, quando ela vinha de longe pelos corredores, as contas no h\u00e1bito tilintavam de uma maneira diferente das outras. \u00c9 que naturalmente os seus passos mais leves, mais aristocr\u00e1ticos, mais de andorinha, transmitiam ao ros\u00e1rio, pendente \u00e0 cintura, um ritmo especial, mais distinto, mais cadenciado, mais musical; eram harpa as cam\u00e2ndulas.<\/p>\n<p>Ela era uma destas criaturas de ascendente e de privil\u00e9gio, do g\u00e9nero de Santa Catarina de Sena que, quando a gente a via e a ouvia uma vez, da\u00ed por diante, ainda que estivesse a cinco centos de l\u00e9guas distante, ainda que se metesse de permeio toda a \u00e1gua do Mar Pac\u00edfico ou do Atl\u00e2ntico, s\u00f3 o pensamento de fazer qualquer coisa que n\u00e3o lhe merecesse aplauso, era o suficiente para nos conter, para n\u00e3o se nos desnivelar a vida no sentido perpendicular para baixo. Irradiava, mesmo sem querer, apostolado. Foi, e \u00e9 ainda, toda ela uma prega\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Eu j\u00e1 a deixei, quando fui para Angola, atacada do mal terr\u00edvel de que morreu. As gravatas, os vestidos, os carapu\u00e7os, que ela me mandava de vez em quando para os pretos e que ainda hoje, \u00e0 certa, n\u00e3o mudaram de pesco\u00e7o, de cabe\u00e7a, de corpo, nem mudar\u00e3o enquanto se conservar um fio da sua primitiva estrutura, j\u00e1 eram arranjados e empacotados no seu catre de enferma, com tr\u00eas degraus de almofadas atr\u00e1s das costas, para n\u00e3o ser \u2013 como diz Santa Clara no Brevi\u00e1rio \u2013 \u2018etiam in infirmitatibus suis otiosa\u2019 \u2013 mesmo na cama inoperosa.<\/p>\n<p>Quando morreu, n\u00e3o admira, o pr\u00f3prio Jos\u00e9 Est\u00eav\u00e3o desceu do pedestal no Largo do Munic\u00edpio e pegou \u00e0s borlas do caix\u00e3ozinho. Disseram-me que estava o tempo de chuva, que n\u00e3o era um dil\u00favio, mas as chuvas n\u00e3o t\u00eam nada com estas coisas, a n\u00e3o ser que elas fossem nesse dia o pr\u00f3prio pranto do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Nas \u201cLi\u00e7\u00f5es da Natureza e dos Homens\u201d eu contei como recebi no Congo a not\u00edcia da sua morte, quando eu me preparava para tomar parte num banquete de gala. \u00c9 claro que entrei na sala com a cara mais prazenteira do mundo, ou pelo menos com a cara mais prazenteira do meu guarda-roupa; mas, ao champanhe, era tal o entusiasmo que at\u00e9 se entornou a ta\u00e7a na minha batina.<\/p>\n<p>As com\u00e9dias da vida!&#8230;<\/p>\n<p>(Correio do Vouga, 20-12-1947)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu bem sei que h\u00e1 muitas madres prioresas, cada qual para o seu convento; mas para mim, quando se diz madre prioresa, assim em geral, sem qualquer outra especifica\u00e7\u00e3o, a madre prioresa \u00e9 s\u00f3 uma, nem pode ser outra, \u00e9 a Madre Maria In\u00eas do Col\u00e9gio de Santa Joana de Aveiro, de apelido de fam\u00edlia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4471","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4471"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4471\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4471"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}