{"id":4716,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4716"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"o-amor-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-amor-incomoda\/","title":{"rendered":"O amor incomoda"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia <!--more--> Com maior ou menor frequ\u00eancia, acontece-nos a todos trope\u00e7ar em alguma coisa ou algu\u00e9m, que nos obriga a parar e a pensar. Os acontecimentos \u00e0 nossa volta, as circunst\u00e2ncias espec\u00edficas de cada um, a vida vivida (e quase nunca sonhada) e aquilo que n\u00e3o entendemos levam-nos a fazer perguntas a n\u00f3s pr\u00f3prios. A tentar perceber, a encontrar um sentido, a avaliar e a medir.<\/p>\n<p>Ir ao fundo se si mesmo nunca \u00e9 um caminho f\u00e1cil nem linear e, por isso, instintivamente evitamos algumas direc\u00e7\u00f5es e preferimos certos atalhos. Parecem-nos mais seguros e, no imediato, at\u00e9 abreviam o percurso, mas intimamente sabemos que, a longo curso, muitos destes atalhos s\u00f3 multiplicam os trabalhos.<\/p>\n<p>Temos tantas coisas mal arru-madas dentro de n\u00f3s que a tenta\u00e7\u00e3o de evitar caminhos \u00e9 banal e universal. Ou seja, todos sabemos do que se trata.<\/p>\n<p>Acontece que nem sempre podemos \u201cir \u00e0 volta\u201d, assobiar para o ar ou fingir que n\u00e3o vemos o que estamos a ver e n\u00e3o ouvimos o que estamos a ouvir. Falo, em especial, da voz interior que nos habita e jamais poderemos calar. Falo de sentimentos, portanto.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m disse um dia que \u201cdeixar-se amar \u00e9 aquilo a que todos resistimos mais ao longo da nossa vida\u201d e, de facto, deixarmo-nos amar \u00e9 de certa forma inc\u00f3modo. Sen\u00e3o vejamos.<\/p>\n<p>Aceitar amar e ser amado envolve riscos \u00e0 partida: podemos sofrer com esse amor; podemos achar que n\u00e3o estamos \u00e0 altura de responder aos seus desafios; podemos sentir posse e ci\u00fames e podemos ter a ang\u00fastia de o vir a perder. Para quem, como n\u00f3s, tem tantos medos e afli\u00e7\u00f5es, e, insisto, tantas coisas por arrumar c\u00e1 dentro, estes e outros riscos s\u00e3o um pre\u00e7o demasiado elevado para pagar pelo amor. Ou n\u00e3o. Tudo depende do pre\u00e7o que cada um est\u00e1 disposto a pagar por aquilo que \u00e9 verdadeiramente essencial para si.<\/p>\n<p>Acima de tudo, ningu\u00e9m quer sofrer, mas na realidade tamb\u00e9m tem que haver lugar para a tristeza e, neste sentido, cabe perguntar se por haver sofrimento as coias deixam de ser importantes.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 quest\u00e3o do amor poder ser inc\u00f3modo, vale a pena pensar que, sob a apar\u00eancia de bem, o tempo e a vida muitas vezes se v\u00e3o encarregando de nos tirar a capacidade de amar e de sermos amados, na medida em que nos v\u00e3o enchendo de coisas, interesses, medos, equ\u00edvocos, situa\u00e7\u00f5es menos claras, crit\u00e9rios, prioridades e pregui\u00e7as que se v\u00e3o instalando na nossa cabe\u00e7a e no nosso cora\u00e7\u00e3o e nos impedem de sentir com verdade. Este tempo vertiginoso e esta vida acelerada confundem-nos e alteram profundamente a nossa maneira de ser e estar. Muitas vezes n\u00e3o percebemos o que \u00e9 importante e n\u00e3o sabemos onde pomos o cora\u00e7\u00e3o. O pior \u00e9 que frequentemente as nossas prioridades do cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o acompanham as da cabe\u00e7a e \u00e9 este descompasso de racionalmente sabermos o que vem em primeiro lugar, mas emocionalmente n\u00e3o sermos capazes de lhe dar a prioridade absoluta, que, tantas vezes, nos deita a perder.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente nesta l\u00f3gica, neste sentido exigente e perturbador, que o amor exerce alguma viol\u00eancia sobre n\u00f3s. Ou pelo menos alguma press\u00e3o, na medida em que nos obriga a perceber que se n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para amar \u00e9 porque esse espa\u00e7o est\u00e1 ocupado com outras coisas.<\/p>\n<p>Por tudo isto, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ir mais longe se arriscarmos quebrar paredes e derrubar muros que permitam criar o espa\u00e7o que nos falta. Ou fazer como fazem os entendidos, que podam as videiras e cortam os ramos para que os frutos cres\u00e7am mais e a seiva circule melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-4716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4716\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}