{"id":4520,"date":"2009-12-09T17:44:00","date_gmt":"2009-12-09T17:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4520"},"modified":"2009-12-09T17:44:00","modified_gmt":"2009-12-09T17:44:00","slug":"chicotadas-do-papa-e-seu-sentido-verdadeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/chicotadas-do-papa-e-seu-sentido-verdadeiro\/","title":{"rendered":"Chicotadas do Papa e seu sentido verdadeiro"},"content":{"rendered":"<p>O taxista que, pelas ruas do Porto, me levava \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Campanh\u00e3, percebendo pela conversa dos que me acompanhavam que eu era homem da Igreja, lamentou-se da not\u00edcia publicada no jornal desse dia, que dizia que o Papa Jo\u00e3o Paulo II, segundo o testemunho de uma freira polaca, se chicoteava a si pr\u00f3prio, no seu quarto privado e na calada da noite. E comentava: \u201cO senhor j\u00e1 morreu h\u00e1 tanto tempo, porque v\u00eam agora os jornais com esta conversa. Ele fazia o que entendia, e ningu\u00e9m tem nada com isso\u201d. P\u00f4s-me nas m\u00e3os o jornal do dia onde vinha o que se dizia do Papa. L\u00e1 lhe expliquei o que significavam essas chicotadas e que o que dissera a religiosa fora para justificar a santidade e a virtude de Jo\u00e3o Paulo II. <\/p>\n<p>Compreende-se que, num tempo em que se idolatra o corpo, se fique chocado ao saber que algu\u00e9m, ainda por cima o Papa, o chicoteava de quando em quando. <\/p>\n<p>Cil\u00edcios, disciplinas, jejuns eram formas ocasionais de penit\u00eancia pessoal, frequentes em tempos passados, n\u00e3o muito long\u00ednquos, e, ainda hoje, ao alcance de quem livremente as quiser usar. Consideram-se meios de ascese crist\u00e3, porque de apelo \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o e ao fortalecimento interior. Destes permanece ainda, na Igreja, como conselho de livre acolhimento e preceito duas vezes por ano, o jejum, como apelo \u00e0 partilha com os pobres. Na sociedade, ele pratica-se, por vezes com exageros prejudiciais \u00e0 sa\u00fade, por raz\u00f5es est\u00e9ticas. As disciplinas e os cil\u00edcios foram progressivamente esquecidos, como se se tratasse de instrumentos desumanos, capazes de envergonhar gente evolu\u00edda.<\/p>\n<p>Pelos vistos, Jo\u00e3o Paulo II, n\u00e3o pensava assim. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o o penso. Durante um retiro espiritual de 30 dias, que fiz em Espanha, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o mais de quarenta anos, usei algumas vezes, poucas, a disciplina, ou seja, chicoteei-me, a conselho do orientador, um padre jesu\u00edta, homem de virtude, que tem introduzido o seu processo de canoniza\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio dos cursos de cristandade, d\u00e9cada de sessenta, tamb\u00e9m usei algumas vezes o cil\u00edcio, a exemplo dos dirigentes respons\u00e1veis, vindos de Ciudad Real, para nos ajudarem, na minha diocese de ent\u00e3o, no lan\u00e7amento desse m\u00e9todo evangelizador. Em nenhum dos casos senti que este uso ocasional me tivesse feito mal, me entorpecesse o sentido, me tirasse a alegria, me traumatizasse para a vida. Na corrente do tempo que se vive, n\u00e3o voltei a usar nem a disciplina, nem o cil\u00edcio. Mas guardo-os para poder mostrar a quem nunca experimentou, nem viu, aproveitando para fazer a catequese da necessidade que todos temos de nos penitenciarmos, seja l\u00e1 como for, como recomenda a Palavra de Deus e o ilustra a vida de muitos santos.<\/p>\n<p>A vida mostra que s\u00f3 consegue perceber o valor e a alegria da humildade, que traduz a verdade que somos, quem voluntariamente se humilha ou aceita, com coragem, a humilha\u00e7\u00e3o que lhe sobrev\u00e9m. Cil\u00edcio e disciplina eram caminho para conter orgulhos e vaidades, e n\u00e3o deixar que os \u00eaxitos nos desvirtuassem. Hoje h\u00e1 outros caminhos, que s\u00f3 o s\u00e3o, quando andados e praticados. Paulo fala destes e do uso pessoal que deles fazia, Cristo deixou a advert\u00eancia que, sem penit\u00eancia, todos perecem do mesmo modo.<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o c\u00f3moda entorpece os ossos, n\u00e3o os revigora. Paralisa, n\u00e3o agiliza. <\/p>\n<p>A vida, assumida como dom e compromisso, \u00e9 sempre penit\u00eancia libertadora, para um cora\u00e7\u00e3o que a f\u00e9 orienta e a raz\u00e3o esclarece. A vida \u00e9, tamb\u00e9m, ora\u00e7\u00e3o e louvor, para aqueles que n\u00e3o se esquecem que, ante Deus, s\u00e3o sempre todos mendigos agradecidos.<\/p>\n<p>Fiquei contente e grato a Jo\u00e3o Paulo II, ao saber que ele, homem fascinante do nosso tempo, crente que dava a cara \u00e0s adversidades, ap\u00f3stolo que rompia fronteiras a proclamar Jesus Cristo, como \u00fanico Redentor do homem, de quando em quando, se chicoteava a si pr\u00f3prio com a disciplina. Para Teresa de Calcut\u00e1, o caminho foi o da serena aceita\u00e7\u00e3o da priva\u00e7\u00e3o de consola\u00e7\u00f5es, humanas e divinas, numa vida longa doada aos outros e a quem s\u00f3 bastou a certeza do dever cumprido e do amor nunca regateado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O taxista que, pelas ruas do Porto, me levava \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Campanh\u00e3, percebendo pela conversa dos que me acompanhavam que eu era homem da Igreja, lamentou-se da not\u00edcia publicada no jornal desse dia, que dizia que o Papa Jo\u00e3o Paulo II, segundo o testemunho de uma freira polaca, se chicoteava a si pr\u00f3prio, no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-4520","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4520","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4520"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4520\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}