{"id":469,"date":"2010-02-03T10:24:00","date_gmt":"2010-02-03T10:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=469"},"modified":"2010-02-03T10:24:00","modified_gmt":"2010-02-03T10:24:00","slug":"afasta-te-de-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/afasta-te-de-mim\/","title":{"rendered":"\u00abAfasta-te de mim!\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu*<\/p>\n<p>* \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4)<\/p>\n<p>Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n<p> <!--more--> V DOMINGO TEMPO COMUM &#8211; C<\/p>\n<p>\u00abAfasta-te de mim!\u00bb Diz-se em voz alta, mas sobretudo para dentro: quando nos calha um intruso, um passante inoportuno, um \u201camigo\u201d r\u00e9mora, um namorado que n\u00e3o encaixa, o c\u00f4njuge que j\u00e1 n\u00e3o queremos ao lado\u2026 At\u00e9 desejar\u00edamos poder diz\u00ea-lo \u00e0s ideias obsessivas aos ideais inc\u00f3modos e \u00e0 nossa consci\u00eancia. Dizemo-lo tanto por orgulho como por falsa humildade: tanto nos achamos senhores supremos das nossas escolhas sem termos que dar aten\u00e7\u00e3o aos outros, como nos achamos incapazes de realizar o que desejamos e de colaborar num plano comunit\u00e1rio. Por outro lado, verdade seja dita que, de vez em quando, precisamos de nos afastar na tranquilidade do nosso cantinho.  <\/p>\n<p>A Isa\u00edas tamb\u00e9m lhe calhou uma presen\u00e7a estranha, pertinazmente importuna e ainda por cima como que \u201cmascarada\u201d: a do Senhor Deus no seu esplendor, que os olhos humanos nunca podem ver claramente. Apenas os \u00abseres ardentes\u00bb (significado do termo hebraico \u00abserafim\u00bb) a conseguem cantar, chamando-Lhe tr\u00eas vezes (ou seja, perfeitissimamente) \u00abSanto\u00bb \u2013 uma f\u00f3rmula de culto j\u00e1 anterior a Isa\u00edas e n\u00e3o exclusiva do juda\u00edsmo. <\/p>\n<p>Havia raz\u00e3o para ter medo: acreditava-se que a vis\u00e3o da transcend\u00eancia divina era de tal modo tremenda que podia aniquilar o ser humano. Por isso, esse profeta precisou de muita coragem (ou ter\u00e1 tido o atrevimento) para aceitar o desafio que lhe fora lan\u00e7ado pelo pr\u00f3prio Deus \u2013 mas sobretudo porque teve a experi\u00eancia de que o encontro com Deus tamb\u00e9m podia purificar os humildes, pondo a for\u00e7a divina no seu cora\u00e7\u00e3o. Partiu ent\u00e3o a pregar a \u00absantidade de Deus\u00bb, \u00abo Santo de Israel\u00bb. <\/p>\n<p>A \u00absantidade\u00bb \u00e9 a caracter\u00edstica daquilo que \u00e9 divino, essencialmente e infinitamente diferente das caracter\u00edsticas humanas. Esta realidade t\u00e3o estranha enche de medo os \u00abmortais\u00bb, que se sentem vulner\u00e1veis \u00e0 ac\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica ou mal\u00e9fica de um ser superior. \u00abSanto\u00bb e \u00absagrado\u00bb (em ingl\u00eas \u00abholy\u00bb) derivam do mesmo radical indo-europeu (\u00absak\u00bb e \u00absank\u00bb), j\u00e1 com o sentido de consagrar, dedicar, apontando para algo aparte e inviol\u00e1vel (o radical de \u00abholy\u00bb tem o sentido de completo, em perfeito estado, como se v\u00ea em \u00abwhole\u00bb e \u00abhealth\u00bb).<\/p>\n<p>O \u00abSanto de Israel\u00bb \u00e9 inacess\u00edvel, abso-luto (totalmente separado, e portanto isento de toda a relatividade humana). Mas \u00e9 tamb\u00e9m amor, prazer, for\u00e7a, salva\u00e7\u00e3o e apoio absolutos (portanto n\u00e3o sujeitos \u00e0 relatividade e instabilidade humanas), \u00abrochedo inabal\u00e1vel\u00bb, \u00abpalavra criadora\u00bb, \u00abbenevol\u00eancia e fidelidade eternas\u00bb. Ao longo da B\u00edblia, e particularmente nos Salmos (como o da liturgia de hoje), encontram-se frequentemente estes conceitos. De toda a maneira, \u00e9 normal que se tenham desenvolvido rituais de aproxima\u00e7\u00e3o de Deus, normalmente rituais de purifica\u00e7\u00e3o (que normalmente incluem injun\u00e7\u00f5es morais).<\/p>\n<p>Na 2.\u00aa leitura (onde encontramos a forma provavelmente mais antiga do credo crist\u00e3o), S. Paulo j\u00e1 elimina as barreiras entre os seres humanos e Deus: o seu \u00abpoder absoluto\u00bb eleva-os \u00e0 dignidade divina \u2013 o que sempre pareceu inveros\u00edmil para a intelig\u00eancia humana (Actos dos Ap\u00f3stolos, 17, 16-34). Ele pr\u00f3prio se confessa \u00abindigno de ser chamado ap\u00f3stolo\u00bb, \u00abum aborto\u00bb, n\u00e3o s\u00f3 por ter perseguido os crist\u00e3os, mas pelas suas muitas fraquezas. N\u00e3o fora o clima fren\u00e9tico \u00e0 volta do tema do aborto, n\u00e3o dar\u00edamos tanta aten\u00e7\u00e3o ao termo. Mas S. Paulo apenas confessa humildemente que, perante a perfei\u00e7\u00e3o de Deus, n\u00e3o passa de um ser mal formado, jamais amadurecido, mas que mesmo assim a Vida divina se serve dele para comunicar mais vida. Por isso, Deus o purificou \u2013 e com que viol\u00eancia\u2026 \u2013 a caminho de Damasco. <\/p>\n<p>E agora, \u00e9 a vez de S. Pedro (evange-lho):<\/p>\n<p>\u00ab\u00c0 tua voz, Senhor, lan\u00e7arei as redes\u00bb, exclama. Pedro admirava imenso Jesus, mas n\u00e3o estava nada \u00e0 espera de ter um amigo assim t\u00e3o \u201cestranho\u201d! E ao dar conta de que \u00abo Santo de Israel\u00bb, com todo o seu poder, se manifestava em Jesus, caiu de joelhos e gritou: \u00abAfasta-te de mim!\u00bb<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os tempos eram outros e Jesus deu-lhe a volta: \u00e0 humildade de Pedro seguiu-se a \u201cpromo\u00e7\u00e3o\u201d a \u00abpescador de homens\u00bb (uma imagem linda e profunda, mas profanada pelos que se arrogaram o direito de \u201cpescar \u00e0 for\u00e7a\u201d, utilizando o seu falso poder espiritual para obrigar os outros, at\u00e9 com amea\u00e7as cru\u00e9is, a \u201centrarem na rede\u201d, submetendo-se a um c\u00f3digo falsamente apelidado de \u00abf\u00e9\u00bb. No melhor pano cai a n\u00f3doa!). <\/p>\n<p>Parecia provado que n\u00e3o s\u00e3o os muitos defeitos e decis\u00f5es erradas que nos afastam de Deus \u2013 mas sim o teimar no erro, por caturrice ou pregui\u00e7a.<\/p>\n<p>(Verdade verdadinha, n\u00e3o faltam raz\u00f5es para dizer a Deus: \u00abAfasta-te de mim!\u00bb Mas ser\u00e1 sobretudo devido ao conflito interior entre as exig\u00eancias da justi\u00e7a e o comodismo; e sempre que n\u00e3o juntamos a intelig\u00eancia e o cora\u00e7\u00e3o para ordenar o projecto da vida, conscientes do nosso temperamento, incapacidades e capacidades, desejos \u201cbons\u201d e \u201cmaus\u201d&#8230; Valha o realismo de S. Paulo: \u00abpela gra\u00e7a de Deus sou o que sou\u2026\u00bb e tornou-se \u00abpescador de homens\u00bb com todas as qualidades e defeitos que tinha, achando at\u00e9 que podia dizer que trabalhava mais do que os outros ap\u00f3stolos\u2026) <\/p>\n<p>Pedro era mesmo um amigo fixe, mas demasiado auto-confiante e impulsivo: quando se viu em perigo de ser preso com Jesus, apressou-se a negar, e por tr\u00eas vezes, ser seu amigo. O evangelho de Jo\u00e3o (21,15-19) termina com um interessante di\u00e1logo, j\u00e1 depois da ressurrei\u00e7\u00e3o: Jesus perguntou a Pedro, e por tr\u00eas vezes, se era deveras seu amigo. \u00c9 claro que Pedro acusou o toque\u2026 Fica triste e receoso de si pr\u00f3prio, at\u00e9 porque j\u00e1 experimentou que mesmo o maior amor humano \u00e9 imperfeito. Mas \u00e9 ent\u00e3o que \u00e9 convidado a trabalhar no projecto de Cristo, e curiosamente j\u00e1 n\u00e3o responde: \u00abAfasta-te de mim!\u00bb <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1rvore de Zaqueu* * \u00abPorque era de baixa estatura, subiu a uma \u00e1rvore para ver Jesus\u00bb (Lucas 19,3-4) Se treparmos at\u00e9 ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-469","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=469"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/469\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}