{"id":4731,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4731"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"a-eucaristia-e-a-presenca-feliz-de-deus-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-eucaristia-e-a-presenca-feliz-de-deus-no-mundo\/","title":{"rendered":"A Eucaristia \u00e9 a presen\u00e7a feliz de Deus no Mundo"},"content":{"rendered":"<p>MARIA ISABEL PEREIRA VARANDA, oradora do Congresso Eucar\u00edstico, doutorada em teologia dogm\u00e1tica <!--more--> Maria Isabel Pereira Varanda \u00e9 professora da Universidade Cat\u00f3lica, em Braga, e preside ao Centro de Solidariedade\/Projecto Homem (Braga). Inicialmente formou-se em Enfermagem, em 1985, mas depois decidiu estudar Teologia e concluiu o doutoramento em Teologia Dogm\u00e1tica, na Universidade Cat\u00f3lica de Louvain-la-Neuve (B\u00e9lgica), em 1999. Al\u00e9m de ensinar na UCP de Braga, colabora com a Universidade do Minho, o Instituto Teol\u00f3gico Compostelano (Espanha) e o Instituto de Bio\u00e9tica da UCP (Porto e Lisboa). No Congresso, abordar\u00e1 o tema \u201cEucaristia num mundo secularizado\u201d.<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; A Eucaristia \u00e9 uma ilha de sagrado no meio do mundo secularizado?<\/p>\n<p>Maria Isabel Varanda &#8211; \u00c9 o tipo de pergunta \u00e0 qual n\u00e3o se pode responder sim ou n\u00e3o. A palavra sagrado coloca-me algumas dificuldades, mormente no que ela sugere de polaridade dicot\u00f3mica da realidade; sagrado e profano, dois mundos que se op\u00f5em e se repugnam mutuamente. \u00c9 que a condi\u00e7\u00e3o de \u201csalvos\u201d em Jesus Cristo deslegitima qualquer pretens\u00e3o a traduzir a realidade da cria\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de termos \u00e9ticos opostos.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos falar, ent\u00e3o, de mundos em oposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Os bin\u00f3mios puro-impuro; bom-mau, sagrado-profano s\u00e3o inadequados para traduzirem uma realidade que o mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo marca definitivamente com uma salva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o exclui, mas que, pelo contr\u00e1rio, se estende de forma inclusiva a toda a criatura.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a palavra ilha \u00e9 provocadora. A defini\u00e7\u00e3o corrente de ilha como \u201cum peda\u00e7o de terra rodeada de \u00e1gua por todos os lados\u201d sugere-me, de imediato, isolamento. Nesta acep\u00e7\u00e3o, a Eucaristia n\u00e3o \u00e9 uma ilha, porque os ilh\u00e9us, que supostamente celebrariam a Eucaristia na ilha, vivem no continente; s\u00e3o mun-do e vivem no mundo e \u00e9, precisa-mente, no seio do mundo secularizado que, aqueles que cr\u00eaem, edificam o\u00e1sis de transcend\u00eancia, pen\u00ednsulas e pontes, celebrando a sua f\u00e9 no Deus criador de um mundo capaz de autonomia e capaz de viver \u201cetsi Deus non daretur\u201d (como se Deus n\u00e3o existisse). <\/p>\n<p>O que \u00e9 o mundo secularizado?<\/p>\n<p>De uma forma geral, a palavra seculariza\u00e7\u00e3o remete para um fen\u00f3meno hist\u00f3rico que resulta do confronto entre, por um lado, o Homem moderno, que defende a autonomia da esfera terrestre e o direito a viver num mundo sem Deus, e, por outro lado, uma sociedade fortemente ligada \u00e0 Igreja em todos os seus aspectos. O processo de seculariza\u00e7\u00e3o sup\u00f5e uma progressiva emancipa\u00e7\u00e3o das sociedades (sentido objectivo) e das consci\u00eancias (sentido subjectivo) da tutela do religioso. Se \u00e9 verdade que os movimentos de seculariza\u00e7\u00e3o e laiciza\u00e7\u00e3o reagem principalmente contra o cristianismo, eles op\u00f5em-se \u00e0s religi\u00f5es em geral.<\/p>\n<p>Mas nem tudo \u00e9 negativo na seculariza\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 que reconhecer que o processo de seculariza\u00e7\u00e3o do mundo tem contribu\u00eddo, pelo seu vigor intelectual e pela sua preocupa\u00e7\u00e3o humanista, para a valoriza\u00e7\u00e3o positiva do mundo e para o despertar do indiv\u00edduo \u00e0 responsabilidade por si, pela cidade e pelo ambiente natural. No entanto, comporta um imenso empobrecimento, ao promover uma antropologia m\u00edope, em que os horizontes humanos se reduzem aos limites da simples iman\u00eancia, o \u201cinstinto de transcend\u00eancia\u201d \u00e9 reprimido, n\u00e3o deixa espa\u00e7o para as quest\u00f5es fundamentais do ser humano: sentido da vida, origem, destino\u2026 e n\u00e3o deixa espa\u00e7o para Deus. <\/p>\n<p>Na din\u00e2mica do humanismo sem Deus, entregues a n\u00f3s mesmos, e diante uns dos outros, n\u00e3o nos descobrimos nem mais humanos, nem mais felizes, nem mais realizados. Se n\u00e3o acreditar em Deus \u00e9 um direito, acreditar em Deus tamb\u00e9m \u00e9 um direito. E o direito de Deus? N\u00e3o ter\u00e1 Deus tamb\u00e9m direito a um lugar no seio do mundo secular? <\/p>\n<p>Se algum dia o ser humano deixar de acreditar em Deus, creio que nem a\u00ed Deus deixar\u00e1 de acreditar no ser humano e far-nos-\u00e1 perceber isso.<\/p>\n<p>O mundo secularizado op\u00f5e-se \u00e0 Eucaristia?<\/p>\n<p>O fundamentalismo secular (secularismo) op\u00f5e-se \u00e0 Eucaristia, porque, neste regime, Deus \u00e9 o \u201cinimigo n\u00ba 1\u201d. \u00c9 portanto inconceb\u00edvel qualquer refer\u00eancia da exist\u00eancia humana a Deus que n\u00e3o seja para O negar e recusar. <\/p>\n<p>Podemos depreender que uma seculariza\u00e7\u00e3o sem fundamenta-lismo \u00e9 poss\u00edvel\u2026<\/p>\n<p>De facto, a secularidade, entendida como \u201cjusta autonomia das realidades criadas\u201d, inscreve-se no projecto de Deus para a sua cria\u00e7\u00e3o; um projecto de liberdade, de res-ponsabilidade, de criatividade e de autonomia. No livro do G\u00e9nesis, no primeiro relato da Cria\u00e7\u00e3o, lemos que \u201cDeus viu que tudo era muito bom\u201d. Deus sa\u00fada a secularidade do mundo por Ele criado e confia o mundo ao ser humano para ele o gerir e dele cuidar, no respeito pelas leis intr\u00ednsecas de cada ser. A Eucaristia, como louvor e ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, tem todo o sentido no seio de um mundo secular. A autonomia da \u201ccidade secular\u201d n\u00e3o implica impossibilidade de um Deus real e presente; ouso dizer que a autonomia \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial para uma justa e eucar\u00edstica rela\u00e7\u00e3o com Deus. <\/p>\n<p>Qual \u00e9 o lugar da Eucaristia neste mundo? <\/p>\n<p>A Eucaristia \u00e9 um estado de alma permanente daquele que reconhece n\u00e3o ter a sua raz\u00e3o de ser em si mesmo; daquele que percebe a sua vida como desejada e amada e por Deus; daquele que encontra coer\u00eancia e realiza\u00e7\u00e3o na refer\u00eancia do seu ser a Deus. <\/p>\n<p>A Eucaristia \u00e9 uma din\u00e2mica de comunh\u00e3o de dimens\u00f5es c\u00f3smicas; \u00e9 celebrada por aqueles que vivem na f\u00e9, num un\u00edssono de louvor, de comunh\u00e3o e de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. A Eucaristia \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o do amor das criaturas pelo seu criador. Celebra\u00e7\u00e3o do amor e celebra\u00e7\u00e3o de amor, marcada por especiais momentos de intimidade: A Santa Missa. Para aquele que cr\u00ea, a Eucaristia \u00e9 tudo; para o que n\u00e3o cr\u00ea, a Eucaristia \u00e9 nada. O seu lugar no mundo tem a medida da f\u00e9 do mundo.<\/p>\n<p>No seio do mundo secularizado, a Eucaristia est\u00e1 para al\u00e9m do positivismo materialista e cient\u00edfico; ela \u00e9 dinamismo metaf\u00edsico; \u00e9 representa\u00e7\u00e3o efectiva do m\u00fanus sacerdotal (fazer ponte com todas as criaturas e tamb\u00e9m com Deus). <\/p>\n<p>A Eucaristia lembra que o secularismo n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima nem a \u00fanica palavra sobre o sentido, a voca\u00e7\u00e3o e o destino do mundo. Como a pequena luz que brilha ao lado dos milh\u00f5es de sacr\u00e1rios espalhados pelo mundo e que assinalam uma Presen\u00e7a, a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica imprime a sua marca no mundo secular, lembrando que Deus n\u00e3o \u00e9 m\u00e1 not\u00edcia para o mundo, mas antes uma possibilidade leg\u00edtima e feliz de Presen\u00e7a no mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA ISABEL PEREIRA VARANDA, oradora do Congresso Eucar\u00edstico, doutorada em teologia dogm\u00e1tica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"class_list":["post-4731","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eucaristia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4731","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4731"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4731\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4731"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4731"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4731"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}