{"id":476,"date":"2010-02-03T10:33:00","date_gmt":"2010-02-03T10:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=476"},"modified":"2010-02-03T10:33:00","modified_gmt":"2010-02-03T10:33:00","slug":"crise-na-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/crise-na-educacao\/","title":{"rendered":"Crise na educa\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o motivada pelo f\u00f3rum \u201cPensar a Escola. Preparar o futuro\u201d (Lisboa, 22 a 24 de Janeiro) <!--more--> \u00abA crise de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma crise da educa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 crise da educa\u00e7\u00e3o; nunca houve crise da educa\u00e7\u00e3o; as crises da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o crises da educa\u00e7\u00e3o; s\u00e3o crises da vida; (\u2026) quando uma sociedade n\u00e3o pode educar, \u00e9 porque essa sociedade n\u00e3o pode educar-se; \u00e9 porque ela tem vergonha, \u00e9 porque ela tem medo de se educar a si mesma; para toda a humanidade, educar, na verdade, \u00e9 educar-se; uma sociedade que n\u00e3o se educa \u00e9 uma sociedade que n\u00e3o se ama, que n\u00e3o se estima; e tal \u00e9, precisamente, o caso da sociedade moderna.\u00bb<\/p>\n<p>Charles P\u00e9guy<\/p>\n<p>Duas notas podem colher-se das palavras do grande escritor franc\u00eas, Charles P\u00e9guy, morto em combate, durante a I Grande Guerra: ao falar-se dos problemas que assolam a educa\u00e7\u00e3o deve estar-se consciente de que a sua resolu\u00e7\u00e3o dever\u00e1 envolver os paradigmas em que se estrutura a vida das sociedades; que falar de educa\u00e7\u00e3o concerne a um territ\u00f3rio que \u00e9 pr\u00f3prio do amor \u2013 aquele a que Sebasti\u00e3o da Gama considerava ser o terreno da cria\u00e7\u00e3o de homens.<\/p>\n<p>E \u00e9 da distrac\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a estas notas que redundam muitos dos erros com que v\u00eam sendo conduzidas sucessivas reformas educativas: n\u00e3o haver\u00e1 verdadeiras reformas da educa\u00e7\u00e3o sem envolver a sociedade e, de forma muito particular, os primeiros respons\u00e1veis pela educa\u00e7\u00e3o que s\u00e3o os pais, as fam\u00edlias. Um sistema em que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 decidida, forjada por um totipotente Estado redunda num totalitarismo incapaz de educar, mas apenas de formatar. E educar n\u00e3o \u00e9, de modo algum, formatar. Na sua raiz etimol\u00f3gica, seja grega (paideia \u2013 a condu\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u2013 de que resulta \u00abpedagogia\u00bb), seja latina (educere \u2013 conduzir a partir de dentro, fazer sair de dentro\u2026\u00bb), educar fala de emerg\u00eancia de algo que est\u00e1 presente e \u00e9 preciso fazer despertar. O educador \u00e9 aquele que faz nascer do interior do educando a sua pr\u00f3pria identidade. <\/p>\n<p>Uma tal defini\u00e7\u00e3o obriga a situar a educa\u00e7\u00e3o muito para al\u00e9m da mera instru\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o de saberes, supostos, por\u00e9m. Educar ter\u00e1 de ser, antes, um caminho que se faz na tens\u00e3o entre o que j\u00e1 est\u00e1 presente e o que ainda se est\u00e1 a conquistar. Nem acomodado ao que j\u00e1 possui cada educando, nem dominado pelo saber n\u00e3o detido por aquele que cresce. \u00c9 a tens\u00e3o que define educar. Neste sentido, \u00e9 a pessoa toda que se encontra envolvida no processo educativo, seja na sua condi\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria e projecto, seja na sua dimens\u00e3o de interioridade e rela\u00e7\u00e3o. Percebemos, assim, que a tarefa da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode bastar-se com a comunica\u00e7\u00e3o de saberes exteriores ou dominada pela perspectiva da t\u00e9cnica, que pretende o dom\u00ednio sobre a natureza. Educar \u00e9, acima de tudo, a tarefa de construir-se a si mesmo, aquilo a que os gregos chamavam a procura da \u00abvida feliz\u00bb, que visa o bem. <\/p>\n<p>Ora, na nossa perspectiva, \u00e9 este horizonte que parece estar dilu\u00eddo quando se discute a educa\u00e7\u00e3o. Parece estar-se centrado no problema da t\u00e9cnica, depreciando a emerg\u00eancia do humano, para cujo contributo \u00e9 decisivo o envolvimento de todas as inst\u00e2ncias que convergem para a pessoa: fam\u00edlia, pares, comunidades, sociedade em geral. Um modelo em que a escola se fecha sobre si redunda num fracasso e representa um encerramento autista, de que sai prejudicado o indiv\u00edduo, primeiramente, e, por decorr\u00eancia, a sociedade. <\/p>\n<p>\u00c9 este o percurso que importa tra\u00e7ar, envolvendo a vida de todos na vida da educa\u00e7\u00e3o porque \u00e9 isto que as supostas crises de educa\u00e7\u00e3o denunciam. Um Estado que se fecha em si e se considera detentor solit\u00e1rio da solu\u00e7\u00e3o para este \u00e2mbito decisivo da vida em comunidade trai o dever da educa\u00e7\u00e3o, ao atribuir-se a capacidade, que n\u00e3o tem (e, em Portugal, n\u00e3o lhe est\u00e1 atribu\u00edda pelo Constitui\u00e7\u00e3o), de definir os fins espec\u00edficos da educa\u00e7\u00e3o para cada pessoa, compet\u00eancia subsidi\u00e1ria das fam\u00edlias. Poder\u00edamos dizer que n\u00e3o \u00e9 o Estado que educa, mas as fam\u00edlias que, por n\u00e3o se sentirem competentes em todas as mat\u00e9rias, solicitam o aux\u00edlio do Estado. Mas \u00e9 dos pais tal direito e dever. Porque, de facto, educar \u00e9 assunto de amor, de emerg\u00eancia da humanidade que est\u00e1 presente em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o motivada pelo f\u00f3rum \u201cPensar a Escola. 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