{"id":495,"date":"2010-02-03T12:04:00","date_gmt":"2010-02-03T12:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=495"},"modified":"2010-02-03T12:04:00","modified_gmt":"2010-02-03T12:04:00","slug":"entre-ruinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/entre-ruinas\/","title":{"rendered":"Entre ru\u00ednas"},"content":{"rendered":"<p>O Haiti entrou no grande teatro do mundo por motivos bem diferentes daqueles por que frequentemente era noticiado: as crises pol\u00edticas e os golpes de Estado. \u00c0 not\u00edcia do sismo sempre se juntou uma outra n\u00e3o menos dram\u00e1tica: a pobreza. \u201cUm dos pa\u00edses mais pobres do mundo\u201d foi o subt\u00edtulo que sempre acompanhou as grandes manchetes sobre um sismo que teve apenas mais um ponto do que aquele que recentemente nos atingiu. Poder\u00edamos ter sido n\u00f3s.<\/p>\n<p>Um acontecimento desta ordem, num grau de trag\u00e9dia t\u00e3o intenso, deixa-nos sempre um oceano de quest\u00f5es que vamos arrumando desajeitadamente at\u00e9 que o tempo nos canse, as imagens nos saturem e um outro evento nos mude os registos da emo\u00e7\u00e3o. Desta vez n\u00e3o foi excesso de chuvas, desabamentos, fura\u00e7\u00f5es, possivelmente por maus-tratos que vamos dando \u00e0 gest\u00e3o do frio e do calor nos nossos mecanismos de civiliza\u00e7\u00e3o. Desta vez n\u00e3o sabemos bem o que h\u00e1 a fazer com placas tect\u00f3nicas que se movem poucos quil\u00f3metros abaixo do mar e estoiram com o r\u00e9s-do-ch\u00e3o do nosso planeta onde constru\u00edmos as nossas casas e desenhamos as nossas cidades, desde o barrac\u00e3o rudimentar ao pal\u00e1cio presidencial.<\/p>\n<p>Neste oceano de ru\u00ednas perguntamos pela bondade de Deus, pela ordem do universo, pela intelig\u00eancia harmoniosa das for\u00e7as natureza. E deixamos, primeiro, tudo cair num magoado sil\u00eancio. Paradoxalmente a todas as perguntas que a morte e o sofrimento nos lan\u00e7am, juntamos sempre uma: \u201cA quem iremos, Senhor?\u201d E podemos percorrer o pranto que se espalha em muitos salmos, as desola\u00e7\u00f5es que s\u00e3o lamentadas pelos profetas, as dores e ru\u00ednas que foram acompanhando a humanidade que cronistas, pintores, poetas e m\u00edsticos plangeram. A Jerusal\u00e9m destru\u00edda, o povo no ex\u00edlio, o pranto e as l\u00e1grimas. E a cruz, com a sua dram\u00e1tica contradi\u00e7\u00e3o, apenas iluminada no mist\u00e9rio de Deus. Quem mais nos poder\u00e1 aquietar o cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Aqui se abre outro cap\u00edtulo: foram destru\u00eddas muitas casas que nunca mereceram esse nome. Testemunhamos viol\u00eancia e desespero em momentos extremos. Assistimos a gestos de ternura e humanidade mais not\u00f3rios nestes momentos. Chegaram olhares de solidariedade do mundo inteiro que foi assinando a evolu\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia a par de gestos sublimes que ela suscitou de abnega\u00e7\u00e3o e hero\u00edsmo. Atrasadas para a urg\u00eancia, foram e v\u00e3o chegando sinais de ajuda, fraternidade, ren\u00fancias dum mundo que tantas vezes parece leviano mas que tem momentos &#8211; quantas vezes na sequ\u00eancia de trag\u00e9dias &#8211; em que traz ao de cima a humanidade que o habita.<\/p>\n<p>O Haiti vai ressurgir das cinzas. A intensidade do sofrimento \u00e9 excessiva para justificar a reconstru\u00e7\u00e3o dum pa\u00eds. Mas \u00e9 mais uma paradoxal li\u00e7\u00e3o para a humanidade. A f\u00e9, em vez de obst\u00e1culo para todo este cen\u00e1rio, oferece a chave de reden\u00e7\u00e3o que insere nas contas e no tempo de Deus o que queremos encaixar apenas nos nossos c\u00e1lculos imediatos. E na ac\u00e7\u00e3o concreta dos homens. Com as energias de ressurrei\u00e7\u00e3o que est\u00e3o no \u00edntimo de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>E um apelo, para que o Haiti e todos os Haitis do mundo sejam conhecidos e amados por outras raz\u00f5es que n\u00e3o a trag\u00e9dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Haiti entrou no grande teatro do mundo por motivos bem diferentes daqueles por que frequentemente era noticiado: as crises pol\u00edticas e os golpes de Estado. \u00c0 not\u00edcia do sismo sempre se juntou uma outra n\u00e3o menos dram\u00e1tica: a pobreza. \u201cUm dos pa\u00edses mais pobres do mundo\u201d foi o subt\u00edtulo que sempre acompanhou as grandes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=495"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/495\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}