{"id":4768,"date":"2006-04-03T14:44:00","date_gmt":"2006-04-03T14:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=4768"},"modified":"2006-04-03T14:44:00","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:00","slug":"eucaristia-e-harmonia-do-universo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/eucaristia-e-harmonia-do-universo\/","title":{"rendered":"Eucaristia e Harmonia do Universo"},"content":{"rendered":"<p>A eucaristia tem uma ineg\u00e1vel dimens\u00e3o c\u00f3smica, envolve todas as realidades criadas, desvenda o sentido e marca o rumo a toda a cria\u00e7\u00e3o, abre horizontes de plenitude a toda a realiza\u00e7\u00e3o humana. \u00c9, de facto, o sacramento que melhor concentra a teologia das realidades terrestres e est\u00e1 mais relacionado com as ci\u00eancias do universo, designadamente com as ambientais e ecol\u00f3gicas. Esta dimens\u00e3o \u00e9 resultado da presen\u00e7a original do Esp\u00edrito de Deus nos bens criados e na natureza humana e de Jesus ressuscitado no p\u00e3o e no vinho, frutos da terra e do trabalho.<\/p>\n<p>Esta perspectiva abre-nos \u201c\u00e0 missa sobre o mundo\u201d que Teilhard Chardin, padre jesu\u00edta, te\u00f3logo e investigador cient\u00edfico, inclui no seu maravilhoso livrinho \u201cO hino do Universo\u201d. \u00c9 o pr\u00f3prio autor que narra como surgiu esta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia andava nos seus trabalhos em pleno deserto. \u00c9 o domingo da Transfigura\u00e7\u00e3o do Senhor. Ao querer celebrar a eucaristia, d\u00e1 conta que n\u00e3o tem p\u00e3o nem vinho. Ent\u00e3o, num rasgo de g\u00e9nio inspirado, faz uma ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as em que oferece a Deus o cosmos inteiro, pedindo-Lhe que sacramentalize toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este gesto feliz encontra o seu apoio mais consistente nos ensinamentos da Igreja, designadamente em certas preces lit\u00fargicas, e suscita reflex\u00f5es teol\u00f3gicas cheias de interesse pastoral. Sirva de exemplo a IV Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica em que, do pref\u00e1cio ao \u00e1men conclusivo, a cria\u00e7\u00e3o inteira \u00e9 apresentada como ac\u00e7\u00e3o de Deus Pai em crescente dinamismo at\u00e9 atingir a plenitude em Cristo, sob o impulso renovador do Esp\u00edrito. \u00c9 esta cria\u00e7\u00e3o que, liberta da corrup\u00e7\u00e3o do pecado e da morte, se associa ao c\u00e2ntico novo que os justos entoar\u00e3o eternamente.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o pastoral faz-nos ver outros elementos que brotam da eucaristia. S\u00e3o eles os dons apresentados, o sentido do trabalho e o alcance da consagra\u00e7\u00e3o da realidade. <\/p>\n<p>Os dons oferecidos convertem-se no corpo e sangue de Cristo. Ele \u00e9 a verdadeira oferenda que quer associar-nos a si, de forma definitiva. Mas os dons s\u00e3o fruto da terra e do trabalho e, por isso, desvendam situa\u00e7\u00f5es interpelantes. Como est\u00e1 a terra querida por Deus como um jardim para todas as pessoas?! Que olhos a contemplam e que ouvidos perscrutam os seus segredos em profundidade?! Que cora\u00e7\u00e3o acolhe os seus gritos de ang\u00fastia e de opress\u00e3o?! Quem se preocupa com a conserva\u00e7\u00e3o dos seus recursos escassos e n\u00e3o renov\u00e1veis?! Em que estado a receber\u00e3o as gera\u00e7\u00f5es futuras, nossas herdeiras naturais?! <\/p>\n<p>O p\u00e3o e o vinho evocam estas situa\u00e7\u00f5es e constituem uma esp\u00e9cie de memorial da terra-m\u00e3e e das grandes correntes ideol\u00f3gicas que a dominam. Deixam tamb\u00e9m em aberto a urg\u00eancia de uma educa\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade do sistema econ\u00f3mico e ecol\u00f3gico. O p\u00e3o e o vinho, dons que Deus partilha, comportam um apelo e urgem uma alternativa. <\/p>\n<p>Al\u00e9m de frutos da natureza, estes dons prov\u00eam do trabalho humano. E aqui, o alcance eucar\u00edstico ainda \u00e9 mais interpelante. S\u00e3o necess\u00e1rios olhos para contemplar a beleza da obra feita e o engenho de quem a moldou, para verificar a justi\u00e7a laboral em todas as suas dimens\u00f5es, para apreciar o esfor\u00e7o e o envolvimento de tantas pessoas que n\u00e3o desistem de humanizar o mundo do trabalho e de procurar garantir a produtividade em todos os sectores. Estes olhos abrem-se a uma nova dimens\u00e3o: o trabalho coopera com a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito a fim de que surja a nova humanidade, simbolizada na eucaristia. <\/p>\n<p>Os dons s\u00e3o trazidos ao altar, qual mesa da humanidade, onde Deus quer alimentar todos os seus filhos. Celebrar a eucaristia, sem entrar no projecto de Deus, \u00e9 cerim\u00f3nia despida de sentido. Estar na eucaristia, sem assumir a sorte da humanidade, \u00e9 rito presencial de quem prefere ser espectador e n\u00e3o agente. Participar na eucaristia \u00e9 cultivar os sentimentos de Jesus Cristo, que se faz corpo entregue e sangue derramado por um mundo novo, \u00e9 aprender na sua escola a viver, cada vez mais, um amor de doa\u00e7\u00e3o em prol de toda a humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A eucaristia tem uma ineg\u00e1vel dimens\u00e3o c\u00f3smica, envolve todas as realidades criadas, desvenda o sentido e marca o rumo a toda a cria\u00e7\u00e3o, abre horizontes de plenitude a toda a realiza\u00e7\u00e3o humana. \u00c9, de facto, o sacramento que melhor concentra a teologia das realidades terrestres e est\u00e1 mais relacionado com as ci\u00eancias do universo, designadamente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-4768","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4768\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}